“Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff, o meu voto é sim”, disse, a 17 de abril de 2016, o então obscuro deputado Jair Bolsonaro, referindo-se ao mais notório dos torturadores da ditadura militar do Brasil, durante a votação na Câmara dos Deputados que se decidiu, por 367 votos a favor, 137 contra e sete abstenções, pela queda da então presidente da República. Dez anos depois, cientistas políticos afirmam que o que se seguiu foi o período “mais tenso” da história de 203 anos da independência do país. “Foram dez anos de idas e vindas em vez de um rumo claro, com um novo Brasil dominado pela agenda evangélica e pela teologia da prosperidade, foram por isso os anos mais tensos e angustiantes da história“, resumiu Vinícius Vieira, professor de Ciência Política e Relações Internacionais da Fundação Armando Álvares Penteado.“Foram 10 anos extremamente conturbados em que o Brasil correu forte risco de retorno à ditadura, o impeachment de Dilma foi um marco na chegada da extrema-direita ao poder”, acrescenta Paulo Ramirez, professor de Ciência Política da Fundação Escola de Sociologia e História.Embora não tenha sido naquela tarde que Dilma caiu oficialmente por ter cometido supostas “pedaladas fiscais”, ou seja, “manobras orçamentárias” consideradas ilegais por alguns juristas e corriqueiras por outros, uma vez que a votação ainda seria ratificada em setembro daquele ano pelo Senado, foi aquele 17 de abril que ficou para a história.Porque, depois do voto de Bolsonaro que chocou os pares deputados, a plateia e os espectadores do Brasil (e não só) que assistiam ao vivo à votação, seguiram-se votos em nome “do grupão de amigos de Uberlândia”, “dos corretores de seguros”, “do ensino de sexo na escola”, “da família quadrangular evangélica”, “da paz em Jerusalém”, “das mãos calejadas dos fumicultores e da indústria fumageira” ou “de você, mamãe”. Aquele dia expôs, portanto, o nível médio dos parlamentares brasileiros – e serviu de preâmbulo ao que aí vinha. Da queda de Dilma até hoje, o Brasil foi governado por Michel Temer, num governo tampão marcado por casos de corrupção, por Jair Bolsonaro, que entretanto foi preso por tentativa de golpe de estado, durante quatro anos, e por Lula do Silva, que também havia sido detido por suposta corrupção, por outros quatro, numa sucessão de eventos rara – ou, melhor, única – na história. “Embora ela tenha sido substituída primeiro pelo vice-presidente Michel Temer, por ter cometido as tais pedaladas, sendo que na mesma altura muitos governadores estaduais o haviam feito, a partir desse dia a extrema-direita perdeu a vergonha, ela já circulava muito nas redes mas começou a circular também nos meios de comunicação tradicionais com discursos de ódio e ultra-religiosos que levaram à vitória de Bolsonaro”, opina Paulo Ramírez.“Na sequência, Lula foi preso, por ação de Sergio Moro, hoje candidato a governador pelo partido de Bolsonaro, num processo em que se provou conluio ilegal do juiz com o ministério público, foi como se o juiz marcasse o penálti, o convertesse e festejasse o golo”.“Depois, além da catástrofe da pandemia, o governo Bolsonaro ficou marcado por ataques à democracia, Lula ganhou em 2022 mas a extrema-direita consolidou-se no parlamento na contramão dos direitos humanos e do bom senso”, completa o politólogo.Para Vinícius Vieira, “nasceu nestes dez anos um Brasil que não se sabe onde vai parar, se ao autoritarismo, como a liderança de Flávio Bolsonaro nas sondagens de 2026 parece sugerir, ou se ao equilíbrio, com mudanças pertinentes no campo da religião, e com um posicionamento claro no mundo, finalmente, desde a invenção do país por Portugal”.“Entretanto, discordo da análise de que foi o impeachment que gerou o bolsonarismo, o que o gerou foi a manutenção dos privilégios das elites juntamente com a baixa entrega de crescimento económico e a ascensão evangélica”, continua.Os dois cientistas políticos ouvidos pelo DN também não convergem sobre se valeu a pena, ou não, derrubar Dilma, dada a crise económica da época. “O Brasil já passara por crises económicas piores e nem por isso os presidentes caíram mas como Dilma não fez negociações com a elite arcaica e os setores mais conservadores do Congresso quem caiu foi ela”, defende Ramírez.“Ela anunciou à saída que viria aí um movimento de perda de direitos sociais, empobrecimento da população, ataque à educação pública e aos valores democráticos e acertou em cheio, mas, por outro lado, com Temer fazendo o jogo da extrema-direita, se ela tivesse continuado até ao fim do mandato seriam dois anos de paralisia decisória…”Já Vieira acha que “económica e politicamente valeu a pena tirar a Dilma, porque o que aconteceu depois não foi tanto uma consequência do impeachment e mais dessas transformações sociais que a presidente não soube ler, ao despertar ojeriza em muitos setores da sociedade por decidir punir os crimes da ditadura e avançar demasiado na pauta dos costumes”..Dilma: "Eu não vou cair, não vou"