Marine Le Pen vai descobrir esta terça-feira (7 de julho) se tem ou não luz verde para ser candidata às presidenciais francesas pela quarta vez em 2027 ou se terá que deixar o caminho livre para o seu delfim, Jordan Bardella. O Tribunal de Recurso de Paris vai decidir se mantém ou não a condenação da líder parlamentar do Reagrupamento Nacional (RN) no caso dos falsos assistentes do Parlamento Europeu e só a absolvição (que os analistas consideram improvável) satisfaz os interesses da figura-chave da extrema-direita francesa. A 31 de março de 2025, Le Pen foi condenada pelo Tribunal Judicial de Paris por desvio de mais de quatro milhões de euros do Parlamento Europeu no caso dos falsos assistentes que a então Frente Nacional (atual RN) empregou entre 2004 e 2016. Além de uma pena de quatro anos de prisão (dois de pena suspensa e outros dois domiciliária com vigilância eletrónica) e de ter que pagar uma multa de cem mil euros, Le Pen foi condenada a cinco anos de inelegibilidade com efeitos imediatos, o que a impedia de concorrer em 2027 (eleições para as quais era vista como favorita). .Le Pen volta a tribunal para tentar salvar a sua candidatura presidencial em 2027.A líder parlamentar do RN recorreu de imediato da decisão, que considera uma “caça às bruxas política” destinada precisamente a afastá-la da quarta tentativa de chegar ao Eliseu (ficou em terceiro em 2012 e foi derrotada por Emmanuel Macron nas segundas voltas em 2017 e 2022). Antes da condenação, Le Pen surgia com 31% a 36% das intenções de voto na primeira volta e algumas sondagens apontavam para a sua vitória na segunda volta, com o desaparecimento do tradicional “teto de vidro” (o limite eleitoral que, durante décadas, impediu a extrema-direita de chegar ao poder). As últimas sondagens continuam favoráveis a Le Pen, mas criaram um problema para o RN. A sondagem Ifop-Fiducial de junho dá à líder parlamentar cerca de 32% das intenções de voto na primeira volta, bastante longe do centrista Édouard Philippe que surge como o principal adversário com entre 19% e 21% (Jean-Luc Mélenchon, da esquerda radical da França Insubmissa, tem entre 13% e 15%). Mas Bardella, que será o candidato caso Le Pen não vença o recurso, está a ter números melhores do que ela, surgindo com entre 35% e 37%. Uma explicação para isso, segundo o diretor-geral da Ifop, Frédéric Dabi, é que os eleitores já estão a antecipar a possibilidade de Le Pen perder o recurso. A filha de Jean-Marie Le Pen, que fundou o partido em 1972 e o liderou durante quase 40 anos até passar a pasta à filha em 2011, avisou, em entrevista à LCI, que se a justiça revogar a condenação de inelegibilidade mas confirmar o uso de pulseira eletrónica, não terá condições para fazer uma campanha “normal” e não poderá ser candidata. Se mantiver a condenação, ainda é possível recorrer para o Tribunal de Cassação. Mas Le Pen disse que não vai deixar que “as coisas se arrastem”, não podendo ficar à espera de uma eventual decisão favorável só daqui a três ou quatro meses. Mas mesmo que ganhe na justiça, as sondagens podem levar o partido a equacionar se Le Pen, de 57 anos, é a melhor candidata ou se deve virar a página e apostar em Bardella, 27 anos mais novo. E nem tudo são boas notícias para o presidente do RN, que também é alvo de investigações judiciais. Segundo o jornal L’Obs, deverá ser aberta uma sobre o alegado exercício de um emprego fictício como assistente parlamentar do eurodeputado Jean-François Jalkh durante menos de cinco meses em 2015. Ele nega as acusações. Por outro lado, num caso separado, o Ministério Público Europeu também abriu uma investigação por suspeita de fraude com a utilização de fundos europeus fora do âmbito europeu. O dinheiro terá sido supostamente usado para ações de comunicação e formação para o preparar para a campanha de Le Pen em 2022. O RN contesta a acusação, dizendo que a formação incidiu sobre temas europeus.Entretanto, a espera pela decisão judicial abriu uma brecha entre Le Pen e Bardella. Primeiro foi uma diferença de opinião em relação ao imposto sobre lucros extraordinários das gigantes petrolíferas, como a Total, algo que Le Pen apoia e que Bardella questiona. Depois veio a questão da reforma das pensões, quando o líder do partido, mais liberal em questões económicas, disse que o RN estava a avaliar o tema (muito sensível em França). A antecessora tem defendido sempre que a idade de reforma deve continuar nos 62 anos (60 no caso de carreiras contributivas mais longas), em oposição à reforma promovida por Macron, que previa a subida progressiva para os 64 anos e que está suspensa até 2028.A decisão judicial e a escolha oficial do candidato do RN deverão ditar qual das duas linhas o partido vai defender até às eleições presidenciais de 2027. .Le Pen vs. Bardella: duas vozes em desacordo para um partido com ambição de poder.Marine Le Pen com “esperança” num desfecho positivo