O governo espanhol tem tentado, desde o início da crise migratória em Ceuta, evitar apontar o dedo a Marrocos, preferindo destacar a ajuda marroquina para “minimizar” o problema causado pela entrada de cerca de 80 mil pessoas na cidade autónoma (segundo os últimos números do governo local, que estima que 3000 a 5000 ainda não tenham regressado). Mas a ministra da Defesa, Margarita Robles, exigiu esta segunda-feira (3 de agosto) que Rabat investigue o que aconteceu, lembrando que nem Espanha nem Marrocos podem “olhar para o outro lado” diante da tragédia que resultou na morte de pelo menos 88 pessoas. “Peço ao governo marroquino que investigue e chegue ao fundo da questão” para esclarecer o que aconteceu, disse ontem Robles, acrescentando que “quem quer que esteja por trás disto, as máfias ou quem quer que tenha consentido ou tolerado, terá de assumir a responsabilidade”.A ministra defendeu ainda os serviços de informação espanhóis, evitando responder diretamente às questões sobre se o governo tinha ou não sido avisado da concentração de pessoas na zona de fronteira nos dias anteriores à crise - a oposição acusa o executivo de Pedro Sánchez de ignorar os alertas. Segundo o jornal El País, esses mesmos serviços concluíram que Rabat não planeou a situação (como se suspeita que aconteceu em 2021, em plena crise diplomática por causa do Saara Ocidental), mas deixou que se desenvolvesse e aproveitou-a para fins políticos. Os marroquinos quebraram o silêncio no domingo (2 de agosto), admitindo que 40 mil migrantes tinham chegado à fronteira com Ceuta e que 11 pessoas morreram no seu território na tentativa de entrar na cidade autónoma espanhola. Num comunicado, o Ministério do Interior disse que Marrocos “continuará a ser, tal como prometido aos seus parceiros, um parceiro fiável e responsável, empenhado em reforçar a cooperação e a coordenação internacionais”. E culpou uma série de factores pela crise migratória: “a exploração tendenciosa do espaço digital, a promoção de informação enganosa, o papel das redes de tráfico humano e as interpretações erradas de dados legais e administrativos, que apontavam para a ilusão da possibilidade de acesso fácil e sem consequências ao espaço europeu.”Até o Partido Popular (PP), a principal força da oposição em Espanha, tem focado os seus ataques no executivo de Sánchez e não em Rabat. O líder do PP, Alberto Núñez Feijóo, tinha exigido no fim de semana saber “o que falhou na cooperação com Marrocos”, dizendo querer que Madrid e Rabat tenham “uma relação de boa vizinhança, cooperação e respeito mútuo”. O líder da extrema-direita do Vox, Santiago Abascal, é mais duro, defendendo a militarização da fronteira para lidar com a “invasão” e acusando Sánchez de ser “subserviente” aos marroquinos.Espanha precisa de Marrocos, tanto para controlar a fronteira como pelas oportunidades de negócio, mas os marroquinos também precisam dos espanhóis para vender os seus produtos e atrair investimento. O país europeu é, desde 2012, o principal sócio comercial do africano, que, por sua vez, é o principal destino de investimento em África para as empresas espanholas. As trocas comerciais entre os dois países alcançaram, em 2024, o valor recorde de 22,7 mil milhões de euros. Mas a relação tem vários problemas, desde a histórica questão do Saara Ocidental (ex-colónia espanhola que Marrocos reclama como sua) até aos próprios territórios de Ceuta e Melilla, enclaves que os marroquinos também querem controlar. Em relação ao primeiro ponto, Sánchez alterou a tradicional postura de neutralidade em 2022 (após a crise de 2021) para apoiar o plano marroquino de maior autonomia para o Saara. Sobre as cidades autónomas, Madrid não admite qualquer negociação. divergências incluem questões mais recentes, como a polémica com a final do Mundial que os dois países, juntamente com Portugal, vão organizar em 2030. Marroquinos e espanhóis querem acolher o último jogo da competição.Teste europeuA presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, propôs esta segunda-feira (3 de agosto) que a União Europeia aumente o seu apoio a Marrocos para ajudar a evitar a repetição da crise de Ceuta. A proposta foi feita na resposta a uma carta de Sánchez, que tinha criticado a falta de apoio de alguns dos sócios europeus - 22 Estados-membros atacaram a sua política de legalização de 1,2 milhões de migrantes em situação ilegal. “Marrocos é um parceiro estratégico importante, especialmente nos nossos esforços para combater o tráfico de migrantes e a migração ilegal”, escreveu Von der Leyen na resposta, citada pela Reuters. E defendeu “reforçar os sistemas de alerta precoce na gestão das fronteiras e melhorar o nosso apoio técnico e financeiro a Marrocos”. Os ministros do Interior dos 27 vão reunir esta terça-feira (4 de agosto), por videoconferência, para discutir a crise em Ceuta, que é um teste ao Pacto Migratório europeu com Itália, Dinamarca e Finlândia a suspenderem temporariamente o acordo de Schengen nas suas fronteiras, apesar de a cidade autónoma não ser parte da área de livre circulação europeia. .Ceuta não é espaço Schengen, as responsabilidades da Justiça espanhola e outros factos sobre a crise.Crise em Ceuta: PM britânico promete ser “implacável” no combate às travessias em pequenas embarcações.Crise migratória em Ceuta: governo local calcula que ainda haja entre 3000 e 5000 migrantes na cidade autónoma."Ceuta foi a única cidade do Império Português que não reconheceu João IV como rei em 1640"