Comentadores políticos compararam o bolsonarismo, movimento político de extrema-direita em torno do ex-presidente Jair Bolsonaro, à pangeia, o antigo supercontinente geológico. E a guerra pública entre o filho do presidente e candidato ao Planalto em outubro, Flávio Bolsonaro, e a ex-primeira dama, Michelle Bolsonaro, ao movimento das placas tectónicas que gerou a divisão do mundo em continentes. O bolsonarismo tem hoje um continente em torno de Flávio e outro ao lado de Michelle? E como isso se reflete nas sondagens e na eleição? A primeira sondagem realizada após o vídeo em que Michelle se queixa de ter sido ofendida por Flávio por discordar da aliança entre o Partido Liberal, o partido de ambos, com o ex-candidato presidencial e anti-bolsonarista Ciro Gomes no estado do Ceará, revela que 42% dos ouvidos concorda com ela e só 18% com ele. Noutro ponto da pesquisa, 35% dos eleitores de direita consideram que ela fez bem ao divulgar o litígio enquanto apenas 20% a critica pela atitude. Em paralelo, após o caso Lula da Silva aumentou em dois pontos a vantagem sobre Flávio: agora é de oito, 45% a 37%, quando em junho era de seis, 44% a 38%. Em maio, estavam tecnicamente empatados 42% a 41%. Acresce que figuras relevantes do bolsonarismo, como Damares Alves, ex-ministra de Bolsonaro, ou Celina Leão, governadora bolsonarista do Distrito Federal, alinharam ao lado de Michelle. Há razão então para falar em fragmentação? Politólogos preferem esperar para ver mas já falam em “crise”. Para Paulo Ramírez, professor de Ciência Política da Fundação Escola de Sociologia e História, “Flávio lida com uma crise na campanha porque vem caindo nas sondagens não só pelas críticas de Michelle mas também por causa do envolvimento, a pedir milhões para financiar um filme sobre o pai, no escândalo do Banco Master”.“O caso de Michelle e o caso de Vorcaro estão interligados”, continua Ramírez, “porque ela partilhou publicações de outros políticos sobre rumores na imprensa de que existe um vídeo em que Flávio aparece numa festa organizada pelo banqueiro com mulheres semi nuas vestidas de astronautas, o que arruinaria a imagem de homem de família que louva a Deus do enteado”.“Tudo isso gera, sim, uma ruptura: ela oferece protagonismo ao voto feminino e afasta ao mesmo tempo as posições mais machistas dos bolsonaristas homens”, prossegue o académico. “Entretanto, toda essa disputa não gera nada além de fogo amigo na direita porque se uns 35% do eleitorado vota no candidato do bolsonarismo, os 10 ou 15% de eleitores moderados e indecisos que, de facto, decidem a eleição tendem a aproximar-se de Lula, que não está diretamente envolvido no caso Master, apesar de um aliado, Jaques Wagner, estar, e não de Ronaldo Caiado, Romeu Zema e outros candidatos da direita”. Para Vinícius Vieira, professor de Ciência Política na Fundação Armando Álvares Penteado, “as disputas pelo poder na família já estão a afetar o movimento bolsonarista mas por si só não devem favorecer aquilo a que os media chamam de terceira via, Caiado ou Zema, a não ser que Michelle rompa de vez e leve o eleitorado evangélico feminino para o lado de um deles”.“Talvez alguns votos migrem para Renan Santos, talvez os mais jovens, aqueles que tinham uns 10 anos de idade quando o bolsonarismo começou e por isso já vejam esse movimento também como parte do sistema e não anti-sistema”, acrescenta.“Entretanto”, alerta Vieira, “quem rompe com Bolsonaro paga um preço, como João Doria, ex-governador de São Paulo que chegou a pensar no Planalto, ou o próprio ex-juiz Sergio Moro, que até se sentiu compelido a regressar ao grupo”. “Porque, como no fundo o bolsonarismo é o culto da personalidade - acho que no futuro talvez cheguemos à conclusão que ele tem um status de ‘Perón brasileiro de direita’ -, a carta dele a delegar funções ao filho fará que os votos desses cerca de uns 25% de fiéis bolsonaristas fique com eles”.Mas e Michelle tem fôlego eleitoral? Em 2026, é difícil, opina o académico. “O que poderia fazer a candidatura de Flávio cair de vez seriam associações ao Comando Vermelho ou a divulgação de vídeos comprometedores, conforme rumores que vêm circulando”.“Caso contrário, embora o bolsonarismo tenha uma agenda ligada aos movimentos cristãos, e esse grupo poderia ser muito melhor representado por Michelle do que por Flávio, também tem uma pauta supremacista masculina, o que prejudica Michelle, por ser mulher e por não ser uma Bolsonaro puro sangue”.Mas, para o cientista político, “mesmo perdendo em outubro, o objetivo principal do bolsonarismo, como disse [o irmão de Flávio] Eduardo Bolsonaro é fazer com que [o presidente dos Estados Unidos] Donald Trump não reconheça um eventual quarto governo de Lula, enfraquecendo-o ao ponto até de tentar um golpe ou, em contrapartida, de voltar com força total nas eleições de 2030 tendo em conta que Lula não deixa grandes herdeiros”. .Michelle torna-se “mulher bomba” na campanha de Flávio Bolsonaro