A nova rede social W (ou W Social) foi lançada esta quinta-feira (17 de junho) e apresenta-se ao mundo com uma missão ambiciosa: oferecer uma alternativa europeia que se pretende viável, segura e transparente ao X (antigo Twitter) de Elon Musk. Sob o lema "Trust your feed" (Confia no teu mural), o projeto sueco quer provar que é possível criar um espaço de debate público digital mantendo a soberania geográfica dos dados, a validação humana dos mesmos e no cumprimento estrito da legislação europeia.O principal fator de diferença da W face aos seus concorrentes norte-americanos, segundo anuncia a startup, é o combate à desinformação automatizada: as campanhas levadas a cabo por redes de bots ou contas falsas geradas por Inteligência Artificial não têm espaço, dizem.Como? Para publicar ou interagir na plataforma, os utilizadores são obrigados a passar por um processo de verificação através da aplicação complementar W Identity, que exige a digitalização de um documento de identificação oficial. Embora os utilizadores possam optar, depois, por manter um pseudónimo público para proteger a sua privacidade perante os restantes membros, a plataforma exige que, internamente, exista por trás de cada conta um cidadão real e identificável, até para efeitos jurídicos.Além disso, o algoritmo de recomendação da rede está desenhado para beneficiar ativamente a transparência: os utilizadores que optam por exibir o seu nome civil real no perfil ganham prioridade e maior alcance orgânico na distribuição dos seus conteúdos, prometem os administradores.Apoio público, capital privadoO lançamento da W, em Bruxelas, foi rodeado de forte aparato político. Contou com a adesão de figuras como a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, o presidente do Conselho Europeu, António Costa, e a presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde. Até parecia que se tratava de uma app financiada por dinheiros públicos.Na verdade, a W é uma iniciativa 100% privada. Desenvolvida pela empresa sueca W Social AB, a plataforma é financiada por uma rede de investidores e empreendedores exclusivamente europeus, incluindo a reputada plataforma climática We Don't Have Time. Mas para garantir que o controlo estratégico nunca sai do continente, o estatuto acionista da empresa dita que apenas cidadãos ou entidades do espaço europeu podem deter capital. O modelo de negócio assenta em "publicidade ética" (em conformidade com o RGPD) e em micropagamentos voluntários por ferramentas extra.A nível tecnológico, a plataforma assenta no AT-Protocol (o mesmo protocolo descentralizado que serve de base ao Bluesky, outra rede social que ganhou fama após vários utilizadores terem saído do então Twitter quando este foi comprado por Elon Musk, em protesto pela forma como este gere a rede social), adaptado para respeitar os padrões de segurança e jurisdição de dados europeus."Verdade" e o papel do Digital Services ActComo se define o que é verdade ou mentira numa plataforma digital? A W diz rejeitar a criação de um "ministério da verdade" corporativo e focar-se na responsabilização individual, no espírito da legislação europeia. Uma vez que todos os utilizadores estão verificados, qualquer pessoa que propague calúnias, difamação ou crimes digitais responde diretamente perante a justiça do seu país de origem.O que ali for "postado" é moderado, de acordo com a lei, nomeadamente o Digital Services Act (DSA) da União. A moderação, afirmam, é feita por equipas humanas com "critérios transparentes", prometendo assim eliminar os bloqueios arbitrários comuns noutras redes.E se houver litígios?No entanto, sempre que existe interação humana, o conflito é inevitável. A W desenhou uma estrutura jurídica baseada no Regulamento dos Serviços Digitais (DSA) da UE: caso um utilizador veja um conteúdo seu ser removido ou a sua conta suspensa de forma que considere injusta, pode recorrer a um mecanismo de contestação:Inicia um recurso interno, em que uma revisão humana será obrigatória, promete ser célere e gratuita, gerida pela própria plataforma. Esta pretende servir de barreira contra os habituais bloqueios automáticos efetuados por algoritmos.Caso o assunto não fique resolvido a contento, pode escalar para entidades externas e independentes, certificadas pela Comissão Europeia, que avaliam o conflito de forma imparcial e emitem decisões alegadamente rápidas, que são vinculativas para a rede social.Existe ainda a possibilidade de recurso a tribunais judiciais da União Europeia. E para os cidadãos comunitários, por a W estar sediada na Suécia, responde diretamente perante o quadro jurídico da UE, permitindo que qualquer utilizador recorra aos tribunais comuns do seu próprio país de residência, evitando as habituais barreiras legais transatlânticas que acontecem quanto às redes sociais norte-americanas.Êxodo tecnológico: Parlamento Europeu larga Google pelo QwantO aparecimento da W Social não é um caso isolado, antes o reflexo de um movimento mais amplo no panorama digital e político do continente europeu. Apenas algumas semanas antes deste lançamento, a 4 de junho, o Parlamento Europeu tomou a decisão histórica de abandonar o gigante Google como o motor de busca predefinido em todos os computadores internos, adotando em sua substituição a alternativa francesa Qwant, que é focada na privacidade dos utilizadores.A decisão, avançada inicialmente pelo jornal Politico, baseou-se na urgência de proteger os dados de navegação das instituições e de fomentar a soberania digital europeia. Embora os eurodeputados e funcionários ainda possam aceder ao Google manualmente, a barra de pesquisa padrão de todos os computadores parlamentares passou a ser gerida pelo Qwant, que não rastreia os utilizadores, não recolhe histórico de pesquisa nem comercializa dados pessoais para publicidade.Esta transição para o Qwant demonstra por que é que soluções norte-americanas focadas em privacidade — como o célebre DuckDuckGo — não serviam os propósitos estratégicos de Bruxelas. O DuckDuckGo, sendo uma empresa sediada nos EUA, está sujeito ao alcance legal das agências de segurança norte-americanas (como o Patriot Act).O preço da privacidade: a escala do índice e resultados mais incompletosA transição para uma solução soberana como o Qwant não é isenta de cedências funcionais. A diferença na escala de indexação da internet entre o motor de busca francês e o gigante de Mountain View é, hoje, abissal. Enquanto o índice do Google mapeia e organiza centenas de milhares de milhões de páginas web à escala global, o índice totalmente proprietário do Qwant é estimado em apenas 8 mil milhões de páginas.Esta disparidade reflete-se inevitavelmente na riqueza e precisão dos resultados. Para pesquisas quotidianas, notícias de última hora ou temas generalistas, o Qwant oferece uma resposta eficaz. No entanto, para pesquisas de "cauda longa" (long-tail) — consultas específicas, nichos de mercado, fóruns mais obscuros ou documentação técnica mais restrita —, o Google continua a apresentar uma taxa de eficácia muito superior. Adicionalmente, por não rastear o utilizador nem criar um perfil de navegação (o chamado no-tracking), o Qwant não personaliza os resultados, exigindo que o utilizador formule as suas pesquisas de forma mais explícita e cirúrgica em cada busca.Na prática, isto significa que se os eurodeputados e investigadores parlamentares se limitarem ao motor de busca padrão e não contornarem o sistema acedendo ao Google de forma manual, ficarão frequentemente com as "pernas cortadas" para obter respostas úteis, complexas ou mais completas. A não ser que, informalmente, façam um desvio informal para a tecnologia norte-americana, para não arriscar que o trabalho legislativo saia prejudicado.Para tentar mitigar esta desvantagem de escala sem comprometer a sua independência, o Qwant tem dependido historicamente da tecnologia e do catálogo do Bing (da americana Microsoft) para complementar as suas pesquisas mais globais. Contudo, a verdadeira emancipação tecnológica da Europa nesta área está a ser desenhada com o projeto Staan — uma nova base de dados e índice de busca pan-europeu, desenvolvida em parceria com a Ecosia, que visa construir uma alternativa de indexação robusta, de raiz europeia e totalmente desvinculada dos servidores e da jurisdição dos Estados Unidos. Contudo, como o projeto Staan se encontra ainda numa fase muito precoce e embrionária de desenvolvimento, está longe de suprir estas necessidades imediatas de produtividade de quem trabalha na máquina europeia.Facto é que, ao optar pelo Qwant (e consequentemente pelo novo ecossistema europeu de indexação Staan), e ao endossar a nova rede social W, os organismos europeus enviam uma mensagem inequívoca ao mercado global: a era da dependência cega das megacorporações tecnológicas de Silicon Valley (Big Tech) está a chegar ao fim. Para Bruxelas, a soberania europeia já não se debate apenas nas fronteiras geográficas, mas também em cada pesquisa, em cada post e em cada servidor de dados.Resta saber se os cidadãos europeus acompanham os burocratas e os seus europarlamentares. É que nos motores de busca, como a Microsoft (e o seu Bing) bem sabem, vence sempre quem responde mais acertadamente. E nas redes sociais as pessoas estão onde estiverem os seus amigos a publicar coisas que lhes interessam. Assim é, pelo menos, nas sociedades livres que a União Europeia continua a afirmar ser e defender.