A indústria portuguesa do calçado tem de continuar a exportar para os Estados Unidos da América (EUA), mesmo com toda a instabilidade comercial que tem marcado a presidência de Donald Trump, defendeu esta segunda-feira, 23 de fevereiro, João Rui Ferreira, secretário de Estado da Economia, à margem de uma visita à Micam, a maior feira internacional de calçado, que está a decorrer em Milão, Itália. "É um mercado que a indústria portuguesa não pode abandonar", afirmou.Donald Trump decidiu, no passado sábado, agravar a taxa aduaneira de 10% para 15%, depois do Supremo Tribunal dos EUA concluir que as tarifas impostas às importações norte-americanas eram ilegais. A decisão de Trump criou mais um momento de tensão com a União Europeia (UE) e, por consequência, preocupação nas indústrias exportadoras. No ano passado, fruto da instabilidade da política comercial dos EUA, as empresas portuguesas de calçado sofreram uma quebra de 12,3% nas vendas para este destino, que se traduziu num valor de 84 milhões de euros.Apesar desta incerteza, fechar a porta ao mercado dos EUA não é opção. "O poder aquisitivo é muito alto", justificou João Rui Ferreira. "Exportamos produtos de alto valor acrescentado" para este destino e é nesse segmento "onde está muitas vezes a rentabilidade, o valor acrescentado", defendeu o governante, já depois de contactar com algumas das 39 empresas portuguesas de calçado que marcam presença no certame. João Rui Ferreira lembrou que os EUA "é um mercado heterogéneo", que as empresas portuguesas já conquistaram. "Tenho a certeza absoluta que é um mercado que não vão querer abandonar", sublinhou. Não só os EUA, como também o Canadá, acrescentou.Os próximos dias serão decisivos para esclarecer a que países e produtos Trump está disposto a aplicar a tarifa de 15%. Para já, é preciso aguardar. Questionado pelos jornalistas, o secretário de Estado da Economia lembrou que "a posição do Governo português em termos de direitos aduaneiros tem de ser concertada ou pelo menos alinhada com a Comissão Europeia". O órgão máximo da UE "já deu uma nota clara de que o acordo que foi alcançado é para ser mantido" e quer " manter a vantagem competitiva que conseguiu em julho", disse. "Aquilo que menos queríamos agora era mais instabilidade em cima de um processo que parecia ter ganho alguma estabilidade", afirmou ainda..Esta nova tensão comercial chega num momento de quase estagnação das exportações do setor português de calçado. No ano passado, as vendas ao exterior registaram um crescimento residual de 0,8%, atingindo 1718 milhões de euros. Ainda assim, chegaram a 170 países. Esta diversificação de destinos parece ser a receita ideal para os dias nebulosos que pairam sobre o comércio global. Para João Rui Ferreira, a resiliência económica de Portugal "também passa por diversificar mercados", com as empresas a apostar na entrada em novas geografias e na continuidade dessas apostas. E lembrou que o setor está a "descobrir mercados onde o poder aquisitivo está a crescer, que é onde o calçado português se posiciona". Segundo frisou, "não vamos entrar em segmentos onde o poder aquisitivo é baixo".O acordo comercial entre a UE e o Mercosul (união comercial que integra a Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai) poderá constituir uma oportunidade para o calçado português entrar em novas geografias e, por essa via, aumentar as exportações. Essa é pelo menos a opinião de João Rui Ferreira. Como disse, "tem uma vantagem adicional", já "que a língua portuguesa é que domina em mais de dois terços dos clientes" (numa referência ao Brasil). Há também uma parte da população com elevado poder de compra.O acordo com a Índia levanta algumas dúvidas, mas com possibilidades caso o nível de vida cresça mesmo em pequenas franjas populacionais. "Estamos sempre a falar de um grande mercado", disse. Quanto a uma possível concorrência da indústria de calçado indiana (a segunda maior do mundo, logo a seguir à China), não é de esperar grandes alterações. Até porque, "os direitos aduaneiros na Europa eram relativamente baixos", exatamente 4,5% nos sapatos de couro, o principal produto das empresas portuguesas e o que garante valor acrescentado e diferenciação.A jornalista viajou para Milão a convite da APICCAPS .Calçado está em Milão para contrariar quebra de 12% nas vendas para os EUA.“Taxa de UE de três euros sobre produtos chineses é atirar areia para os olhos"