Quando Yoweri Museveni tomou posse pela primeira vez como presidente do Uganda, em janeiro de 1986, Bobi Wine estava quase a fazer 4 anos. Passadas quatro décadas, a antiga estrela pop é o principal rival do presidente que procura um sétimo mandato nas eleições desta quinta-feira.Autoapelidado de “presidente do gueto”, Wine tornou-se, na última década, uma das maiores dores de cabeça para o presidente, de 81 anos. Aos 43, o candidato da Plataforma de Unidade Nacional tem apostado numa campanha centrada em questões como o desemprego jovem (os dados oficiais falam numa taxa de 4,46%, mas a realidade é que metade dos jovens ugandeses, entre os 18 e os 31 anos, nem estuda, nem trabalha) e na defesa dos Direitos Humanos.Nascido Robert Kyagulanyi Ssentamu - em homenagem a Robert Mugabe -, o ex-deputado cresceu nos bairros de lata da capital, Kampala, numa família de mais de 30 irmãos (de várias mulheres). Filho de uma enfermeira e de um agricultor e veterinário de quem herdou o ativismo político, Bobi Wine, como ficou conhecido enquanto músico, volta agora a desafiar Museveni nas urnas, depois de uma primeira candidatura presidencial em 2021. As hipóteses, escrevia a BBC há dias, jogam contra ele, mas o jovem político e ativista não hesitou em percorrer as ruas do seu país, de capacete e colete à prova de bala. Cuidados que podem parecer excessivos vistos da Europa, mas que não surpreendem se pensarmos que há cinco anos Wine foi baleado durante a campanha. Pela polícia.Detido várias vezes, fosse por posse ilegal de armas ou por traição, Wine acabou por ver as acusações retiradas. Mas a sua história viria a chamar a atenção de outros músicos internacionais, como Chris Martin, dos Coldplay, ou Damon Albarn, dos Gorillaz, que em 2018 estiveram entre os assinantes de uma petição que exigia a sua libertação. .“Sou o candidato mais próximo da população. É por isso que, entre os oito candidatos, sou o mais perseguido, o mais assediado, o mais temido.”Bobi Wine.Formado em Música, Dança e Teatro, mas também em Direito, foi no início dos anos 2000 que Robert se tornou Bobi Wine, tendo muitas vezes usado as suas canções para abordar temas como o casamento infantil, a saúde materna, a sida ou a violência doméstica, transformando-as também em armas contra o regime de Museveni.“Sou o candidato mais próximo da população”, disse o antigo deputado à BBC durante a sua campanha para estas eleições. “É por isso que, entre os oito candidatos, sou o mais perseguido, o mais assediado, o mais temido.”Num país onde a idade média da população é de 17 anos, Museveni é o único presidente que a larga maioria dos eleitores conheceu. E o partido no poder, o Movimento Nacional de Resistência (NRM), está a fazer campanha sob o slogan “Proteger os ganhos”, apelando à continuidade e à estabilidade no país. Para isso, conta com uma economia que, neste momento, cresce na ordem dos 7%, mas que este ano, quando se espera que o país comece a explorar as suas reservas de petróleo, poderá chegar aos dois dígitos, segundo as previsões do Fundo Monetário Internacional. Quan- do atingir o pico, o país deverá produzir cerca de 230 mil barris de petróleo por dia..A resposta da Plataforma de Unidade Nacional de Bobi Wine surge através do slogan “Voto de Protesto”, uma mensagem que sublinha a urgência de uma mudança geracional no Uganda. “Esta eleição é sobre libertação, é sobre liberdade, é sobre as pessoas afirmarem as suas vozes”, afirma o candidato, procurando chamar a atenção para o paradoxo de um dos países mais jovens do mundo ser liderado por um octogenário, rodeado de políticos que chegaram ao poder há várias décadas. Uma realidade que se repete em vários países da região.Apesar dos esforços da campanha de Bobi Wine, a vitória de Museveni é esperada. A história eleitoral do Uganda, com observadores a criticarem frequentemente a liberdade e a justiça das eleições, sugere que é improvável um resultado diferente.Na semana passada, o gabinete de Direitos Humanos da ONU afirmou que as eleições “se vão realizar num ambiente marcado por uma repressão e intimidação generalizadas contra a oposição política, os defensores dos Direitos Humanos, os jornalistas e aqueles com opiniões dissidentes”. Citado pela BBC, o académico Kristof Titeca, especialista em Governação e Conflito na África Oriental e Central na Universidade de Antuérpia, admitiu que os “rituais da competição democrática” estão a ser exibidos, mas que “o resultado está predeterminado”..Em 2021, Bobi Wine obteve 35% dos votos, contra 59% de Museveni, um resultado que rejeitou, alegando fraude. Dois anos depois, a sua história deu origem a um documentário da National Geographic, intitulado Bobi Wine: The People’s President, que recebeu uma nomeação para os Óscares. Agora volta a tentar e só pede uma coisa aos apoiantes - que “venham protestar nas urnas”.