Zemmour condenado na justiça e nas sondagens

O candidato de extrema-direita foi multado por "provocação ao ódio racial" e vê a popularidade cair.

César Avó
Éric Zemmour tem vários processos na justiça.© EPA/CHRISTOPHE PETIT TESSON

A pré-candidatura mais controversa à presidência francesa atravessa momentos complicados. O polemista de extrema-direita Éric Zemmour foi condenado por cumplicidade na provocação ao ódio e insulto racial dirigido aos imigrantes "porque eles não pertencem à nação francesa". E na quinta-feira um outro processo, desta vez "por negação de crimes contra a humanidade", será avaliado num tribunal de segunda instância.

Zemmour foi multado em 10 mil euros na segunda-feira por incitar ao ódio por comentários realizados sobre menores imigrantes não acompanhados. Em setembro de 2020, enquanto comentador do canal CNews, afirmou: "Eles são ladrões, eles são assassinos, eles são violadores, é o que eles são." Disse ainda que este "problema de política de imigração" se compara a "uma invasão permanente", protestou, defendendo o repatriamento dos imigrantes.

Ausente durante a sentença, como aconteceu durante o julgamento que decorreu em novembro, o visado denunciou de imediato "uma condenação ideológica e estúpida". "A verdade é que estes menores sozinhos, que muitas vezes não são menores nem estão sozinhos, caracterizam-se pela sua presença irregular no território e pela forte tendência para a delinquência ou mesmo atos criminosos", acrescentou. "Como cidadãos franceses, devemos exigir o direito de falar sobre esta questão", negando estar a ser racista uma vez que "estes imigrantes não são uma etnia e muito menos uma raça".

O advogado de Zemmour, Olivier Pardo, anunciou que iria recorrer da sentença do tribunal de Paris, que também condenou o diretor de programas da CNews neste processo em que dez associações antirracistas se constituíram como partes civis.

Zemmour, que já tinha sido condenado por duas vezes pelo mesmo crime, volta a ser chamado a tribunal já na quinta-feira. O antigo jornalista foi absolvido em fevereiro do ano passado por "negar um crime contra a humanidade" ao ter afirmado, também na CNews que o marechal Pétain - o chefe de Estado colaboracionista dos nazis - tinha "salvo" judeus franceses, mas as partes civis recorreram e o caso é agora reavaliado.

O candidato (ou o seu advogado) tem mais encontros marcados com juízes. Vai ser julgado por injúrias racistas devido a comentários dirigidos a Hapsatou Sy (personalidade da TV) e Danièle Obono (porta-voz da França Insubmissa), por difamação agravada pelo que afirmou em 2019 sobre o movimento feminista e o movimento LGBT. E há mais queixas na justiça.

O polemista fez furor em novembro quando anunciou a sua candidatura à presidência. As sondagens chegaram a atribuir 16% das intenções de voto, colado a Marine Le Pen. Mas desde então, e em especial após a entrada na liça da conservadora Valérie Pécresse, a sua popularidade foi descendo e neste momento as mais recentes sondagens atribuem-lhe 12,5% (Ifop, menos 1,5 pontos) ou 11% (OpinionWay, menos um ponto). Emmanuel Macron, que ainda não anunciou a candidatura ao sufrágio de abril, lidera com uma média de 24,5%, seguido de Le Pen e Pécresse, em igualdade técnica.

Resta saber se Zemmour irá conseguir obter o mínimo de 500 assinaturas por parte de eleitos (de senadores a deputados municipais) para oficializar a candidatura, uma dúvida que se estende a Marine Le Pen e ao candidato da França Insubmissa Jean-Luc Mélenchon, como se lê no Le Monde.

cesar.avo@dn.pt