Quando recorria a apoios sociais para sobreviver no exílio em Espanha e cuidava de idosos enquanto tentava homologar o seu diploma de Medicina, a ex-deputada venezuelana Dinorah Figuera devia estar longe de imaginar que, aos 65 anos, não só ia voltar a Caracas como seria a mulher escolhida por Washington para liderar o diálogo com o regime e tentar abrir caminho a uma transição política na Venezuela.O problema é que não tem o apoio popular que tem María Corina Machado, a líder opositora que venceu o Nobel da Paz e foi excluída das negociações.Médica de formação e política de carreira, Dinorah Figuera nasceu há 65 anos no estado de Aragua e formou-se na Universidade Central da Venezuela, onde deu os primeiros passos na atividade política como dirigente estudantil. Após ter passado pela formação de centro-esquerda La Causa R, acabou por se juntar ao Primero Justicia, do ex-candidato presidencial e atual deputado Henrique Capriles.Ao longo de mais de três décadas, com um percurso mais associado ao trabalho institucional do que à projeção mediática, passou por cargos autárquicos em Caracas, integrou a direção nacional do partido e foi eleita deputada para a Assembleia Nacional em 2010 e 2015.A sua vida política ficou marcada pelo exílio. Depois de denunciar abusos e alegadas ameaças do regime, deixou a Venezuela em 2018 e instalou-se em Espanha. Apesar das dificuldades que enfrentou, não deixou de estar ligada à oposição venezuelana. O seu nome ganhou projeção internacional em janeiro de 2023, quando foi eleita para presidir à Assembleia Nacional saída das eleições de 2015 (a última dominada pela oposição), sucedendo a Juan Guaidó após o fim do chamado governo interino (23 de janeiro de 2019 a 30 de dezembro de 2022). A escolha foi simbólica, já que continuava no exílio, mas era vista como uma figura de perfil moderado e negociador. Já este ano, e depois da operação militar norte-americana de 3 de janeiro ter resultado na captura de Nicolás Maduro, voltou ao centro da atualidade política ao ser escolhida por Washington para liderar um novo processo de diálogo entre setores da oposição e o regime agora liderado pela antiga vice-presidente Delcy Rodríguez. Segundo alguns analistas, esta será a 18.ª ronda de negociações entre oposição e regime desde a chegada de Hugo Chávez ao poder em 1999. Dinorah Figuera regressou então a Caracas, onde se reuniu a 18 de junho com o presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, irmão de Delcy. A 1 de agosto, houve novo contacto, desta vez telefónico, com ambos a acertar a composição das respetivas delegações para a primeira ronda presencial de negociações ainda esta semana. Na agenda, a resposta ao duplo sismo de 24 de junho, que fez mais de seis mil mortos, mas também o “fortalecimento da democracia” e dos “direitos e garantias políticas”, focando na reforma de instituições como o Conselho Nacional Eleitoral.O Departamento de Estado norte-americano disse, em comunicado, apoiar estas negociações. “Este processo contribui significativamente para o plano em três fases que os EUA apoiam para alcançar a estabilização, a recuperação económica e a reconciliação política, bem como a transição para eleições democráticas. Estamos confiantes de que este trabalho pode gerar resultados tangíveis para os venezuelanos”, acrescentou. Mas onde fica María Corina Machado no meio de tudo isto? A líder opositora não está envolvida nas negociações, mas garante que não vai bloquear a iniciativa e que a vai avaliar pelos resultados concretos, nomeadamente a libertação de presos políticos, o regresso dos exilados, o restabelecimento das liberdades democráticas e a definição de um calendário eleitoral. A opositora tem insistido que qualquer processo de transição só será credível se refletir o mandato político que considera ter saído das presidenciais de 2024, que diz terem sido vencidas por Edmundo González, e se incluir os setores maioritários da oposição. Num inquérito feito pelo El Nacional nas redes sociais, 74% dos inquiridos responderam que María Corina Machado faz bem em não se juntar ao processo. “Continuamos a apoiar a María Corina e a dizer que o Edmundo é o presidente e qualquer negociação onde eles não estejam não faz sentido para nós”, resumiu ao DN o presidente da direção da Venexos, associação de venezuelanos em Portugal, Christian Höhn, que mantém contactos com a Nobel. “Dinorah apareceu do nada”, alegou, dizendo que havia muitas outras pessoas que podiam ter assumido esse papel e lembrando que “os EUA não têm interesse numa mudança drástica do governo na Venezuela porque só estão interessados no petróleo”.Christian Höhn referiu ainda que, infelizmente, na Venezuela há muita gente que só está a tentar sobreviver no dia a dia. “Com este desastre as pessoas não estão preocupadas com quem é presidente, mas em sobreviver”, referiu, lembrando que quem está preocupado são aqueles que estão fora..Nancy Gomes: “No imaginário coletivo venezuelano este terramoto poderá simbolizar o fim de um ciclo político”.Venezuela continua a contar os mortos um mês após o duplo sismo que reforçou o poder da presidente.Delcy Rodríguez vs. María Corina Machado. O jogo político nos escombros da Venezuela