É jornalista especializado no Vaticano e vive em Roma há mais de três décadas. Portanto, assistiu a três conclaves. A eleição de Robert Francis Prevost como papa há um ano foi uma surpresa para si ou era um dos candidatos a que estava atento?É uma questão que me gera tensão interior e um pouco de frustração na minha vida. Porque, por um lado, quando o papa Francisco nomeou Robert Prevost como prefeito do Dicastério para os Bispos, em janeiro de 2023, ao ver a sua nomeação e ao ler a sua biografia, disse para mim mesmo: “este é o próximo papa”. E não disse apenas isso, escrevi. Escrevi um artigo num jornal espanhol chamado El Debate, que foi também o artigo mais lido desse dia, no qual expliquei porquê, pois era bastante óbvio. Possuía uma série de títulos académicos, como nunca teve outro papa na história. Matemático, filósofo, teólogo e doutor em direito económico. Um americano que fala várias línguas e tem cidadania peruana. Um superior dos agostinianos que viajou pelo mundo durante 12 anos, e que teve de negociar com a família Castro a reintegração da Ordem Agostiniana em Cuba, para dar um exemplo. Por outras palavras, alguém que já tivesse uma visão do mundo e uma espiritualidade profunda pareceu-me óbvio. Mas depois, quando assumiu como prefeito e estava no Vaticano, perguntei aos meus colegas, e aos colaboradores: “O que está Prevost a fazer?” E todos disseram: “Não está a fazer nada, não está a falar, não está a dar entrevistas, não está a fazer nada de extraordinário.” Então eu disse: “Bem, parece que estava enganado”. Depois comecei a pensar que ele não era a pessoa indicada para ser papa, que provavelmente não tinha o temperamento adequado. E no Conclave, sinceramente, não o considerei entre os dez principais candidatos. E quando tive de preparar o meu livro para publicar logo após a nomeação papal, estava em décimo quinto lugar.Foi um livro preparado de antecedência, com dados atualizados da Igreja, no qual incluiu a biografia do novo papa?Exatamente.Se Prevost não era favorito, então quem era para si o provável papa?A minha prioridade pessoal era Pizzaballa, o patriarca latino de Jerusalém. Também pensei que devia preparar Parolin, e igualmente que o presidente da Conferência Episcopal, o cardeal Matteo Zuppi, de Bolonha, poderia ser uma possibilidade. Achei possível que, dadas as circunstâncias - os cardeais não se conheciam e não tinham tempo -, escolhessem um italiano. E os italianos já desejavam um novo papa italiano há algum tempo. Por isso, pensei que um deles poderia ser o escolhido. Ao preparar estes perfis, descobri alguns interessantes, como o do cardeal de Marselha, que era muito interessante.E o português Tolentino de Mendonça?Nunca considerei o cardeal Tolentino um potencial candidato ao papado, mas achei-o muito interessante.Porque ele é relativamente jovem?Porque é jovem mas também porque o vejo como um grande cardeal europeu, mas não como um cardeal de governo. Não um homem de governo, mas um cardeal de cultura, um homem de cultura, Foi muito interessante descobrir isso. Mas, como disse, não o coloquei entre os dez primeiros. Incluí, porém, o cardeal da República Democrática do Congo, que é um homem do povo, um homem de governo, um homem de grande temperamento, que vive numa situação difícil.Então, quando houve o fumo branco e Prevost surgiu na varanda, pensou: “Bem, há dois anos tive a visão certa”.Sim, mas também disse: “Quem me dera que a terra me engolisse”, porque preparar a sua biografia para o livro parecia fácil e interessante, mas preparar os seus pensamentos parecia muito complexo, uma vez que não escreveu nada.Assim, conhecia os factos biográficos, mas não o seu pensamento?Sim, e não podia arriscar escrever coisas que ele pensava e que não fossem fiéis ao que ele realmente pensava, porque podia meter-me em sérios problemas [risos]. Então, comecei a procurar as suas homilias, os seus discursos, do tempo em que era bispo de Chiclayo, no Peru. Descobri algumas coisas interessantes, porque ele era reitor da Universidade Católica de Chiclayo, Santo Toribio de Mogrovejo. E na universidade proferia discursos. Discursos sobre economia, discursos sobre muitos assuntos muito interessantes, que ainda estão a ser estudados, que ele proferia. Então, ao ler estes discursos e homilias, percebi, no final, que se se quer compreender Prevost, tem de se compreender Santo Agostinho, e que se se compreende Santo Agostinho, compreende-se Prevost. Isso ajudou-me a estruturar os capítulos sobre o pensamento dele sem arriscar muito. Aprofunda Santo Agostinho, e em particular a ideia de que a experiência de Deus ocorre nos mais íntimos recônditos do próprio ser, que é uma experiência interior que se pode descobrir, e que para que o cristianismo seja verdadeiro, precisa de ser vivido em comunidade com outros cristãos. Assim como os Agostinianos vivem em comunidade, também os leigos, se forem cristãos, devem viver em comunidade, numa paróquia, num grupo, para que, se quiserem fazer o bem aos pobres, não o façam sozinhos, mas com os outros, para que seja verdadeiramente cristão..A partir do momento em que começou a estudar mais a fundo o pensamento de Prevost, pensou que será um papa que dará continuidade a Francisco?É um papa da continuidade na linha de Francisco, na sua visão, mas não no estilo, porque Prevost não é Francisco, nem é Bento XVI, nem é João Paulo II. Cada papa é ele próprio. Portanto, não será como Francisco; não terá a sua capacidade de provocação. Ele é diferente. Nasceu no cristianismo americano, onde as formas institucionais são muito importantes; é uma igreja muito hierarquizada. Ele é um produto da sua história, portanto não tem o caráter disruptivo de Francisco, mas partilha a visão de Francisco sobre a Igreja, partilha a visão da sinodalidade, partilha o papel dos leigos, partilha o papel das mulheres, partilha a capacidade de criar diálogo no mundo, de criar uma Igreja aberta a todos, não apenas a alguns. E isso é continuidade, e nós vimo-la, mas com uma linguagem diferente, com expressões diferentes.A experiência de Prevost no Peru mostra que também é um papa muito latino-americano, mas na sua mentalidade é norte-americano.É uma boa síntese, porque a Igreja Católica nos Estados Unidos é hoje vista na sua totalidade; é também hispânica, e não podemos separá-la da contribuição hispânica. E isto proporciona-lhe uma visão ainda mais completa da igreja americana, porque ele também compreende a contribuição hispânica para a igreja americana.Muito se tem falado sobre o choque de palavras entre o presidente Donald Trump e o papa Leão XIV. Concorda que haver um papa norte-americano, neste momento, dá força à Igreja?Sim. Trump disse que foi escolhido por causa dele, que se o papa foi escolhido foi por causa dele [risos]. Isso não é verdade. Todos o refutaram, e é fácil perceber porquê - basta não ser Trump para perceber. Mas o facto de ser um papa americano ajuda, porque compreende a cultura de Trump e pode reagir com mais conhecimento de causa. Uma das razões pelas quais achei que Prevost não podia ser papa antes do Conclave era porque havia uma regra não escrita: um papa não podia ser americano. Sendo os Estados Unidos a potência dominante no mundo, ter um papa americano que pudesse ser visto como parte de uma simbiose seria extremamente perigoso. Imagine-se se o papa, nesta guerra com o Irão, fosse visto pelo Irão como parte da aliança americana. Isto poderia transformar-se numa guerra religiosa, porque atribuiriam a religião cristã aos Estados Unidos. Isso poderia ser terrível. No entanto, tal não aconteceu com Prevost, nem com João Paulo II no Iraque, nem com Bento XVI, nem com qualquer outro papa. Mas Prevost consegue encontrar palavras mais fáceis do que Francisco para se dirigir ao povo e, sobretudo, à Igreja nos Estados Unidos. A Igreja nos Estados Unidos teve dificuldade em compreender Francisco. Havia uma questão cultural, dois mundos culturais. O mundo argentino e o mundo dos Estados Unidos são complexos.Prevost fala inglês, o inglês de Chicago. É muito importante?É muito importante. Isso muda tudo. Nunca houve um papa que falasse fluentemente inglês, exceto um há 900 anos.Muito antes da Reforma.Sim. Um inglês. Naquela época, o inglês não tinha grande importância. Mas hoje é diferente. Basta ver quando o papa respondeu a Trump. Fá-lo no avião a caminho de África, e fá-lo em inglês. Também em italiano, mas com um jornalista frente a frente em inglês, calmamente, como é da sua natureza. Sem fazer teatro, como é da sua natureza. Isto teve um impacto comunicativo que não teria tido de outra forma. Por isso, creio que o facto de haver um papa americano na cadeira de Pedro exerce uma grande influência, mas não na medida em que poderíamos esperar. Pelo contrário, embora mantenha a completa independência da Igreja Católica, consegue falar a língua da hegemonia global.A viagem a África, a segunda de Prevost como papa, incluiu uma paragem na Argélia, terra de Santo Agostinho, mas depois seguiu para outra África, terra de missão, a África do catolicismo, exemplificada por Angola, país lusófono. África é uma prioridade para a igreja de Prevost?Sim, absoluta e completamente. João Paulo II, no seu pontificado, dizia que a América Latina era a esperança da Igreja por ser a região católica com maior número de católicos. Mas, quando observamos os números hoje da prática religiosa na América Latina, quando vemos o crescimento de grupos sectários na região, percebemos que ela já não é tanto a fonte de esperança, de crescimento. No entanto, quando analisamos os números da Igreja em África, são incríveis. É um crescimento tremendo. Enquanto no Ocidente há escassez de vocações, o número de sacerdotes em África está a aumentar a um ritmo surpreendente. Todos os dias se constrói uma nova escola, se funda uma nova paróquia e, todos os anos, se criam novas dioceses em África. O número de estudantes universitários católicos em África está a crescer exponencialmente. Por outras palavras, o futuro da Igreja Católica será de cor. E foi isso que o papa, que como Prevost viajou várias vezes ao longo da vida para África e fez da Nigéria uma prioridade para a Ordem Agostiniana, demonstrou com esta viagem que o futuro, a esperança da Igreja neste momento da sua história, reside em África. E numa África diversa: uma África argelina, magrebina, uma Igreja angolana que fala português, uma Igreja guineense onde se falam diferentes línguas, incluindo o espanhol, e uma Igreja camaronesa muito diversa, onde se falam inglês e francês. Portanto, é esta riqueza cultural africana que ele está a tentar compreender, e penso que ele a compreendeu e demonstrou isso nesta viagem. E tudo o que disse em África sobre os políticos, não era só para Trump, disse-o também aos políticos africanos. Quando falava de tiranos, quando falava de abusos, falava também aos políticos que tinha à sua frente.Leão XIV trará novidades à relação da Santa Sé com a China?Para que exista uma relação são necessárias duas pessoas, dois lados, e acredito que Leão XIV fará todos os possíveis para fomentar uma boa relação. Para o efeito, está a dar continuidade ao acordo confidencial assinado por Pequim e pelo Vaticano, um acordo que procura ultrapassar a divisão entre as duas igrejas católicas na China - a clandestina e a oficial - e fará tudo o que for possível para promover a reconciliação entre estas duas igrejas, mas só pode fazer o que está ao seu alcance. Por outro lado, existe o regime comunista, que, para já, não parece fazer disso prioridade.Os papas têm falado muito sobre o diálogo interreligioso. Leão XIV não será exceção, certo?Certo. Vimos isso na Argélia, vimos isso nos Camarões. Prevost é um homem que percorreu o mundo como superior dos Agostinianos, e muitas das suas comunidades viviam em zonas de minoria católica. Compreende a importância do diálogo entre fiéis de diferentes religiões como prova de que a crença em Deus é uma razão para construir um mundo melhor, um mundo para viver em paz e harmonia e trabalhar em conjunto para o bem de todos. Caso contrário, perde-se a credibilidade. Se Deus se tornar causa de divisão, guerra ou violência, então as religiões perdem a credibilidade aos olhos do mundo.O seu livro foi publicado imediatamente em espanhol duas semanas depois da eleição…Sim, mais ou menos. Ainda em maio. E em inglês também. Foi lançado simultaneamente nos Estados Unidos e em Espanha. E depois noutras línguas: o esloveno, o polaco, o croata e o italiano.As estatísticas da Igreja são importantes para a conhecer?Bem, o que aprendi enquanto escrevia aquele livro é que, para falarmos da Igreja, precisamos de compreender os números. Porque quando falo da Igreja, estou a falar, antes de mais, da minha opinião pessoal. E a opinião pessoal depende da experiência com a Igreja, seja ela positiva ou negativa. E para tentar ser mais objetivo, os números ajudam. Assim, quis fazer um estudo global sobre a situação atual da Igreja e como evoluiu em todas as áreas: padres, freiras, leigos, programas de assistência social, instituições de ensino, universidades, casamentos - tudo - para tentar ajudar os líderes da Igreja, mas também os leigos interessados na Igreja e os jornalistas, a compreender onde estamos hoje e o que o futuro nos reserva. Porque o futuro nos surpreenderá..“Não é possível compreender o papa Leão XIV sem compreender o seu tempo no Peru”