A imagem do projeto Trump para a futura Gaza.
A imagem do projeto Trump para a futura Gaza.FOTO: REPRODUÇÃO

Como é o mega-projeto imobiliário de 25 mil milhões para Gaza apresentado pelo genro de Trump em Davos

Projeto propõe uma transformação profunda após a guerra, com forte envolvimento dos EUA e de investidores internacionais, com o objetivo de tornar o enclave num centro económico regional até 2035.
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O futuro de Gaza foi apresentado em Davos (Suíça) com o discurso típico de um promotor imobiliário de grande escala. Segurança, investimento, torres à beira-mar e “localização privilegiada” foram algumas das ideias-chave do plano de reconstrução defendido por Jared Kushner, genro de Donald Trump, num encontro do recém-criado Conselho da Paz, à margem do Fórum Económico Mundial.

Avaliado em cerca de 25 mil milhões de dólares (cerca de 21,3 mil milhões de euros, à taxa de câmbio atual), o projeto propõe uma transformação profunda da Faixa de Gaza após a guerra, com forte envolvimento dos Estados Unidos e de investidores internacionais, com o objetivo de tornar o enclave num centro económico regional até 2035. O plano, que foi apresentado como a fase seguinte ao cessar-fogo entre Israel e o Hamas, não tem qualquer referência explícita a um caminho para um Estado palestiniano.

A iniciativa estabelece metas ambiciosas para a próxima década, como elevar o PIB de Gaza para mais de 10 mil milhões de dólares (8,5 mil milhões de euros) e aumentar a renda média anual das famílias para mais de 13 mil dólares (cerca de 11 mil euros).

“Depois do acordo inicial, toda a gente estava a celebrar, mas nós estávamos a perguntar: o que fazemos a seguir?”, relatou Kushner, antigo conselheiro da Casa Branca e promotor imobiliário. O genro de Trump sublinhou que a “condição número um” para qualquer reconstrução é a segurança, afirmando que Washington está a trabalhar “muito de perto com os israelitas” para garantir uma fase de “desescalada” e, numa etapa seguinte, acertar com o Hamas a desmilitarização do território.

“Sem segurança, ninguém vai investir, ninguém vai construir”, afirmou. “Precisamos de investimento para criar empregos e reduzir a dependência da ajuda externa.”

Mapas e imagens de arranha-céus

Durante a apresentação, Kushner mostrou um mapa da Faixa de Gaza dividido em zonas “residenciais” e áreas de “turismo costeiro de uso misto”. O plano prevê a construção de cerca de 100 mil unidades habitacionais em Rafah, no sul, e o desenvolvimento de uma área batizada como “Nova Gaza”, marcada por torres residenciais e comerciais ao longo da costa mediterrânica.

As imagens divulgadas mostram edifícios altos junto ao mar, numa lógica semelhante à de novos centros urbanos construídos nos últimos anos noutros países do Médio Oriente, promovendo uma espécie de mini-Dubai. “Nesta região, constroem-se cidades para dois ou três milhões de pessoas em três anos. Isto é perfeitamente exequível, se quisermos que aconteça”, disse Kushner.

Oriundo de uma família judia, o genro de Trump (Kushner é casado com Ivanka) já tinha afirmado anteriormente que Gaza possui uma frente marítima “muito valiosa”, uma ideia que foi retomada pelo próprio presidente norte-americano nos seus comentários finais em Davos.

“É uma localização extraordinária”, afirmou Trump. “Sou uma pessoa do imobiliário e tudo gira em torno da localização.” O presidente descreveu Gaza como uma “bela peça de propriedade” com potencial para proporcionar uma vida melhor aos seus habitantes, com vista para o mar.

Complexos turísticos no litoral, um novo porto e um novo aeroporto

Segundo relata o Jerusalem Post, o plano está estruturado em torno de um cronograma de desenvolvimento de seis fases, que começa no sul e avança para o norte. A Fase I concentra-se em Rafah e Khan Yunis. A Fase II envolve a expansão de Khan Yunis. A Fase III visa o desenvolvimento nos campos de refugiados centrais, enquanto a Fase IV centra-se na reconstrução da Cidade de Gaza.

Planta do projeto apresentado em Davos para a reconstrução de Gaza
Planta do projeto apresentado em Davos para a reconstrução de GazaReprodução

Neste plano, uma grande parte do litoral é destinada ao turismo costeiro, com planos para a construção de 180 torres de uso misto. O interior da Faixa de Gaza é dividido por zonas para bairros residenciais e zonas industriais que abrangem mais de 25 quilómetros quadrados, com o objetivo de abrigar centros de dados e instalações industriais avançadas.

A proposta de infraestruturas inclui um novo porto e um novo aeroporto, uma passagem trilateral em Rafah, uma linha ferroviária de carga com um corredor logístico de apoio e uma rede de estradas principais e circulares para conectar os centros urbanos de Gaza, acrescenta o jornal israelita.

O plano apresentado por Kushner prevê a criação de mais de 500 mil novos empregos nos setores da construção civil, agricultura, indústria e tecnologia digital.

Trump já tinha falado em "comprar" Gaza

O projeto apresentado alinha com declarações anteriores de Donald Trump, em que defendeu que os Estados Unidos deveriam “comprar e ficar dono” de Gaza, tratando o território como um grande projeto de reabilitação imobiliária, já em fevereiro passado. Então, em declarações a bordo do avião presidencial Air Force 1, o presidente norte-americano disse que outros países do Médio Oriente poderiam ser chamados a reconstruir partes do enclave “sob os auspícios” de Washington.

Trump sugeriu na altura que muitos palestinianos deslocados não regressariam a Gaza se lhes fosse oferecida uma alternativa noutro local, uma afirmação que gerou forte contestação por parte de representantes palestinianos e da comunidade internacional.

A imagem do projeto Trump para a futura Gaza.
Conselho de Paz para Gaza ou Nações Unidas de Trump?

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