O homem que no domingo completou 80 anos e que em tempos foi apelidado de “maior amigo que Israel alguma vez teve na Casa Branca” por Benjamin Netanyahu voltou a mostrar em público ter perdido a paciência para com o primeiro-ministro israelita, mas recebeu como prenda uma saída para a guerra que iniciou. "Após intensas negociações, temos o prazer de anunciar que o acordo de paz entre os Estados Unidos da América e a República Islâmica do Irão foi alcançado. Ambas as partes declararam a cessação imediata e permanente das operações militares em todas as frentes, incluindo no Líbano", escreveu o primeiro-ministro paquistanês Shebaz Sharif no X. Sharif disse que a cerimónia da assinatura do acordo terá lugar na próxima sexta-feira na Suíça e agradeceu o papel de outros mediadores, caso do Qatar, Arábia Saudita e Turquia. No entanto, a notícia foi recebida com extrema prudência no Irão. O canal em inglês PressTV lembrou que as autoridades iranianas não confirmaram o acordo. Horas antes, o porta-voz do MNE iraniano disse que a equipa de negociações não tinha planos para viajar nos próximos dias.Já Donald Trump disse "autorizar a abertura completa de um estreito de Ormuz sem portagens" (foi o Irão e não os EUA que impôs um condicionamento no trânsito de navios) e terminou com a seguinte mensagem: "Navios do mundo, liguem os motores. Que o petróleo flua!". Horas antes, Donald Trump mostrou o seu azedume em declarações ao site Axios, depois de uma mensagem na sua rede social em que discordou do bombardeamento israelita aos subúrbios de Beirute e na qual apelou a todas as partes para não se atacarem. Isto no dia em que o presidente dos EUA e a sua administração fizeram pressão extra para que o memorando de entendimento com o Irão fosse assinado, coincidindo com o aniversário do nova-iorquino. Mas, como escreve o jornal libanês L’Orient-Le Jour, o dirigente israelita está “disposto a tudo para torpedear o acordo iraniano-americano”, tal como os guardas da revolução iranianos, ao darem ordens para o Hezbollah retomar os ataques ao norte de Israel.Donald Trump voltou a invectivar Benjamin Netanyahu pela forma como está a conduzir operações militares enquanto Washington tenta alcançar um acordo com Teerão. Sem filtros, começou por dizer sobre o bombardeamento a Dahieh, o subúrbio de maioria xiita da capital do Líbano: “Foi tão mau — nem consegui acreditar. Uma hora antes de supostamente assinarmos o acordo”, começou por desabafar. .“O ataque desta manhã a Beirute não deveria ter acontecido, especialmente num dia especial em que estamos tão perto de um acordo de paz com o Irão (...) Todas as partes devem abster-se de ações hostis.”Donald Trump.Tal como na mensagem publicada no Truth Social, na qual disse que Israel respondeu a um ataque “pequeno e insignificante”, enfatizou que não houve danos nem ninguém ficou ferido. “Por que o Bibi [Benjamin] teve de fazer um ataque de merda? Fiquei mesmo furioso. Eu disse-lho. Não tem o mínimo de juízo”, disse Trump ao Axios, irritado pelo facto de o ataque a uma zona residencial de Beirute, e que matou pelo menos três pessoas — entre elas um comandante do Hezbollah (ver abaixo) — e feriu 15, ter “abalado” o acordo de paz. Para o jornalista e escritor Gideon Levy, o que “o lado israelita está a tentar fazer é esperar que o acordo ainda seja passível de colapso”, escreveu no Haaretz.Também o secretário-geral das Nações Unidas deixou palavras de censura para com Israel, embora de forma diplomática. “Os ataques aconteceram apesar do cessar-fogo e numa altura em que se espera que os Estados Unidos e a República Islâmica do Irão cheguem a um acordo que abrirá caminho para uma resolução pacífica deste conflito”, disse António Guterres, em comunicado, exortando “todas as partes a mostrar a máxima contenção neste momento”.O presidente do Parlamento iraniano e negociador-chefe não poupou o presidente dos EUA. Em mensagem no X, Bagher Qalibaf denunciou a abordagem de “bom polícia, mau polícia” e disse que “se lhes falta a vontade e a capacidade de cumprir os seus compromissos, falar em continuar pelo caminho [diplomático] não é possível”. Outras figuras do regime, como o brigadeiro Mohammad Jafar Asadi, disseram que os “crimes não ficariam impunes”. O Conselho de Segurança Nacional disse, também na rede propriedade de Elon Musk, que uma retaliação estaria “iminente” e o espaço aéreo iraniano foi fechado.Segundo o Canal 12 israelita, Trump estaria a tentar evitar uma retaliação tendo proposto ao Irão concessões. Segundo o mesmo canal televisivo, uma das concessões passaria por emitir vistos de permanência à seleção de futebol do Irão, a qual neste momento só tem autorização para entrar nos EUA no próprio dia de jogo do Mundial, tendo também de sair no próprio dia. ."A paz nunca esteve tão próxima." Islamabad e Teerão confirmam progressos na proposta de acordo com EUA.Acordo para negociarDe Teerão até tinham chegado notícias animadoras. Segundo uma fonte iraniana citada pela Reuters, o memorando de entendimento prevê a reabertura imediata do estreito de Ormuz e o levantamento do bloqueio naval dos EUA; a suspensão das sanções ao setor energético iraniano, permitindo o comércio de petróleo; o descongelamento de 25 mil milhões de dólares de ativos iranianos; e que EUA e aliados na região vão preparem um plano de reconstrução e desenvolvimento do Irão, a negociar num prazo de 60 dias. Em troca, o Irão compromete-se em não produzir nem adquirir armas nucleares (tal como sempre afirmou); em manter o statu quo nuclear, incluindo não enriquecer urânio e não expandir instalações nucleares até que um acordo final seja alcançado; também será alvo de discussões o mecanismo para materializar a diluição do stock de urânio altamente enriquecido, mas tal seria realizado no Irão. É possível que esta fonte iraniana tenha mencionado apenas parte do acordo, uma vez que, por exemplo, não há qualquer menção ao Líbano.O comandante que ‘morreu’ duas vezesAs notícias da morte de Ali Mussa Duqduq, na sequência de um bombardeamento na Síria, em 2024, teriam sido manifestamente exageradas. Terá sido agora, na sequência do ataque aéreo a Dahieh, no sul de Beirute, que o comandante do Hezbollah morreu. Foi preso em 2007, no Iraque, por forças norte-americanas, pela suspeita de ter comandado o rapto e homicídio de cinco soldados dos EUA em Bassorá. Entregue às autoridades de Bagdade em 2011, foi libertado no ano seguinte. A sua atividade prosseguiu: segundo Israel, teve nos últimos anos um “papel central na promoção de ataques terroristas e operações de combate contra o Estado de Israel e soldados” das forças israelitas.