Cuba aprovou uma série de reformas económicas que visam liberalizar e descentralizar a economia da ilha, que sob a pressão de Washington enfrenta a pior crise desde o chamado "período especial", após a queda da aliada URSS.O primeiro-ministro cubano, Manuel Marrero, apresentou 176 medidas que foram aprovadas pelo Parlamento cubano, numa sessão especial na quinta-feira (18 de junho). Marrero referiu "medidas de impacto estratégico" que "não são rígidas" e não são concebidas como uma "capitulação" ou renúncia à construção do socialismo, mas antes como "uma condição indispensável para a sua preservação".Na sua intervenção, citada pelo Granma (o jornal oficial do Partido Comunista Cubano), o chefe do governo disse que "nunca se negaram os erros e falhas" internas, mas apontou os problemas para uma "combinação sem precedentes de medidas coercivas por parte do governo dos EUA, que chegou ao ponto de interromper o fornecimento de combustível e as fontes de receitas em divisas, afetando significativamente a estabilidade das infraestruturas energéticas e a qualidade de vida da população".Marrero disse ainda, segundo a mesma fonte, que as medidas propostas incluem o alargamento da participação de todos os agentes económicos em igualdade de circunstâncias, a promoção do investimento estrangeiro e a aceitação dos mecanismos de mercado como instrumento de alocação de recursos."São transformações para corrigir erros, mas sempre para defender o socialismo", afirmou, por seu lado, o presidente cubano, Miguel Díaz-Canel após a votação dos deputados. Numa reunião do Comité Central do Partido Comunista Cubano, na quarta-feira (17 de junho), o presidente admitiu que algumas das medidas "não serão objeto de consenso absoluto", mas defendeu que "é impossível adiá-las".O antigo líder Raúl Castro, de 95 anos, disse que dava carta branca a tais mudanças.Mas afinal, que medidas foram aprovadas?As medidas dizem respeito, principalmente, à organização de empresas privadas e estatais, à banca, ao turismo, à agricultura, ao investimento estrangeiro, aos impostos, aos salários e ao mercado cambial. "É o programa de reforma económica mais profundo anunciado nos últimos 70 anos da história económica do país, desde a vitória da revolução de 1959", disse à AFP o economista cubano Daniel Torralbas, radicado em Londres.Entre as reformas aprovadas estão a transformação de empresas estatais em sociedades anónimas, a autorização para empresas privadas com mais de 100 trabalhadores, a participação de capital estrangeiro no setor privado e a abertura de contas em moeda estrangeira para particulares.Os sectores da agricultura, turismo, banca e cambial estarão agora abertos ao investimento privado, tanto nacional como estrangeiro. Anteriormente, estes investimentos eram direcionados principalmente para empresas estatais.Os cubanos poderão ainda deter mais do que uma empresa privada e participações noutras empresas. A negociação salarial dentro das empresas será permitida.As propostas são conhecidas, mas o calendário para a sua implementação não, nem qual será a reação dos EUA - serão as mudanças suficientes?Estas reformas surgem depois de o presidente norte-americano, Donald Trump, ter decidido aplicar uma política de pressão máxima à ilha, que está sujeita a um bloqueio petrolífero – a queda do presidente venezuelano Nicolás Maduro, após uma operação militar norte-americano, obrigou ao corte do apoio de Caracas a Cuba.Isso levou a economia cubana, que é alvo de um embargo norte-americano desde 1962, a ficar à beira do colapso, com apagões generalizados, escassez de alimentos, combustível, água potável e medicamentos.Trump disse em março que seria "uma honra" poder "tomar Cuba", ameaçando com uma possível invasão, tendo o seu Departamento de Justiça anunciado entretanto uma acusação contra Raúl Castro (referente à morte de quatro pessoas no abate de um avião em 1996)..EUA acusam Raúl Castro de conspiração para matar pelo papel no derrube de dois aviões há 30 anos.Ao mesmo tempo, estarão a decorrer negociações entre Washington e Havana, com o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, de origem cubana, a oferecer uma nova relação entre os dois países numa mensagem vídeo para a ilha. Nela, também disse que "a única coisa que impede um futuro melhor são aqueles que controlam o país" e apontou o dedo à empresa GAESA (Grupo de Administração Empresaria) formada por Raúl quando era ministro da Defesa e operada pelas Forças Armadas. "Um Estado dentro do Estado"..Rubio oferece "uma nova relação entre EUA e Cuba" e diz que o único obstáculo é quem governa a ilha