A cúpula do capitólio em Havana iluminada, numa cidade totalmente às escuras.
A cúpula do capitólio em Havana iluminada, numa cidade totalmente às escuras. EPA/Ernesto Mastrascusa

Cuba à beira do colapso: país prepara-se para recorde de 72% de apagões

Combinação de infraestruturas obsoletas, fim do petróleo subsidiado da Venezuela e aperto do cerco financeiro de Washington deixam Havana às escuras até 20 horas diárias.
Publicado a
Atualizado a

A rede elétrica de Cuba enfrenta este domingo (5 de julho) o seu momento mais crítico, num colapso que evidencia o esgotamento do seu um modelo económico dependente de subsídios externos à asfixia comercial que o país está a sofrer. Dados da estatal Unión Elétrica, compilados pela agência EFE, indicam que até 72% do território nacional ficará sem energia durante as horas de maior procura, estabelecendo um novo recorde histórico de apagões e superando a marca de 71% registada na sexta-feira anterior.

O governo cubano qualifica a situação como “aguda” e “extremamente tensa”, mas o problema central é estrutural. A central termoelétrica Antonio Guiteras — o coração energético da ilha — sofre de paragens constantes por avarias e falta de manutenção. Atualmente, 10 das 16 unidades geradoras do país estão totalmente inoperacionais, gerando um défice de 2230 megawatts num país que necessita de 3100 megawatts para funcionar minimamente.

O fim da "muleta" venezuelana e o erro de cálculo

A vulnerabilidade atual da ilha decorre diretamente do colapso do seu modelo de abastecimento. Durante décadas, Cuba dependeu do petróleo quase gratuito enviado pela Venezuela em troca de serviços médicos e de segurança. Com a interrupção definitiva desses envios no início de 2026, a economia cubana — centralizada e sem capacidade de gerar divisas (moeda estrangeira) — ficou exposta à sua incapacidade de comprar combustível a preços normais de mercado.

O país produz apenas 40 mil dos 100 mil barris diários de que necessita, e a falta de liquidez impede a importação regular para alimentar os motores geradores a diesel, que representam 40% da matriz energética nacional.

Embora o discurso oficial de Havana continue a centrar-se nas sanções dos EUA e nas restrições marítimas impostas pelas ordens executivas de Washington, analistas de mercado sublinham que a incapacidade de Cuba em modernizar a sua rede — uma obra avaliada entre 8 mil a 10 mil milhões de euros — decorre da sua própria reputação financeira.

Com um historial crónico de incumprimento de prazos com credores internacionais e um modelo económico que rejeita a abertura ao capital privado, o país não oferece qualquer garantia económica. O endurecimento das sanções norte-americanas funciona apenas como o golpe final num mercado que, por razões de risco de crédito e falta de reformas, já considerava o regime cubano financeiramente inviável.

Com bairros inteiros da capital sem luz durante 20 horas consecutivas, o recorde deste domingo expõe um país que esgotou os seus recursos e as suas alianças, sem qualquer margem de manobra técnica ou financeira para travar o colapso da rede.

Diário de Notícias
www.dn.pt