No Dia Internacional da Mulher, Chiara Fernandes foi a sombra da embaixadora britânica Lisa Bandari.
No Dia Internacional da Mulher, Chiara Fernandes foi a sombra da embaixadora britânica Lisa Bandari.Rita Chantre / Global Imagens

Chiara foi Embaixadora por um Dia aos 22 anos “Apaixonei-me por isto tudo”

Chiara Fernandes, finalista de Relações Internacionais na Univ. do Minho, foi a vencedora do Ambassador for a Day, lançado pela embaixada do Reino Unido em Portugal. Na sexta-feira, Dia da Mulher, a jovem brasileira acompanhou a embaixadora Lisa Bandari, experiência que disse ao DN ter mudado as suas opções de futuro.
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Sentada no banco de trás do carro ao lado da embaixadora Lisa Bandari, Chiara Fernandes não esconde o entusiasmo: “Apaixonei-me por isto tudo. Acho que já nem quero voltar para Braga [risos]”. No Tesla roxo - a cor do movimento feminista, será coincidência? - que as leva de volta à embaixada britânica em Lisboa, depois de uma reunião no Ministério dos Negócios Estrangeiros, a finalista do curso de Relações Internacionais na Universidade do Minho confessa que se até agora não lhe tinha passado pela ideia seguir a carreira diplomática. Mas ao vencer o concurso Ambassador for a Day e passar o Dia Internacional da Mulher como uma espécie de sombra da embaixadora do Reino Unido em Portugal, até pode ter mudado de opinião.

A iniciativa partiu da embaixada britânica. “É algo que fazemos em todo o mundo e é uma forma de assinalar o Dia Internacional da Mulher”, explica a diplomata, sentada numa sala da embaixada, na rua de São Bernardo, depois de um dia intenso. A ideia, explica, “é encorajar as mulheres a interessarem-se pela diplomacia, no âmbito de uma iniciativa mais alargada para apoiar a educação das raparigas e a igualdade de género”. 

Raparigas como Chiara que não consegue tirar o sorriso do rosto, enquanto ouve a embaixadora. Quando decidiu submeter o seu ensaio sobre pobreza menstrual, a jovem brasileira, a viver em Braga desde 2018, não imaginava que ia vencer este concurso aberto a raparigas entre os 18 e os 25 anos. Mas mesmo quando soube que fora a escolhida para acompanhar a embaixadora Bandari por um dia, não imaginou que fosse assim. “Pensei que fossem apenas umas horas em Lisboa, que ia falar com a embaixadora uns minutos e pronto. Mas não, tenho sido a sombra dela o dia inteiro e participei em encontros muito interessantes”, conta enquanto empurra o cabelo para trás da orelha. 

O dia começou bem cedo, com um carro da embaixada a ir buscar Chiara ao hotel onde ficou hospedada em Santa Apolónia logo às 8:15, seguindo-se um pequeno-almoço na residência da embaixadora, um palácio setecentista na Calçada da Boa-Hora, antes de um evento sobre cibersegurança. Seguiu-se um almoço no Clube de Jornalistas com mulheres de áreas diferentes em que Chiara teve oportunidade de fazer perguntas sobre os desafios que ainda existem em Portugal para chegarmos à igualdade de género, seja em algo tão prosaico como criar uma lei que garanta o acesso a produtos de higiene feminina para todas as meninas ( o tema do seu ensaio) ou a necessidade de quotas para garantir a representatividade feminina na política. 

Andrew Owenson / Embaixada britânica

Embaixadora em Portugal desde janeiro, Lisa Bandari já vivia no nosso país desde 2022 por razões profissionais. Foi portanto num excelente português que decorreram a maior parte das conversas deste dia. Mas é no seu inglês materno que a embaixadora confessa o orgulho em trazer pela primeira vez esta iniciativa a Portugal: “É uma grande honra ser embaixadora no nosso mais antigo aliado, com quem temos a mais velha aliança do mundo”. 

Uma aliança oficial com mais de 650 anos, mas uma relação ainda mais antiga, que vai desde os cruzados ingleses que em 1147 ajudaram D. Afonso Henriques a conquistar Lisboa, passa pelos arqueiros que lutaram ao lado de D. João I contra os castelhanos em Aljubarrota e prossegue com o papel essencial dos soldados do duque de Wellington para expulsar as tropas napoleónicas durante as invasões francesas. Uma relação histórica na qual duas mulheres tiveram papel essencial - D. Filipa de Lencastre, a princesa que no século XIV casou com D. João I e não só trouxe novos hábitos à corte portuguesa como foi a mãe da Ínclita Geração, o nome que Camões deu a esses irmãos, entre os quais se destacou não só o futuro rei D. Duarte como o Infante D. Henrique, figura essencial dos Descobrimentos, e também, no século XVII, D. Catarina de Bragança, a filha de D. João IV que casou com Carlos II de Inglaterra e ficou para a história não só por ter banalizado o hábito de beber chá mas sobretudo por levar no dote Tânger e Bombaim. 

Apaixonada por Portugal, “um país maravilhoso em termos de cultura, de história, de paisagens, da comida e dos vinhos”, a embaixadora Bandari refere ainda o facto de o corpo diplomático destacado em Lisboa ser muito feminino. “Temos uma associação de mulheres embaixadoras muito ativa”, capaz, diz, de compreender os desafios para uma diplomata que alia a carreira a dois filhos pequenos. “Um desafio cada vez maior para qualquer  mulher”, sublinha. 

Foram esses desafios que Chiara teve oportunidade de discutir com a embaixadora Bandari, com a conselheira política da embaixada, Nicola Davis, e com as diplomatas portuguesas Débora Simões e Marta Alves, da Mud@r. Criada em janeiro de 2023, esta associação pretende promover a paridade de género na carreira diplomática. Um grande desafio, sobretudo num país como Portugal em que só depois do 25 de Abril as mulheres passaram a ter acesso à carreira diplomática. Sentadas à mesa numa das salas do Palácio das Necessidades, sede do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Marta e Débora começam por explicar o papel da Mud@r que “nos permitiu falar umas com as outras. Falar dos nossos problemas para não nos sentirmos tão sós”. E, claro, dar visibilidade às mulheres na diplomacia. Porque, explicam as jovens diplomatas, “para cada mulher na carreira diplomática em Portugal há 2,3 homens”. Uma situação que em vez de estar a melhorar, parece tender a agravar-se. Até porque nos últimos concursos não houve mais de 30% de mulheres entre os candidatos. 

E enquanto procuram identificar e propor soluções para problemas como a parentalidade, os seguros de saúde na gravidez ou o desafio de um parceiro diplomata conseguir acompanhar a carreira da mulher, Débora e Marta também estão ali para aprender com as diplomatas britânicas. O job-sharing parece ser a solução encontrada pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros britânico que mais interessa às jovens portuguesas. Mas o que é o job-sharing? Aqui Nicola assume as despesas da conversa, afinal ela e o marido, Gavin, têm beneficiado dessa modalidade que consiste em duas pessoas partilharem o mesmo cargo. Na prática, ambos têm de se candidatar em separado ao cargo e ficar em primeiro e segundo lugar. Depois o casal pode partilhar o cargo. No caso de Nicola e Gavin, dividem a semana ao meio, partilhando o mesmo email, o mesmo portfólio, a mesma agenda e até o mesmo número de telefone. Em Londres, o Ministério permite que duas pessoas que não são um casal façam job sharing, mas no estrangeiro, está reservado a casais. 

Andrew Owenson / Embaixada britânica

Chiara vai seguindo a conversa  atentamente, aproveitando para perguntar no fim se o MNE tem algum programa para atrair jovens, por exemplo, visitando universidades para falar sobre a carreira diplomática. Débora e Marta garantem que é um dos objetivos, carecendo sempre, claro, de aprovação do ministério para poder fazer essas visitas. E reforçam a necessidade de atrair mulheres. Afinal, só em 1998 a chefia de uma missão portuguesa foi assumida pela primeira vez por uma mulher, Maria do Carmo Allegro de Magalhães, em Windhoek, na Namíbia. E mesmo hoje, passados 50 anos da Revolução, ainda estamos na fase das “primeiras” - temos pela primeira vez uma embaixadora em Moscovo e também junto da ONU. 

Com a sexta-feira a chegar ao fim, a embaixadora Bandari não podia estar mais satisfeita com a companhia de Chiara num dia atarefado. “Quantas mais iniciativas deste género fizermos, mais fácil será para estas jovens seguirem as nossas pisadas. Tal como foi mais fácil para mim fazer o que faço graças as mulheres que fizeram sacrifícios antes para serem diplomatas”, explica. Mesmo se para Lisa Bandari, a diplomacia acabou por surgir por acaso. “Estudei francês e alemão, vivi algum tempo nesses países e sabia que queria entrar na função pública. Agrada-me a ideia de fazer algo com um sentido. Como falava línguas escolhi o Ministério dos Negócios Estrangeiros, achando que não ia entrar. Mas entrei… and the rest is history”. 

E também no Reino Unido os últimos anos têm sido de conquistas para as mulheres na diplomacia. “Até aos anos 70, uma mulher que fosse diplomata tinha de se demitir se casasse. Tinham, literalmente, de escolher entre a carreira e a família. Fico muito feliz que hoje já não seja preciso escolher”, explica a embaixadora Bandari. E tal só é possível porque “há vontade política para melhorar as coisas e implementar políticas que ajudem homens e mulheres a equilibrarem as suas vidas e as suas carreiras. Estamos a falar de licenças parentais partilhadas, flexibilidade laboral, job-sharing, etc.”, acrescenta a embaixadora, sem deixar de sublinhar que esta iniciativa se enquadra numa estratégia mais abrangente no Reino Unido em prol da igualdade de género. Há um ano, o MNE britânico lançou uma estratégia para educar as raparigas, empoderar as mulheres e acabar com a violência de género - “é muito importante para nós. De tal forma que 80% do nosso investimento bilateral no desenvolvimento vai focar-se na igualdade de género até 2030”. 

E a embaixadora Bandari está convencida que na diplomacia ser mulher pode ser uma vantagem. “Já estive destacada em África e na Ásia e devo dizer que, por exemplo, no Afeganistão tive acesso a espaços partilhados por homens e mulheres, mas também a espaços onde os homens não entravam. Em algumas aldeias, estive com mulheres que tiraram as burkas e falaram comigo de forma aberta. E esse é um acesso que um homem nunca teria.” Mas garante: “Precisamos de homens e mulheres diplomatas. Precisamos de pessoas de todos os quadrantes para alcançarmos todas as partes das nossas sociedades”. 

E Chiara? “Depois do dia de hoje vou voltar para Braga com a certeza de que há mulheres que estão a fazer tudo o que podem para que haja mais igualdades”. E admite: “Muitas vezes as pessoas da minha idade acham que quem está em posições de poder não fazem nada. E agora sei que isso não é verdade. Em todos os encontros falou-se de grandes desafios: alterações climáticas, direitos das mulheres, pobreza menstrual e, no fundo, está tudo ligado”. Ainda a hesitar se fica por Portugal ou regressa ao Brasil para seguir uma carreira, aos 22 anos Chiara destaca a “entreajuda”, o “estarmos juntas e ajudarmo-nos para sermos melhores e ultrapassarmos as nossas próprias dúvidas”. E remata: “Foi uma grande oportunidade para mim estar aqui hoje. Num momento em que vou entrar no mercado de trabalho, foi uma porta que se abriu para mim, porque nunca pensei trabalhar na diplomacia. Mas ao ver estas mulheres fantásticas e como o seu trabalho é fantástico. Foi o melhor dia da minha vida!”

Programa de mentoria para proteger “legado”

Para as jovens que não conseguiram este ano ser escolhidas para serem Embaixadora por um Dia, a embaixada britânica deixa desde já a informação: vai ser lançado um programa de mentoria. As participantes que se destacaram, vão ser contactadas e vai ser-lhes oferecida a oportunidade de terem como mentor alguém da embaixada britânica durante os próximos meses. “A ideia é apoiar estas jovens nas suas diferentes competências e em diferentes áreas. Assim esperamos que o dia de hoje possa deixar algum tipo de legado e que se possa repetir no futuro”, explicou a embaixadora Lisa Bandari.

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