Durante mais de 30 anos, a política de filho único vingou na China, com o objetivo de travar o crescimento populacional descontrolado, pensando-se que de outra forma não seria possível tirar o país da pobreza. Mas, uma década depois de essa política ter sido abolida porque ameaçava a vitalidade da segunda maior economia mundial, a taxa de natalidade continua baixa e o problema agora é ter uma população envelhecida.Para tentar reverter a situação, Pequim anunciou novas medidas no final do ano passado, que incluem o fim de uma isenção de impostos que durava há três décadas em todos os contracetivos, de pílulas a preservativos. Desde 1 de janeiro que os chineses pagam 13% de IVA nestes produtos (o valor normal para a maioria dos bens de consumo no país). Segundo a agência Associated Press, apesar de a imprensa oficial chinesa não ter noticiado as mudanças, anunciadas em meados de dezembro, o tema foi muito discutido nas redes sociais, com muitos a dizer que era preciso ser louco para não saber que educar uma criança é mais caro do que usar preservativos - mesmo com um IVA de 13%. Outros estão preocupados com o aumento das doenças sexualmente transmissíveis (que já estão a subir no país) ou gravidezes não planeadas. A China deixou de publicar dados sobre o número de abortos em 2022, mas entre 2014 e 2021 havia oficialmente entre 9 milhões a dez milhões por ano (estimando-se que o número verdadeiro pudesse ser superior).Mas a “taxa sobre os preservativos” não foi a única medida que o governo chinês passou a aplicar este ano. Do outro lado da balança, as creches estão agora isentas de impostos, assim como os serviços relacionados com casamentos e cuidado de idosos (a política de filho único deixou um único adulto para cuidar de ambos os pais e essa é mais uma preocupação financeira para muitos casais). Todas estas medidas são parte de um esforço mais vasto de incentivos à natalidade do governo, que inclui ainda o alargamento da licença parental e a distribuição de ajudas em dinheiro. Desde julho do ano passado que os pais chineses recebem um subsídio anual de 3600 iuanes (cerca de 440 euros) por cada filho que tenham, até a criança completar três anos de idade - independentemente de ser o primeiro, o segundo ou o terceiro filho do casal. O limite de um filho chegou ao fim em 2016 e, cinco anos depois, caiu o de dois. Mas, apesar disso, a população da China começou a diminuir em 2022 - houve uma queda para os 1,411 mil milhões de habitantes nesse ano, cerca de 850 mil a menos do que no ano anterior. Foi a primeira queda populacional desde 1961, durante a grande fome provocada pelo Grande Salto em Frente de Mao Tsé-tung. Em abril de 2023, a Índia ultrapassou a China como o país mais populoso do mundo. A população chinesa continuou a diminuir até 2024, quando um modesto aumento da taxa de natalidade (alegadamente ligado ao Ano do Dragão, que é visto como propício para as crianças) não foi suficiente para compensar a mortalidade - as pessoas com mais de 60 anos representam já mais de 20% da população. Um problema extra para o futuro, com o potencial aumento das despesas com cuidados de saúde ou pensões. Os números oficiais de 2025 ainda não são conhecidos, mas espera-se nova queda no número de nascimentos. A queda na natalidade (em 2024 nasceram 9,5 milhões de bebés, frente a 14,7 milhões em 2019) reflete a incerteza de muitas famílias. A China continua a ser um dos países mais caros onde ter filhos, segundo um estudo de 2024 citado pela BBC. Em causa estão os custos de educação, concorrência académica intensa e a dificuldade das mães em gerir a maternidade com as suas carreiras. Tudo em conjunto com uma crise habitacional e uma economia que não cresce ao ritmo que se previa. .China ataca contracetivos com impostos para tentar travar colapso da natalidade