O pai, o antigo presidente Rodrigo Duterte, gosta de a descrever como a “alpha” da família, que consegue sempre o que quer, e em 2011, após ter sido filmada a dar um murro na cara a um funcionário do tribunal que recusara o seu pedido, Sara Duterte ganhou nos media a alcunha de “a pugilista”. Agora, a vice-presidente das Filipinas está a ser alvo de um processo de impeachment, que começou na segunda-feira em Manilla, e que ameaça a sua ambição de ser candidata às presidenciais de 2028. E numa breve passagem pelo Senado, onde o processo decorre, na terça-feira, prometeu sair dele “ensanguentada mas não derrotada”. Em maio, Sara Duterte, que não esconde o seu objetivo de suceder ao presidente Ferdinand Marcos Jr. dentro de dois anos, foi alvo de um processo de destituição pela Câmara dos Representantes, dominada pelos aliados de Marcos. A advogada e política de 48 anos rejeitou as acusações que pesam contra ela, considerando-as perseguição política. O seu julgamento televisionado pelo Senado, que atua como tribunal de impeachment, está a dividir os filipinos, com manifestantes pró e anti-Duterte junto ao edifício. Sara Duterte enfrenta várias acusações de desvio de fundos públicos, acumulação de riqueza inexplicável, suborno a funcionários públicos e ameaças à vida do presidente Ferdinand Marcos Jr. e da primeira-dama. .No ano passado, a vice-presidente já fora alvo de um primeiro processo de impeachment por motivos semelhantes, mas evitou o julgamento, com o Supremo Tribunal a declarar a medida inconstitucional com base num pormenor técnico. Nascida em 1978 em Davao, na ilha de Mindanau, a segunda maior do arquipélago de quase 113 milhões de habitantes, de maioria católica, Sara Duterte é segunda filha de Rodrigo Duterte com a sua primeira mulher, a assistente de bordo Elizabeth Zimmerman. A medicina foi a sua primeira paixão , tendo mesmo o curso de Terapia Respiratória. E em 2022, na posse como vice-presidente admitiu que na juventude estava “obcecada pelo sonho de se tornar médica”, mas acabou “orientada para outro caminho”.Esse caminho passou primeiro pelo Direito, tendo feito o exame e entrado na Ordem depois de terminar o curso na Universidade, mas rapidamente a influência do pai a puxou para a política, com Rodrigo Duterte a desejar ver a filha suceder-lhe na presidência da Câmara de Davao como condição para avançar para a presidência. Foi o que aconteceu em 2010. Aos 32 anos, Sara Duterte tornava-se na primeira-mulher a presidir à câmara daquela cidade. E aos que hesitavam quanto à melhor forma de se referirem a mais uma Duterte, respondeu: “chamem-me Inday Sara”. Ora se no sul das Filipinas “inday” é um título honorífico atribuído às mulheres mais velhas e respeitadas, em Manila era tradicionalmente usado para se referir às empregadas domésticas do sul de forma pejorativa. Ao escolher usá-lo, Sara Duterte normalizou-o e agora até o pai a chama assim. O salto para o palco da política nacional deu-se em 2021, quando Sara Duterte surge no ticket presidencial ao lado do representante de outra dinastia política, Ferdinand Marcos Jr. (é filho do ditador homónimo e da famosa Imelda). Ao chegar à vice-presidência, nas eleições do ano seguinte, Sara Duterte era vista como a candidata óbvia à sucessão de Marcos Jr. quando em 2028 chegar ao fim o seu mandato único de seis anos. Mas rapidamente as coisas azedaram entre os dois. Mas a gota de água foi quando Rodrigo Duterte, num comício, acusou Marcos Jr, de ser drogado e um líder fraco. Depois de ignorada num evento público pela primeira-dama Liza Marcos, que a acusou de não ter condenado as palavras do pai, mas sobretudo após se demitir do governo (mas não da vice-presidência), em junho de 2024, Sara Duterte passou a usar uma retórica bastante violenta. Primeiro disse ter “falado com alguém” para “ir matar” Marcos e a mulher, e mais tarde confessou aos jornalistas ter “sonhado cortar-lhe a cabeça”.Palavras chocantes, mas que muitos das Filipinas atribuem ao caráter forte que Sara Duterte terá herdado do pai, fazendo com que continue popular sobretudo no sul e junto dos trabalhadores filipinos na diáspora. Ainda antes do início do julgamento do impeachment, Sara Duterte sofreu outro golpe, quando, em março último, o pai foi detido e extraditado para Haia, onde está a ser julgado por crimes contra a humanidade, envolvendo dezenas de assassinatos durante a sua guerra contra a droga, primeiro como mayor de Davao e depois como presidente. Apesar de detido, no ano passado Rodrigo Duterte voltou a ser eleito presidente da Câmara de Davao, muito graças à campanha da filha, cujo lema foi “tragam-no de volta para casa”. Já o destino da própria Sara Duterte, casada e mãe de quatro filhos, está em suspenso da decisão do Senado, com o processo de impeachment estimado durar vários meses.