Fernando Haddad deve ser oficializado como candidato a governador de São Paulo pelo Partido dos Trabalhadores (PT) nas próximas horas. O ministro das Finanças de Lula da Silva deixou o cargo na quinta-feira e aceitou enfrentar, pela segunda eleição seguida, o atual governador, o muito favorito Tarcísio de Freitas, que chegou a ser dado como certo na disputa presidencial antes de Jair Bolsonaro optar por investir o primogénito Flávio Bolsonaro nessa tarefa. É a quarta vez que Haddad entra numa eleição com o estatuto de outsider em nome de Lula e do PT.O político de 63 anos, com sólida carreira académica, como bacharel em direito, mestre em economia e doutor em filosofia pela Universidade de São Paulo, onde leciona Ciência Política, chegou ao Ministério da Educação de Lula, em 2005, de onde saiu, já sob a presidência de Dilma Rousseff, em 2012, para concorrer, e vencer, a eleição para prefeito de São Paulo. A partir de então só perdeu eleições mas sempre em circunstâncias particularmente difíceis: em 2016, falhou a reeleição na prefeitura, no contexto desfavorável da Operação Lava-Jato e do impeachment de Dilma Rousseff; em 2018, aceitou ser candidato presidencial a dois meses da eleição, porque o PT insistiu na candidatura de Lula, então preso, até ao limite legal, chegou à segunda volta mas perdeu para o fenómeno eleitoral Bolsonaro; e em 2022, foi a vez de concorrer, pela primeira vez, ao governo de São Paulo, um estado tradicionalmente de direita, sobretudo no interior, onde o PT jamais vencera, e perder para Tarcísio, considerado então o “ministro estrela” do bolsonarismo.Em 2026, enfrenta um Tarcísio ainda mais forte, com aprovação geral de 64% e rejeição em torno de 30%. O objetivo de Lula e do PT é que, com Haddad, que chegou a 45% há quatro anos, “a esquerda perca por poucos”, como notou a colunista Vera Magalhães, da rádio CBN. Com 46 milhões de habitantes, o estado de São Paulo representa cerca de 22% do eleitorado brasileiro, e por isso a esquerda não pode se dar ao luxo de ser goleada. Nesse contexto, não só Haddad foi convocado por Lula para disputar as eleições no estado como outras duas candidatas ao Palácio do Planalto no passado, conhecidas nacionalmente, vão concorrer às duas vagas paulistas no Senado: Simone Tebet, terceira candidata presidencial mais votada em 2022, e Marina Silva, também a terceira mais votada mas de 2010 e 2014. A primeira já anunciou intenção de mudar o domicílio eleitoral de Mato Grosso do Sul para São Paulo e a segunda fê-lo, do Acre para o mais populoso dos estados brasileiros, ainda em 2022. Geraldo Alckmin, que governou o estado de São Paulo por 12 anos e era visto como alternativa eventual a Haddad no embate contra Tarcísio, vai continuar como vice-presidente de Lula. Mas também deve participar ativamente na campanha ao governo paulista em mais uma estratégia de fortalecer a esquerda num terreno, por natureza, história e tradição, adverso. Outra parte do plano é a escolha do vice de Haddad. Como na cidade de São Paulo, cerca de 10 milhões de eleitores, tanto ele como Lula até foram mais votados do que Tarcísio e do que Bolsonaro, respetivamente, em 2022, é nas áreas rurais que a balança pende para o conservadorismo. Nesse caso, o número dois de Haddad, já está definido, será alguém com ligação ao agronegócio, nomeadamente Arnaldo Jardim ou Jonas Donizette, deputados considerados de centro ou mesmo de centro-direita. Para José Dirceu, histórico nome do PT que foi o braço-direito político de Lula nos primeiros mandatos até ser preso no âmbito do escândalo do Mensalão, “Haddad pode bater Tarcísio”. “Ele foi à segunda volta em 2022, fez 45% dos votos, há um espaço enorme em São Paulo para uma candidatura de oposição ao Tarcísio”, opinou.Joga a favor de Haddad o desempenho no Ministério das Finanças de 2023 até hoje, visto como positivo: inflação controlada, mercado de trabalho aquecido e crescimento do PIB acima do esperado. Mas a dificuldade no controle dos gastos públicos é visto como calcanhar de Aquiles pela Faria Lima, a Wall Street brasileira. Em abril de 2024, por exemplo, o governo propôs reduzir as metas de superávit primário para os anos seguintes: com isso o superávit que era esperado para 2025 passou a ser previsto apenas para 2026. “A mudança foi mal recebida pelo mercado, e com razão porque mudou o caminho esperado para as contas públicas e reacendeu a percepção de que o governo poderia recorrer a manobras contábeis para ajustar o resultado fiscal”, disse Felipe Salto, da Warren Investimentos ao portal G1.“Ainda que o ministro tenha adotado algumas medidas corretas para aumentar a arrecadação, elas não foram suficientes para mostrar estabilidade da dívida. O ponto mais sensível, que seria controlar o crescimento das despesas obrigatórias, não foi enfrentado”, acrescentou Alessandra Ribeiro, da Tendências Consultoria. Por ora, sondagens do instituto Datafolha apontam para vantagem, de 52% a 37%, de Tarcísio sobre Haddad num cenário de segunda volta. .Brasil. Tem apoio, discurso e até lema mas Tarcísio ainda não é pré-candidato