A Guerra do Médio Oriente trouxe uma nuvem negra à indústria portuguesa do vestuário. Os custos energéticos, de transporte e das matérias-primas derivadas do petróleo, e nos tempos de trânsito das mercadorias, subiram entre 30 a 40% deste que os EUA e Israel decidiram atacar o Irão. Segundo César Augusto, presidente da Associação Nacional das Indústrias de Vestuário e de Confecção (ANIVEC), “os aumentos variam de empresa para empresa, mas estamos a falar de agravamentos que, em muitos casos, se situam entre os 30% e os 40%”.Como sublinha, a escalada nos custos “tem um impacto enorme em produções que já estavam planeadas, contratadas ou orçamentadas, e pode comprometer seriamente as margens e a tesouraria das empresas”. César Augusto alerta que o setor já opera com margens muito pressionadas e estes aumentos podem “colocar em causa a viabilidade financeira de muitas operações”. As empresas estão a tentar adaptar-se a esta disrupção, mas admitem a necessidade de um mecanismo de apoio urgente, sobretudo para as indústrias mais expostas a custos energéticos, matérias-primas e transporte, frisa.A indústria enfrenta agora “dificuldade em orçamentar, assumir encomendas de médio prazo e garantir estabilidade nas cadeias de abastecimento”, alerta. E começa a sentir uma maior prudência das marcas, sobretudo no segmento produção para terceiros, que estão menos recetivas a contratar grandes encomendas para a próxima estação. Segundo César Augusto, sente-se uma “redução de volumes, adiamento de decisões e uma pressão acrescida sobre preços e prazos”. Até porque o impacto nos bolsos dos consumidores deverá sentir-se sobretudo na próxima estação.Um cenário que está a preocupar as empresas portuguesas de vestuário. Afinal, ainda antes do início da guerra, já o ambiente era de retração. Nos primeiros dois meses deste ano, as exportações de têxtil e vestuário caíram cerca de 1,5% face ao mesmo período de 2025. Para César Augusto, ainda é cedo para perspetivar como irão evoluir as vendas ao exterior ao longo do ano, “mas se os custos continuarem elevados, se a procura externa se mantiver retraída e se não houver medidas europeias eficazes contra a concorrência desleal, 2026 poderá ser um ano difícil para o setor”. A concorrência desleal apontada por César Augusto tem várias faces. Uma respeita às plataformas de comércio eletrónico. Na sua opinião, a taxa de três euros que a União Europeia decidiu aplicar, a partir de 1 de julho, a encomendas com valor inferior a 150 euros provenientes de fora do espaço europeu “é alguma coisa, pode ter um efeito simbólico ou parcialmente dissuasor, mas não resolve o problema estrutural”. Para o presidente da ANIVEC é preciso ir mais longe: “garantir que todas as mercadorias são devidamente controladas, que entram com fatura válida, que pagam IVA e direitos aduaneiros adequados ao valor real da mercadoria, e que cumprem as regras europeias de segurança, ambiente e propriedade intelectual”. A outra prende-se com um mercado para a indústria sustentável. Como aponta, as empresas europeias, onde se incluem as portuguesas, “fizeram investimentos significativos para responder às exigências da agenda verde”, mas esse esforço não está a ser acompanhado “por uma procura equivalente, nem por mecanismos de proteção que assegurem condições de concorrência justas”. Segundo diz, entram na Europa produtos importados a preços inferiores, muitas vezes rotulados como sustentáveis sem controlo efetivo, que criam situações de dumping e desincentivam o investimento. Para César Augusto, este problema só se resolve com a criação de “um mercado funcional para estes produtos que inclua incentivos à produção europeia, controlo efetivo nas fronteiras e maior sensibilização do consumidor”.Neste quadro, vai realizar-se a sexta edição da ITF Intertex Portugal, na Exponor, em Matosinhos, certame que vai reunir mais de 150 expositores e espera cerca de 4000 visitantes, entre 19 e 21 deste mês. Organizada pelo B Group, com o apoio da ANIVEC, pretende ser um palco internacional da moda produzida em Portugal, mostrando a capacidade produtiva, tecnológica, criativa e industrial do setor. As empresas expositoras vão dar mostras das suas competências em matérias-primas, tecidos, acabamentos, tecnologia, maquinaria, inovação, sustentabilidade, design e desenvolvimento de produto. Como frisa César Augusto, o objetivo é “reforçar Portugal como destino de referência para produção de qualidade, proximidade e inovação”. .Dois meses de guerra: gasóleo dispara 22%. Gasolina sobe 14%