Batalhão Azov. "Será que sou parecido a um neonazi horroroso?"

Em Zaporzhzhia, a cidade onde chegam grande parte dos deslocados de Mariupol, o DN falou com dois atuais integrantes deste batalhão que continua a resistir na metalúrgica Azovstal. "Não podemos confundir o nacionalismo com o fascismo, são coisas completamente diferentes", diz um deles.

Formado em 2014 e desde então controverso, o batalhão Azov é atualmente o bastião da resistência militar em Mariupol. A partir da metalúrgica Azovstal continuam a fazer frente ao exército russo. Na passada quinta-feira, o hospital militar que funciona nestas instalações, foi atacado por via aérea fazendo várias vítimas mortais. O DN falou com quem integra esta força atualmente no seu centro em Zaporizhzhia, no sul da Ucrânia, cidade onde chegam grande parte dos deslocados de Mariupol, apesar de não existir qualquer corredor humanitário.

YURII MAKARENKO

de 46 anos faz parte do Batalhão de Azov em Zaporizhzhia. Quando não tem a farda militar Yurii é ator e músico.

"Não podemos confundir o nacionalismo com o fascismo, são coisas completamente diferentes. Fascismo é um conceito violento e somos totalmente contra. Na nossa ideologia, incluímos judeus, árabes, aliás temos amigos da Síria, da Bulgária. Podemos ser ucranianos ou não, porque o que nos une é o nosso país! E se somos patriotas do nosso país, somos nacionalistas, o nosso nacionalismo inclui várias nacionalidades, é muito parecido com os EUA ou com os templários em Portugal."

De onde é que vocês vão buscar a ajuda humanitária?
Esta ajuda humanitária veio do estrangeiro, da Polónia, Roménia e Hungria através dos voluntários em Lviv e foi-nos entregue pelas pessoas do oeste da Ucrânia.

E destina-se a quem?
Uma parte do material será entregue a um hospital pediátrico, porque eles precisam de medicamentos e material médico. Outra parte será entregue ao hospital militar para os feridos. Quanto aos produtos alimentares mantém-se aqui connosco e são distribuímos entre os nossos combatentes ou nos postos de defesa territorial. Aqui é a nossa retaguarda.

MYKHAILO PIROG

55 anos, alcunha "Boroda" (barba), comandante do batalhão de Azov em Zaporizhzhia

"A guerra para mim começou no ano 2014 e a minha vida mudou desde daí. Antes de 2014 trabalhava na construção civil e fui camionista durante quase 20 anos. É a minha profissão favorita porque adoro automóveis. Adoro o processo de transportar algo para alguém, aquilo que as pessoas mais precisam. A mesma coisa com a construção. Quando constróis uma casa que depois serve para alguém durante longos anos."

Qual é a ligação entre o partido "Nacionalniy Korpus" e o Azov?
Infelizmente, ao nível dos media internacionais, o batalhão Azov tem a sua fama conspurcada e destorcida. O seu nome é associado ao movimento nazi, neonazi e a toda uma panóplia de associações. Nós reconhecemos que o nosso partido, "Nacionalniy Korpus", pode ter um posicionamento político mais à direita, mas isso é um direito de qualquer partido político. Porém, nós demonstramos através das nossas ações o que é que fazemos, onde, e como agimos. Anunciaram no dia 24 de fevereiro a "desnazificação" ou libertação da Ucrânia do fascismo. Eu estou com o batalhão Azov desde 2014, entre 2014 e 2016 eu estava na linha da frente a defender o nosso país em Mariupol. Será que eu sou parecido a um neonazi horroroso ou qualquer coisa assim? Não sei! Por exemplo a nossa médica, a Nina parece-lhe nazi? Para mim, é muito triste mas nós sabemos o efeito da propaganda através do exemplo de Goebbels: "Dê-me o poder de fazer propaganda que eu altero a consciência das pessoas."

Quando é que foi formado o batalhão Azov?
O Azov foi formado em 2014 no processo da libertação de Mariupol. Eram cerca de 80 pessoas e quase com as próprias mãos libertaram Mariupol. Aqui é importante distinguir entre o "Nacionalniy Korpus" e o batalhão Azov, porque um tem um papel político e partidário e o outro militar. Eles não se cruzam porque a constituição da Ucrânia proíbe qualquer militar no ativo de ter uma preferência política ou participação partidária. Nenhum militar que pertence ao batalhão Azov é membro de algum partido político. Depois de terminarem o seu serviço militar, nessa altura, sim estão livres de pertencer. Há muitos veteranos do Azov que terminam o seu serviço e no fim podem-se juntar ou tornar-se apoiantes dos seus amigos no "Nacionalniy Korpus", ou podem não se tornar apoiantes. Na verdade, aqui é 50-50.

Como é que o batalhão Azov foi integrado dentro das forças armadas ucranianas?
Inicialmente o Azov era um batalhão voluntário. No final de 2014, a quantidade de voluntários que queriam defender o país era inacreditável, existiam vários batalhões compostos por voluntários. Aos poucos o batalhão Azov aumentou até atingir o tamanho de um regimento. O governo fez de tudo para proteger os voluntários e assim optou por os integrar dentro das várias tipologias das suas forças armadas, com o intuito de providenciar um maior apoio legal e proteger os voluntários. Alguns batalhões de voluntários integraram as forças armadas ucranianas e outros foram integrados na Polícia Nacional. O batalhão Azov foi o caso em que a unidade foi incorporada na íntegra dentro das Forças Armadas ucranianas. É uma unidade disciplinada e motivada e muito devido ao trabalho rigoroso desenvolvido ao longo do tempo pelos seus comandantes, desde o primeiro comandante Andriy Biletsky até ao atual Denys Prokopenko, que está em Mariupol. Devido à alta motivação dos militares do Azov eles estão a conseguir aguentar e defender os valores da sua nação e do seu povo. É devido a esta motivação que estamos a presenciar feitos heroicos da parte destes militares na defesa de Mariupol.

O batalhão Azov tem militares que são judeus ou tártaros da Crimeia?
Existe uma grande variedade de nacionalidades. A nação ucraniana é composta por várias nacionalidades e não exclusivamente ucranianos. Qualquer pessoa que sente que a Ucrânia é o seu país, que se sente como ucraniano e que está disposto a defender a si e ao seu povo. Isso é definição da nação ucraniana. Inclui os judeus, tártaros da Crimeia, cazaques, inclui inúmeras nacionalidades, são todas as nacionalidades que antigamente fizeram parte da União Soviética. Nação não é definida pelo sítio onde nasceram ou de quem nasceram, são pessoas que sentem que a Ucrânia é a sua casa. Aqui somos todos diferentes e quando o "edredão é colorido é muito mais divertido viver". Aqui é importante distinguir que os ucranianos podem ser nacionalistas, mas aquilo que a Rússia está a fazer é fascismo. Quando os ucranianos desejam ser prósperos, felizes e ricos integrados na comunidade internacional, isso é nacionalismo. Mas quando a Rússia quer ser a única dona de tudo, isso chama-se fascismo.

As pessoas que não são ucranianas podem-se juntar ao batalhão Azov?
Inicialmente, uma grande quantidade de estrangeiros vinha apoiar-nos e ia para as linhas da frente. Estão a ser formados batalhões independentes estrangeiros como por exemplo o bielorrusso e o batalhão russo. Eles estão a formar as suas próprias unidades independentes, mas integrados dentro das forças armadas ucranianas.

Em que língua prefere comunicar: russa ou ucraniana?
Ucraniana. Até 2014 eu falava exclusivamente em russo. Infelizmente Zaporizhzhia é uma localidade onde se fala bastante russo, no entanto atualmente para mim isso é um princípio. A língua é uma arma. É uma grande vantagem quando conhecemos idiomas diferentes, permite-nos entender e integrar o mundo com maior facilidade. Conhecer muitas línguas estrangeiras é importante, ajuda-nos a entender e integrar o mundo que nos rodeia. Mas o nosso próprio idioma temos que conhecer bem, adorar, amar e espalhar.

Enviado especial à Ucrânia

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