Está o mundo à beira de uma nova corrida às armas nucleares? O único tratado que vincula Estados Unidos e Rússia ao limite de ogivas e lançadores expira nesta quinta-feira, após 10 anos de vigência e cinco de prorrogação. O New START, assinado em Praga pelos presidentes Barack Obama e Dmitri Medvedev, representa o último momento de entendimento entre Washington e o regime de Vladimir Putin (apesar de então ser nominalmente primeiro-ministro). Em paralelo com a retirada dos EUA de 66 organizações internacionais e agências da Organização das Nações Unidas, e com o relativo isolamento forçado da Rússia em resultado das sanções pela invasão da Ucrânia, a falta de um acordo de contenção nuclear entre ambos sinaliza um novo tempo na ordem internacional. As consequências do fim do New START podem ser sentidas tão cedo quanto no final de abril e início de maio, quando a revisão do Tratado de Não-Proliferação for tema de uma conferência na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque. “Decisão equivocada e lamentável”, disse Moscovo na quarta-feira a propósito da decisão dos EUA de não renovar o acordo por 12 meses. Em setembro, o líder russo propôs a extensão do tratado por um ano, ao que o seu homólogo Donald Trump respondeu no mês seguinte, ao dizer que “parece uma boa ideia”. Já em janeiro, o presidente dos EUA mostrou não estar preocupado em particular com o fim do New START ao comentar que “se expirar, expira” e que é necessário um tratado melhor. O documento impunha um máximo de 1550 ogivas nucleares implantadas de cada lado e 700 lançadores prontos (silos, submarinos, bombardeiros), o que era uma evolução em relação ao anterior tratado, o SORT. Em 2021, a prorrogação de cinco anos foi assinada dois dias antes de perder força legal. Em fevereiro de 2023, contudo, em resposta do apoio dos EUA à Ucrânia, Putin decidiu suspender a participação da Rússia no tratado. Na prática, a medida pôs fim às visitas de inspeção mútuas e à troca de dados. Ambas as partes, contudo, afirmam estar a cumprir os limites do tratado.A três dias do acordo passar a letra morta, Dmitri Medvedev, vice-presidente do Conselho de Segurança Nacional, habitual voz hiperbólica do putinismo, disse que o mundo deveria acordar para o problema. “Não quero dizer que isto signifique imediatamente uma catástrofe e o início de uma guerra nuclear, mas ainda assim deveria alarmar todos”, comentou em entrevista às agências Reuters e TASS. Em referência ao simbólico relógio do juízo final, uma avaliação anual por parte do Boletim dos Cientistas Atómicos sobre a probabilidade de uma catástrofe nuclear destruir o mundo, e que em 2025 estava a 89 segundos da meia noite, o valor mais perto de sempre, Medvedev disse que “os relógios estão a contar e obviamente têm de acelerar”. .Nuclear. Uma corrida incessante pela arma de que se diz ser dissuasora .Na véspera da expiração do New START, a voz do chefe da Igreja Católica, tradicionalmente afastada da retórica inflamada de Medvedev, coincidiu na preocupação com o tema. “Faço um apelo urgente para que não se permita que este instrumento caduque sem que se procure garantir um seguimento concreto e eficaz. A situação atual exige que tudo seja feito para evitar uma nova corrida armamentista”, escreveu Leão XIV no X. “Devemos substituir com urgência a lógica do medo e da desconfiança por uma ética partilhada que possa orientar as escolhas em prol do bem comum e tornar a paz um património salvaguardado por todos”, prosseguiu o pontífice..Uma comissão de peritos criada pelo Congresso dos EUA advoga que o país tem de expandir as capacidades nucleares para poder dissuadir Rússia e China em simultâneo..Nos Estados Unidos, e no Ocidente por extensão, há duas linhas de pensamento sobre o tema. A primeira preconiza que manter um acordo, ainda que de forma frágil e provisória, é melhor do que nada, para evitar uma corrida às armas nucleares entre ambos e para conter outros países. A segunda defende que o tratado, além de desequilibrado em favor de Moscovo, está desatualizado devido à ascensão da China como superpoder nuclear, pelo que a sua extensão nada resolve. “Uma extensão de um ano, juntamente com a retoma das inspeções no terreno ou trocas bilaterais de dados, reduziria a incerteza em diversos aspetos”, escreve a professora universitária Ariel Petrovics na Foreign Policy. “Permitiria a Washington concentrar recursos analíticos e diplomáticos em compreender a postura em evolução da China, ao mesmo tempo que aumentaria a influência combinada dos EUA e da Rússia para incentivar a China a juntar-se às fileiras de liderança nuclear responsável, estabelecendo o seu próprio diálogo nuclear.” Neste sentido, conclui a coeditora do livro Atomic Backfires: When Nuclear Policies Fail, “prolongar o New START reduz - em vez de agravar- a dificuldade de gerir um problema nuclear entre dois pares”.Mas o seu argumento e o dos pares com a mesma opinião não colheu. O secretário de Estado norte-americano repetiu a ideia de Trump de que qualquer acordo nuclear com a Rússia deve incluir a China. “O presidente tem sido claro no passado que, para se ter um verdadeiro controlo de armamento no século XXI, é impossível fazer algo que não inclua a China, devido ao seu vasto e rapidamente crescente arsenal”, afirmou Marco Rubio em conferência de imprensa. Isto no mesmo dia em que os líderes da Rússia e da China falaram ao telefone de “questões estratégicas”. Pouco depois Xi Jinping e Trump também mantiveram uma reunião ao telefone, tendo o primeiro pedido ao segundo para este aceitar a continuidade do tratado por um ano, ainda que de forma oficiosa (o tratado só podia ter a extensão de cinco anos). . A posição de Pequim tem sido a de não participar em negociações sobre o controlo de armamentos enquanto o seu arsenal continuar a ser muito inferior ao dos EUA e da Rússia. Estima-se que a China possua um arsenal nuclear de 600 ogivas, e o Pentágono prevê que o número chegue aos 1000 em 2030. Mas a Rússia e os EUA têm cada um stocks superiores a 5 mil ogivas.Em 2024, o cientista político Samuel Charap e o analista de defesa Christian Curriden traçaram para a RAND três cenários com o aproximar do fim do New START. Os dois primeiros já foram ultrapassados pelo calendário e o terceiro apontava para uma Rússia interessada em expandir o arsenal nuclear. Mas entre Moscovo e Washington, o primeiro a desencadear nova corrida às armas nucleares não será, pela lógica, a Rússia. “Os Estados Unidos precisam expandir a sua força nuclear para lidar com a crescente ameaça nuclear da China, e não devem ser limitados por um acordo de controlo de armamentos desatualizado com a superpotência do passado”, defende Matthew Kroenig na Foreign Policy. Este académico fez parte de uma comissão criada pelo Congresso dos EUA que concluiu, em 2023, que o seu país tem de preparar com urgência ogivas nucleares adicionais nas plataformas estratégicas, comprar bombardeiros e submarinos adicionais com capacidade nuclear, e desenvolver e implantar armas nucleares não estratégicas adicionais tanto na Europa como na Ásia. Este último ponto é realçado por outros especialistas: os EUA têm 200 bombas “táticas” e a Rússia quase 1500, o que deixa a Europa em posição especialmente frágil. A discussão sobre a autonomia estratégica europeia, ou de alguns países seguirem o seu caminho nuclear, como a Polónia ou a Ucrânia, pode ganhar novo peso se os EUA seguirem a recomendação da comissão e dar nova machadada ao Tratado de Não-Proliferação.Perante o cenário da proliferação nuclear, Kroenig escreveu: “Talvez aconteça. Talvez não. Mas isso é uma consideração secundária. O principal objetivo da estratégia nuclear dos EUA não é evitar uma corrida armamentista. O principal objetivo das armas nucleares dos EUA é dissuadir uma guerra nuclear e, dado o rápido aumento do arsenal da China, os Estados Unidos em breve não terão um dissuasor eficaz.”Tratados de controlo de armasSALT I Estados EUA e URSSLimite de Ogivas Implantadas Não abordadoLimite de Lançadores EUA: 1054 silos de ICBM* e 710 tubos de SLBM*; URSS: 1618 silos de ICBM* e 950 tubos de SLBM* Data de Assinatura 26-05-1972 Data de Entrada em Vigor 03-10-1972 Prazo de Aplicação Não aplicável Data Limite 03-10-1977Tratado INF Estados EUA e URSSLimite de Ogivas Implantadas Não aplicávelLimite de Lançadores Proíbe mísseis terrestres de 500-5500 km de alcanceData de Assinatura 08-12-1987Data de Entrada em Vigor 01-06-1988Prazo de Aplicação 01-06-1991Data Limite 02-08-2019START I Estados EUA e URSSLimite de Ogivas Implantadas 6000Limite de Lançadores 1600 lançadoresData de Assinatura 31-07-1991Data de Entrada em Vigor 05-12-1994Prazo de Aplicação 05-12-2001Data Limite 05-12-2009SORT (Tratado de Moscovo) Estados EUA e RússiaLimite de Ogivas Implantadas 1700-2200Limite de Lançadores Não aplicávelData de Assinatura 24-05-2002Data de Entrada em Vigor 01-06-2003Prazo de Aplicação Não aplicávelData Limite 05-02-2011New START Estados EUA e RússiaLimite de Ogivas Implantadas 1550Limite de Lançadores 700 lançadoresData de Assinatura 08-04-2010Data de Entrada em Vigor 05-02-2011Prazo de Aplicação 05-02-2018Data Limite 05-02-2026* ICBM - míssil balístico intercontinental * SLBM - míssil balístico lançado de submarino Fonte: Arms Control Association