Em vez de um cartaz a dizer “procura-se”, a Fundação Hind Rajab (FHR) revela por onde andam de férias os soldados israelitas e pede às autoridades locais que os prendam e julguem por crimes alegadamente cometidos na Faixa de Gaza, cujas provas eles próprios partilham nas redes sociais. O último alvo é o sargento Mori Keisar, que acusam de genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra nas suas ações em Gaza, incluindo demolições de casas de palestinianos ou ataques a escolas. Segundo a fundação, Keisar está em Barcelona, pelo que foi pedida a sua detenção imediata às autoridades espanholas. No início do ano, o alvo foi um soldado que passava férias no Brasil, tendo um tribunal brasileiro emitido um mandado de captura com base nas provas dos seus alegados crimes em Gaza. As autoridades israelitas ajudaram-no a fugir do país, tendo este caso ajudado a chamar a atenção para o trabalho da fundação belga. O Brasil, tal como Espanha, é um país onde vigora a chamada “jurisdição universal”, que lhes permite deter, investigar e acusar suspeitos de crimes graves, como os de guerra ou contra a humanidade, que tenham ocorrido fora das suas fronteiras. O caso mais conhecido será o do ex-ditador chileno Augusto Pinochet, preso em Londres em 1998.A fundação foi batizada em homenagem a Hind Rajab, uma menina palestiniana de 5 anos que há um ano fugia com os tios e quatro primos de Tel an-Hawa, na cidade de Gaza, quando o carro em que seguiam foi atacado por um tanque israelita. Hind e uma das primas, de 15 anos, sobreviveram ao ataque inicial, com esta última a pedir ajuda por telemóvel aos serviços de emergência do Crescente Vermelho. O áudio das conversas, divulgado pela organização, mostra como a prima foi morta quando estava ao telefone, com Hind a continuar a pedir ajuda (sem sucesso) por mais três horas.Os serviços de emergência foram impedidos de aceder ao local por causa das operações militares e quando finalmente foi enviada uma ambulância, esta acabou também debaixo de fogo, com os dois paramédicos a serem mortos. Israel negou que tivesse tanques no local, mas investigações com base em imagens-satélite - uma delas do jornal The Washington Post - revelaram que isso era mentira.“Este ato horrível não é um incidente isolado, mas parte de uma campanha sistemática e intencional de extermínio que visa os civis palestinianos em Gaza”, afirma a fundação, que diz estar “comprometida em honrar a memória” de Hind “responsabilizando esses perpetradores e revelando a verdade sobre o genocídio em andamento em Gaza”. O método é simples. A FHR utiliza as fotos e vídeos partilhados durante meses pelos soldados israelitas nas suas redes sociais para encontrar provas do que diz serem crimes de guerra. Depois, quando esses soldados viajam até países de jurisdição universal pede a sua detenção. “A nossa principal missão é prosseguir ativamente ações legais contra os responsáveis por estas atrocidades, incluindo perpetradores, cúmplices e incitadores da violência contra os palestinianos”, indica a fundação. “Através de litígios ofensivos, pretendemos responsabilizar estes intervenientes nos tribunais internacionais e nacionais, desafiando a cultura de impunidade que permitiu que tais crimes persistissem”, acrescenta.Apesar de estar a trabalhar há vários meses, a fundação com sede na Bélgica saltou para a ribalta depois de um juiz brasileiro ordenar a detenção de um soldado israelita que estava de férias no Brasil. Yuval Vagdani, acusado pela FHR de participar na demolição massiva de casas civis em Gaza, conseguiu fugir do país com a ajuda das autoridades israelitas - primeiro para a Argentina e depois para os EUA. No regresso a Israel, disse que ser “forçado” a encurtar a sua “viagem de sonho” era como “levar uma bala no coração”.A imprensa israelita já escreveu, entretanto, artigos sobre o que os militares devem fazer quando forem apanhados nesta situação, com as próprias Forças de Defesa de Israel a emitirem novas diretivas sobre o contacto dos soldados com os media ou até mesmo as fotos que divulgam do terreno em Gaza, procurando apagar os rostos e nomes completos para os proteger. Contudo, não foram dadas indicações aos militares sobre o que partilham nas redes sociais - a principal fonte de informação da FHR.O rosto por detrás da fundação é o ativista Dyab Abou Jahjah, que tem dupla nacionalidade libanesa e belga e já está na mira do governo israelita. O ministro da Diáspora, Amichai Chikli, acusa-o de pertencer ao grupo xiita Hezbollah (circula nas redes sociais uma foto dele com uma metralhadora na mão, tendo o próprio admitido ter voltado ao Líbano durante a guerra com Israel em 2006). “Olha para o teu pager”, escreveu Chikli no X, referindo-se à operação israelita contra o Hezbollah. Depois do que disse serem “ameaças”, Jahjah escreveu no X que não ia desistir: “A Justiça é o único caminho a seguir - não a vingança, nem a violência, mas a justiça através dos tribunais. Os quadros jurídicos internacionais e nacionais devem prevalecer.”Mas o seu percurso não é claro, tendo criado no passado vários organismos, incluindo a Liga Árabe Europeia ou o Movimento 30 de Março (a partir do qual nasceu a fundação), e tentado por várias vezes ser eleito para cargos políticos na Bélgica.Uma coluna que escrevia num jornal belga foi cancelada depois de apoiar o uso da violência para a libertação da Palestina. No dia do ataque do Hamas, escreveu no Facebook que “estes combatentes da resistência palestiniana que entram nestes colonatos são todos refugiados, cujos pais foram vítimas de limpeza étnica nestas aldeias em 1948/1967. Qualquer pessoa que negligencie este facto não está a envolver-se seriamente numa conversa, mas sim a espalhar propaganda israelita, intencionalmente ou não.”susana.f.salvador@dn.pt .Quem são os 90 palestinianos que Israel libertou em troca das três reféns?