UE quer investigação internacional sobre desvio de avião. Bielorrússia critica acusações "infundadas"

Ministro bielorrusso diz que "não há dúvida" de que as ações das "autoridades competentes cumpriram plenamente as regras internacionais estabelecidas"

A União Europeia defendeu a realização de uma investigação internacional sobre o desvio e aterragem forçada de um avião civil na Bielorrússia para deter um opositor, um incidente cujas consequências, incluindo sanções, serão esta segunda-feira discutidas em Bruxelas.

"A UE considerará as consequências desta ação, incluindo a adoção de medidas contra os responsáveis", disse esta segunda-feira o alto representante para a Política Externa da União Europeia (UE), Josep Borrell, numa declaração em que pediu também a "libertação imediata" do jornalista e opositor Roman Protasevich.

"Ao levar a cabo este ato coercivo, as autoridades bielorrussas puseram em risco a segurança dos passageiros e da tripulação. Deve levar-se a cabo uma investigação internacional sobre este incidente para determinar qualquer incumprimento das normas de aviação internacional", disse Borrell.

A Organização da Aviação Civil Internacional (OACI) manifestou na rede social Twitter a sua "profunda preocupação pela aterragem aparentemente forçada" do avião, algo que poderá violar as normas da Convenção de Chicago.

Para a UE "esta é outra tentativa flagrante das autoridades bielorrussas de silenciar todas as vozes da oposição".

Desde o início dos protestos na antiga república soviética, centenas de jornalistas foram detidos e quase 20 estão ainda presos.

Entretanto, Alexander Lukashenko promulgou uma lei de segurança nacional que alarga os poderes da polícia e de outras forças estatais e que podem utilizar armas militares para reprimir a desordem.

Bielorrússia critica acusações "infundadas"

As autoridades bielorrussas insistiram esta segunda-feira que agiram legalmente quando desviaram um avião de passageiros que transportava um ativista da oposição, acusando o Ocidente de fazer alegações infundadas por razões políticas.

"Não há dúvida de que as ações das nossas autoridades competentes cumpriram plenamente as regras internacionais estabelecidas", disse o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Bielorrússia, Anatoly Glaz, acusando o Ocidente de "politizar" a situação.

"Estão a ser feitas acusações infundadas", acrescentou em comunicando, acusando o Ocidente de não querer ser objetivo e ameaçar aplicar novas sanções à Bielorrússia.

Glaz disse estar "triste" pelo facto de os passageiros do voo da Ryanair "tenham enfrentado alguns transtornos". "No entanto, as regras de segurança da aviação são uma prioridade absoluta", frisou.

A companhia aérea irlandesa Ryanair disse esta segunda-feira que a tripulação do avião em que viajava um jornalista crítico do regime bielorrusso recebeu um aviso de ameaça à segurança a bordo antes de o aparelho ser desviado para Minsk.

Em comunicado, a Ryanair disse que o controlo de tráfego aéreo bielorrusso comunicou uma suposta ameaça à tripulação, dando também "instruções para desviar para o aeroporto mais próximo, Minsk".

A empresa de voos low-cost acrescentou que nada foi encontrado após o avião aterrar em Minsk.

As autoridades bielorrussas detiveram o jornalista Roman Protasevich no domingo, depois de o Presidente bielorrusso, Alexander Lukashenko, ter ordenado que o voo da companhia aérea Ryanair de Atenas para Vilnius, capital da Lituânia, fosse desviado para o aeroporto de Minsk.

Roman Protasevich, de 26 anos, é o ex-editor-chefe do influente canal Nexta, que se tornou a principal fonte de informação nas primeiras semanas de protestos antigovernamentais após as eleições presidenciais de agosto de 2020.

Em novembro, os serviços de segurança bielorrussos (KGB), herdados do período soviético, registaram o seu nome e o do fundador do Nexta, Stepan Putilo, na lista de "indivíduos envolvidos em atividades terroristas".

Assim que o avião pousou no aeroporto, os passageiros foram obrigados a um controlo, durante o qual o jornalista foi detido.

Segundo a agência France-Presse (AFP), diversos passageiros do avião onde seguia Protasevich disseram que o jornalista viveu longos minutos de angústia quando percebeu que o voo da Ryanair seria desviado para Minsk.

A prisão do ativista gerou indignação nos países ocidentais, com a NATO e a União Europeia a levantarem a ameaça de novas sanções contra a Bielorrússia.

França sugeriu esta segunda-feira uma "proibição do espaço aéreo" da Bielorrússia após o sequestro do avião da Ryanair.

O Presidente bielorrusso, Alexander Lukashenko, perante um vasto movimento de protesto contra a sua reeleição considerada fraudulenta em agosto de 2020, orquestrou uma campanha de repressão contra a oposição e os meios de comunicação independentes do país.

Embaixadores da NATO vão discutir assunto

Os aliados da NATO vão reunir-se esta terça-feira para discutir o desvio forçado do voo por parte da Bielorrússia.

"Os aliados estão a consultar informações sobre o desvio forçado do avião da Ryanair pela Bielorrússia e os embaixadores vão discutir isso amanhã [terça-feira]", disse esta segunda-feira um funcionário da NATO à AFP.

Vários membros da NATO criticaram a decisão do governo bielorrusso.

Também o secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, considerou no domingo que o desvio do avião é "um incidente sério e perigoso que requer investigação internacional".

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