O que era para ser um Conselho de Paz dedicado em exclusivo à pacificação da Faixa de Gaza e à sua reconstrução passou a ser um projeto de diplomacia paralela das Nações Unidas à medida de Donald Trump. Depois de se saber que os líderes convidados que optassem pela permanência no Conselho teriam de desembolsar mil milhões de dólares, foi revelado que o âmbito do órgão é muito mais vasto do que Gaza. Se alguns líderes, como o rei de Marrocos ou o autocrata bielorrusso, aceitaram de imediato, outros ficaram diplomaticamente a refletir e outros mostraram o incómodo de toda a situação. E também há quem tenha liminarmente rejeitado o convite. A administração Trump planeia para esta quinta-feira uma cerimónia de lançamento do Conselho de Paz no Fórum de Davos, na Suíça. Mas numa altura em que ameaça tomar a Gronelândia e de tomar medidas retaliatórias para quem não o siga, como a ameaça de taxas aduaneiras de 200% para os vinhos e champanhes franceses, ou de qualificar de “estúpida” a decisão dos britânicos de ceder a soberania do arquipélago de Chagos à Maurícia, a iniciativa não está a ser acolhida de braços abertos, pelo menos na Europa. O convite proveniente da Casa Branca que os líderes receberam tem anexa uma carta de princípios que não se refere uma única vez a Gaza. Estabelece que o presidente do Conselho de Paz - Donald Trump - tem um mandato ilimitado. Já os convidados estarão sujeitos a uma renovação de três em três anos, a não ser que paguem mil milhões de dólares para garantir um assento permanente. “É uma ‘ONU à Trump’ que ignora os princípios fundamentais da Carta da ONU”, disse um diplomata europeu à Reuters. Outros três diplomatas ocidentais notaram que, caso o plano se concretize, irá minar as Nações Unidas. A instituição chefiada por António Guterres é um alvo frequente de Trump. O Conselho de Paz foi aprovado pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas, mas o seu mandato está limitado no tempo, 2027, e no objetivo, a Faixa de Gaza. O líder chinês Xi Jinping foi convidado a participar, mas pela forma como o Global Times, o diário em língua inglesa do Partido Comunista, se refere ao Conselho de Paz, seria uma surpresa se aceitasse. Para Lü Xiang, investigador na Academia Chinesa de Ciências Sociais, a iniciativa “parece ter sido concebida para servir interesses pessoais”. Além disso, releva que o desenho da instituição tem como objetivo assegurar o seu controlo a longo prazo, e que poderá ter como finalidade não declarada a defesa de interesses comerciais dos EUA. Até agora, a França e a Noruega recusaram participar, e a Ucrânia e o Reino Unido levantaram a questão de Vladimir Putin poder fazer parte do Conselho. A maior parte das capitais limitou-se a informar que recebeu o convite e que este está a ser analisado. O primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu, também se mostrou crítico. Mas no seu caso porque em paralelo foi criado um Conselho Executivo de Gaza para apoiar a equipa de tecnocratas palestinianos, e nesse conselho estão incluídos funcionários do Qatar e da Turquia.Em sentido contrário, a argentino Javier Milei, o bielorrusso Alexander Lukashenko, o marroquino Mohammed VI, o húngaro Viktor Orbán, o cazaque Kassym-Jomart Tokayev, o usbeque Shavkat Mirziyoyev, o baremita Hamad Ben Issa Al-Khalifa e o emiradense Abdullah bin Zayed aceitaram o convite..Candidatos a lugar permanente no Conselho da Paz de Trump devem pagar 860 milhões de euros .Países cujos líderes foram convidados As agências AFP e Bloomberg confirmaram os convites aos dirigentes dos seguintes países:África do Norte e Médio OrienteArábia Saudita, Bahrein, Egito, Emirados Árabes Unidos, Israel, Jordânia, Marrocos, Omã, Qatar e Turquia AméricaArgentina, Brasil, Canadá, ParaguaiÁsiaArménia, Cazaquistão, China, Coreia do Sul, Índia, Indonésia, Japão, Paquistão, Rússia, Singapura, Tailândia, Usbequistão e VietnameEuropaAlbânia, Alemanha, Áustria, Bielorrússia, Chipre, Eslovénia, Espanha, Finlândia, França, Grécia, Hungria, Irlanda, Itália, Noruega, Portugal, Reino Unido, Roménia, Suécia, Suíça, Ucrânia e Comissão Europeia OceâniaAustrália e Nova Zelândia