“Esta eleição vai decidir o destino dos EUA e, juntamente com os EUA, decidir o destino da civilização ocidental”, afirmou Elon Musk no comício de quinta-feira, em Folsom, na Pensilvânia, um dia depois de ter sido notícia que contribuiu com 75 milhões de dólares para a campanha de Donald Trump. De chapéu dourado com a inscrição Make America Great Again (MAGA), o sul-africano naturalizado norte-americano em 2002 deu azo às teorias da conspiração ao afirmar que “seria interessante ver o cruzamento entre a lista de clientes de Epstein e os marionetistas de Kamala”, uma referência a Jeffrey Epstein, o milionário que morreu na prisão, em 2019, enquanto aguardava julgamento por crimes sexuais com menores. “Aposto que há muitos nomes que aparecem em ambas as listas”, especulou, no primeiro de uma série de encontros que vai fazer até segunda-feira com eleitores na Pensilvânia, estado que diz ser decisivo. Foi na sequência da tentativa de assassínio de Donald Trump, em meados de julho, que Elon Musk declarou o seu apoio ao ex-presidente. Mas a aproximação começara antes. Em março, depois da sua aposta Ron DeSantis ter falhado, o homem considerado mais rico do mundo encontrou-se com o candidato republicano na estância de luxo deste na Florida. No mês seguinte, foi o anfitrião de um jantar anti-Biden que reuniu vários bilionários. Em paralelo com o apoio de milhões de dólares e a influência exercida através da sua rede social, X, de então para cá, a relação aprofundou-se. Primeiro com uma conversa entre ambos transmitida no X (minada por falhas técnicas); em setembro, com o anúncio de Trump de que uma vez eleito Musk iria dirigir uma comissão para a redução das despesas públicas; no dia 5 com a presença no comício de Butler, na Pensilvânia, onde Trump voltou ao local do crime, isto é, onde um atirador por pouco falhou a tentativa de o matar, e onde foi entronizado de “vice-presidente sombra, o segundo vice-presidente”, como define a politóloga Asma Mhalla, em entrevista ao Libération. Na ocasião, vestido de preto e de chapéu MAGA igualmente preto, e depois de ter pulado em palco, Musk definiu-se como “Dark MAGA”. Não apenas por estar vestido de negro, mas em alusão a uma estética usada nas redes sociais por uma franja da extrema-direita, e cujos conteúdos estão associados a uma ideia de vingança e de violência política a executar por Trump. O homem que se identifica com super-heróis da banda desenhada, em particular com o Homem de Ferro, podia estar a ser irónico. No entanto, ao dizer que “o outro lado quer tirar a liberdade de expressão e o direito ao porte de armas” e que, se Trump não vencer, “serão as últimas eleições”, não estava a tentar fazer rir o público. No dia seguinte, o comité de ação política criado em maio e financiado por Musk, America PAC, iniciou uma petição pela liberdade de expressão e porte de armas, e na qual oferecia 47 dólares (referência ao número da próxima presidência) a quem recrutasse eleitores dos sete estados decisivos para assinarem o documento. As ações do referido comité, publicitadas numa conta com o nome America no X, o antigo Twitter, passaram também pela contratação à hora de funcionários para fazerem campanha de porta em porta nos estados que farão a diferença. O objetivo revelado no The Wall Street Journal passava por assegurar 800 mil votos em resultado de um investimento que poderá atingir os 160 milhões de dólares. .Radicalização.Como é que o proprietário da Tesla e da SpaceX, que diz ter votado em Joe Biden em 2020, acabou a fazer campanha por Trump quando há dois anos desejava publicamente a retirada da vida pública do ex-presidente? Explicam os biógrafos e pessoas próximas que o bilionário, que se diz libertário, era defensor do combate às alterações climáticas e publicava mensagens com arco-íris em defesa da publicidade da Tesla direcionada aos clientes LGBT, fez uma deriva para a extrema-direita em resultado das suas frustrações. A primeira aconteceu durante a pandemia, quando a sua fábrica na Califórnia foi obrigada a fechar. Musk revoltou-se, reabriu a fábrica e desafiou as autoridades estaduais a prendê-lo. A isto se juntaram investigações federais aos seus negócios e o destrato de não ter sido convidado para uma reunião sobre veículos elétricos na Casa Branca. A segunda é pessoal e envolve a filha Vivian Wilson, nascida do género masculino e que fez a transição de género em 2022 - ou que “morreu”, segundo o pai, “assassinado pelo vírus da cultura woke”. Agora, além de promover mensagens contra as minorias sexuais, em nome da liberdade de expressão promove teorias da conspiração junto dos seus 200 milhões de seguidores, mas fecha contas de detratores ou responde a pedidos de moderação de países como a Índia ou a Turquia. cesar.avo@dn.pt