Como se comporta a economia grega atualmente? Qual foi o crescimento em 2025?O PIB está a crescer aproximadamente o dobro, ou um pouco mais, do que a média europeia. Portanto, temos um crescimento de 2,4%, 2,2%, e no ano passado foi de 2,1%. Agora, os números para 2026 estão a ser revistos em baixa devido à crise de Ormuz, à guerra com o Irão e à crise no Médio Oriente, que se junta à guerra na Ucrânia, que ainda continua. Mas, de um modo geral, parece que conseguimos resistir à crise em condições muito melhores do que o resto dos países europeus.Será isso já o resultado de algumas mudanças estruturais que o país decidiu implementar após a crise de 2010?Correto, isso é um resultado. Falamos do crescimento do PIB e não são apenas números. O desemprego baixou, a situação fiscal está muito melhor. A Grécia é um dos cinco países da UE com um excedente orçamental. Face à crise de 2010 e 2012 consegue imaginar a diferença que é. Isto é o resultado de mudanças estruturais que implementámos no ambiente empresarial, no licenciamento, nas leis laborais, no combate à evasão fiscal, na criação de incentivos e no apoio ao crescimento das empresas, e assim por diante. Portanto, fizemos alterações pelas quais Portugal também teve de passar, mais ou menos, mas Portugal tinha um problema menor para resolver. A Grécia tinha um problema muito maior, mas penso que somos agora vistos como um exemplo muito positivo de uma transformação reformadora.Durante o período da Troika, na Grécia, a dada altura, parece ter havido uma certa frustração com a União Europeia. Como está o europeísmo hoje em dia?A recuperação foi total. Estamos certos de que a nossa posição na Europa é a correta e que precisamos de permanecer na Europa, em primeiro lugar. E em segundo lugar, sem a ajuda europeia, não teríamos conseguido ultrapassar esta fortíssima crise estrutural que atravessámos. Outro ponto importante a destacar, é que na Grécia nunca chegámos ao consenso político que vimos em Portugal. Durante os anos da Troika e dos memorandos, a oposição aqui revelou-se muito mais positiva, concordando com a maioria das mudanças, mesmo as dolorosas e necessárias. Enquanto na Grécia, o termómetro político esteve sempre mais elevado durante esta crise. E penso que isso talvez tenha prolongado também o tempo que demorámos a resolver as coisas.Como estão as relações económicas entre Portugal e a Grécia?Em primeiro lugar, se olharmos para os dois países, temos semelhanças evidentes. Somos nações marítimas, temos tamanhos semelhantes, tanto a nível geográfico como em termos de população. Dependemos muito do turismo, mas também temos um setor primário forte. Talvez Portugal tenha uma produção industrial um pouco mais forte do que a Grécia, e isso é algo que estamos a trabalhar para transformar. Mas, de um modo geral, penso que, em muitos aspetos, veja-se o setor das energias renováveis, somos países muito, muito avançados. Portanto, acho que na maioria dos fatores, somos muito semelhantes. Mesmo que analisemos medidas específicas, como o Visto Gold e outras, estes são programas que ambos os países criámos e implementámos, e que nos ajudaram durante a crise. Portanto, penso que, de um modo geral, o primeiro ponto é que somos países muito semelhantes. O segundo ponto é que temos uma posição geográfica muito, muito complementar. Nós somos a parte oriental do Mediterrâneo, vocês são a parte ocidental. Vocês têm os países lusófonos, que são como um espaço natural. Nós temos os Balcãs e o Médio Oriente, que também são muito importantes para o nosso comércio. Por conseguinte, creio que também existem possibilidades de cooperação entre as empresas gregas e portuguesas para se expandirem nestas áreas imediatas do outro lado. E, por fim, se analisarmos os números em termos de comércio, são ainda muito, muito modestos. Temos alguns investimentos de parte a parte. Temos nas energias renováveis, na fibra ótica e noutras tecnologias. Portanto, existem alguns investimentos e um comércio mais ou menos equilibrado e crescente, mas ainda estamos longe do nível de cooperação ideal.Referiu a guerra no Médio Oriente. E também a da Ucrânia, ambas muito mais próximas da Grécia do que de Portugal. Todas estas guerras têm um impacto muito forte na Grécia?Afetam-nos muito, muito mesmo. É necessário ter uma posição muito clara, na nossa opinião, sobre ambas as guerras, sobre o agressor e assim por diante. E as implicações financeiras são também muito imediatas. A energia, os fertilizantes e as mercadorias que transitam pelo Mar Vermelho e pelo Canal do Suez afetam diretamente o porto do Pireu e o fluxo de mercadorias para norte. Por outro lado, a Rússia exportava via Ucrânia energia para a nossa região, os países dos Balcãs em geral. Agora, esses países estão a importar de nós, por isso afeta-nos bastante. Ao mesmo tempo, os efeitos não são apenas negativos. O corredor vertical, a cooperação no sector energético, o GNL americano que chega através da Grécia, passando pela Bulgária, Roménia, Moldávia e finalmente pela Ucrânia, é também um desenvolvimento claramente interessante que permite à Grécia desempenhar um papel estabilizador muito importante na região. Vemos investimentos vindos do Médio Oriente para a Grécia porque muitos projetos estão a ser congelados devido à guerra e estão a procurar outras oportunidades. Portanto, também há desenvolvimentos positivos.Num mundo marcado pela competição entre superpotências rivais, sobretudo a China e os EUA, como vê o futuro da diplomacia económica grega?Bem, isto não se resume apenas à diplomacia económica grega. A questão é mais vasta. Trata-se da diplomacia económica europeia, da identidade europeia e de refletir sobre a nossa força atual, a força que ambicionamos ter e o papel que queremos desempenhar neste mundo em constante transformação. Estamos a entrar numa fase em que o equilíbrio de poder está a mudar. Há mudanças. Há, de certo modo, um novo Acordo de Ialta sobre as esferas de influência e coisas do género. O resultado é que nos estamos a afastar da era dos princípios e do primado do direito e a caminhar para um mundo muito mais transacional. Especialmente com duas grandes potências, que veem oportunidades para ganhar, ou que lutam contra a possibilidade de perder e tentam ganhar. O mundo está a tornar-se mais transacional. Portanto, nesta fase, todos temos de decidir com quem trabalhamos e com quem não trabalhamos. Claro que não existe uma resposta definitiva. Há coisas que podemos fazer com ambos os lados. Mas, em última análise, temos de avaliar quem é amigo e quem é inimigo. Sobretudo agora, em que grande parte da atividade económica é vista na perspetiva da segurança. Muitas coisas que antes deixávamos para as forças normais do mercado tornam-se agora estratégicas em termos da nossa autonomia e segurança. A mineração e as matérias-primas, a energia, os componentes de dupla utilização, a eletrónica e coisas do género já não são apenas produtos, mas também têm sido utilizados para guerras e assim por diante. Por isso, precisamos de nos estabilizar e evitar perigos. Naturalmente, temos de aproveitar as oportunidades. Falo em nome da Grécia, da Europa e, já agora, de Portugal. A Europa precisa de compreender que, se quer desempenhar um papel mais importante no mundo, precisamos de tomar uma decisão coletiva nesse sentido, explicar isso claramente às nossas populações e aos nossos cidadãos e fazer tudo o que for necessário para consolidar a nossa posição. Então, isto refere-se aos gastos com defesa. E também significa que precisamos de começar a pensar em termos de moldar o nosso ambiente, e não apenas de responder às ameaças ou de aproveitar as oportunidades existentes. Isto é algo que as grandes potências, como a China e os EUA, sabem, compreendem e operam sob estes princípios. A Europa tem-se mostrado relutante até agora em fazer o mesmo. Mas se queremos subir na classificação...Tradicionalmente a Grécia gasta quase 5% do PIB em orçamento de defesa. Portanto, são um dos poucos parceiros da NATO que não costuma receber criticas nessa matéria por parte dos EUA?Não estamos a receber estas críticas porque a Grécia é, de facto, um dos países que sempre esteve numa posição de destaque no investimento em defesa. Isto deve-se ao facto de termos sempre a Turquia, um vizinho muito, muito difícil, que também gasta grande parte do seu orçamento, seguindo as regras da NATO, mas também porque quer. E, como resultado, também somos obrigados a garantir que nos mantemos atualizados e que a nossa dissuasão é ativa e real. Quer dizer, é percebida como real também pelo outro lado.Tsipras apresenta o ELAS, o seu novo partido