Até 4 de abril deste ano, o mais tardar, Lula da Silva deve trocar 22 ministros do seu governo de 39, ou seja, 56% do executivo. Mas nem todas as trocas, aliás quase nenhuma, são por descontentamento do presidente com o desempenho dos auxiliares. A grande maioria tem objetivo eleitoral: permitir que os ministros, por norma com capacidade para atrair votos, concorram a cargos no Senado Federal ou na Câmara dos Deputados nas eleições de 4 de outubro para aumentar o apoio ao governo no Congresso Nacional.“A troca em massa é por causa da lei eleitoral da desincompatibilização”, conta Mayra Goulart, professora de Ciência Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro, ao DN. “Há um requisito necessário a todos os candidatos que exerçam funções executivas para deixar os cargos seis meses exatos antes da primeira volta das eleições, de forma a não terem acesso a recursos, não propriamente dinheiro, mas inaugurações de obras ou presença constante nos media, que os outros candidatos à mesma vaga não têm, o objetivo da desincompatibilização é, portanto, evitar desigualdade na competição eleitoral”. “Já quem exerce cargos no legislativo não precisa de se desincompatibilizar para concorrer outra vez”, completa a académica.Os 56% de saídas superam o anterior recorde, de 43%, registado em circunstâncias semelhantes pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, em 2022. Em 2018, 41% dos ministros de Michel Temer concorreram a cargos eleitorais e, em 2014, Dilma Rousseff teve de substituir 26% do executivo pelos mesmos motivos.Na última reunião com ministros, Lula anunciou que vai encontrar-se com os integrantes do governo que serão candidatos para decidir a estratégia eleitoral a adotar este ano. Afirmou que “não vai impedir ninguém de sair” mas também sublinhou que não pode “obrigar ninguém a concorrer”. “Aquele que tiver que se afastar, que se afaste mas, por favor, ganhe o cargo que vai disputar”, pediu, com um sorriso. E, mantendo o tom sarcástico, concluiu: “quando você tira um ministro, ele chora, mas quando é ele que quer sair, encontra todos os argumentos necessários para o fazer”.Para começar, o vice-presidente Geraldo Alckmin, que acumula funções com o cargo de ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, deve deixar esta pasta se for concorrer novamente a vice. Ou se, por outro lado, optar por tentar reconquistar o governo do Estado de São Paulo, que comandou por 13 anos, somados dois momentos distintos, num duelo contra Tarcísio de Freitas, o atual governador bolsonarista que ainda não decidiu se tenta a reeleição estadual ou se desafia Lula na corrida à presidência da República. Mas um dos primeiros a sair, já em fevereiro, deve ser Fernando Haddad, atual ministro das Finanças. O candidato presidencial derrotado por Bolsonaro em 2018 deseja coordenar a campanha de Lula e ficar como reserva no caso de o presidente, que fará 81 anos dois dias depois da data marcada, 25 de outubro, para a segunda volta das eleições, ser obrigado a afastar-se. Porém, vem sendo pressionado no Partido dos Trabalhadores (PT) a concorrer a uma vaga como senador ou a disputar pela segunda vez consecutiva o governo do estado de São Paulo, em vez de Alckmin, contra Tarcísio, que o bateu há quatro anos. O nome mais falado para o substituir no nevrálgico cargo de titular das Finanças é Dario Durigan, atual secretário de estado."Em São Paulo, precisamos de um candidato a governador forte e de um candidato ao Senado forte”, disse Lula naquela reunião, deixando em suspenso, portanto, o futuro dos seus dois principais delfins, Haddad, 62 anos, e Alckmin, 73. Entre os demais 20 ministros em trânsito do executivo para a campanha eleitoral nos respetivos estados, destaque para a três vezes candidata presidencial Marina Silva, ministra do Ambiente, que deve concorrer ao Senado pelo Acre. Anielle Franco, irmã de Marielle Franco e detentora da pasta da Igualdade Racial, pelo Rio de Janeiro, Simone Tebet, a terceira mais votada nas presidenciais de 2022, pelo Mato Grosso do Sul, e Rui Costa, influente ministro da Casa Civil, pela Bahia, estão entre os outros candidatos prováveis à câmara alta do Congresso.Gleisi Hoffmann, ministra da Secretaria de Relações Institucionais e ex-presidente do PT, é o nome mais sonante entre os que ponderam disputar um lugar na Câmara dos Deputados, no caso dela pelo Paraná. Por outro lado, Sidônio Palmeira, atual ministro da Secretaria de Comunicação da Presidência, tem de sair se quiser ser o “marqueteiro” de campanha em 2026, função que exerceu em 2022. Todos os ministros, salvo raras excepções, serão substituídos pelos principais secretários de estado para manter a continuidade das políticas. O objetivo de Lula e dos membros do governo com a debandada é engordar as bancadas mais à esquerda no poder legislativo, em clara minoria ao longo deste mandato. Naquela reunião com os ministros, o presidente anunciou, entretanto, a entrada de Gustavo Damião para o lugar do demitido Celso Sabino na pasta do Turismo. Essa foi a única mudança, desta leva, que se enquadra numa clássica remodelação governamental. De resto, Lula trocou 13 ministros ao longo do mandato por motivos variados.