O último debate televisivo das eleições presidenciais de 2026 repetirá os candidatos que estiveram no primeiro, e não se espera que António José Seguro e André Ventura se desviem muito dos registos que adotaram nesse confronto de ideias, quando poucos arriscariam dizer que o antigo secretário-geral do PS e o fundador do Chega disputariam a segunda volta, 40 anos após Mário Soares ter derrotado Freitas do Amaral. E com clara vantagem nas sondagens para o socialista que demorou quatro meses a ter apoio oficial do seu partido.Num modelo de debate longo, com 75 minutos de duração, e que será transmitido em simultâneo na RTP1, SIC e TVI , a partir das 20h30 desta terça-feira, António José Seguro e André Ventura tentarão fazer valer o que acreditam ser os seus pontos fortes. E, no caso do vencedor da primeira volta, que ao longo dos últimos dias ganhou apoiantes tão díspares quanto Cavaco Silva, Paulo Portas, Mariana Leitão (embora a líder da Iniciativa Liberal tenha ressalvado que votará “sem entusiasmo”), Rui Tavares ou Catarina Martins, o mais importante será defender que será a única opção no boletim de voto a ter perfil presidencial. A moderação no discurso e a promessa de representar todos os portugueses, que têm sido duas notas dominantes ao longo de todo o percurso que deixou António José Seguro na iminência de ser o primeiro socialista a ser Chefe de Estado desde 2006, deverão marcar um debate em que o candidato conta entrar impávido e sereno no MUDE - Museu do Design, em Lisboa. Pelo contrário, de André Ventura espera-se que entre ao ataque, procurando pôr à prova a calma do adversário. E que procure explorar aquilo que tem dito ser a “falta de ideias” de Seguro em temas capazes de mobilizar o eleitorado do Chega e atrair quem deu o voto a outros candidatos na primeira volta, nomeadamente entre os que até agora têm optado pela AD e pela Iniciativa Liberal em eleições legislativas. Encaminhar o debate para “temas que falem para muitas pessoas”, incluindo as pensões baixas e os problemas no Serviço Nacional de Saúde, é a estratégia que o segundo candidato mais votado na primeira volta utilizará para marcar pontos. Por muito que as reais expectativas de vitória na sucessão de Marcelo Rebelo de Sousa sejam diminutas, é voz corrente na campanha de Ventura que todas as eleições devem ser encaradas como sendo para ganhar. Seja literalmente ou no sentido de ganhar terreno.Pelo mesmo motivo, Ventura terá o dilema de encontrar um equilíbrio entre os benefícios de alguma moderação, potencialmente importante para o alargamento da base eleitoral - sendo a ultrapassagem do número de votos conseguidos pela AD de Luís Montenegro uma fasquia inconfessada, o que implicaria juntar mais 644.617 votos aos 1.326.942 obtidos na primeira volta -, e a repetição de um modelo já testado. E que no primeiro debate com Seguro levou à insistência em expressões como “conversa de chacha” enquanto resposta a intervenções do adversário.Antecipando que Ventura possa enveredar por uma sucessão de ataques, depois de o ter procurado colar a figuras como o antigo primeiro-ministro José Sócrates, o banqueiro Ricardo Salgado e o ex-ministro socialista Armando Vara, Seguro disse, nesta segunda-feira, que “espera mesmo que seja um debate” aquilo que irá acontecer na noite desta terça-feira.Acusado de “ter medo”, por ter recusado um segundo debate televisivo - e ainda a sugestão de um terceiro, integralmente dedicado ao tema da Saúde, feita por Ventura -, o vencedor da primeira volta procurará defender que os eleitores portugueses estarão perante a escolha entre um candidato à Presidência da República e um candidato a qualquer coisa, com intenções que passam por vir a ser primeiro-ministro. Também é expectável que possa capitalizar o argumento da moderação no que diz respeito à representação de Portugal na cena internacional, contrastando com as posições do adversário em relação aos eventuais futuros homólogos de países lusófonos. Sobretudo no que toca ao presidente brasileiro, Lula da Silva - contra quem fez manifestações, dentro e fora da Assembleia da República -, e ao presidente angolano, João Lourenço.Também é muito provável que os 75 minutos de debate não sejam alheios ao tema da imigração. Para o líder do Chega, mesmo que António José Seguro não tenha exercido funções executivas desde que foi ministro-adjunto de António Guterres, haverá ocasião para mencionar as políticas seguidas pelos governos de António Costa, nomeadamente no que toca ao fim do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras e na opção pela manifestação de interesses, revertida pelo Governo AD.Estando o primeiro-ministro entre as figuras do centro-direita que se têm mantido em silêncio quanto à segunda volta, não deverá faltar no debate a pergunta sobre o relacionamento do futuro Presidente da República com o Governo. Com Seguro empenhado em sossegar o eleitorado da AD, sem afugentar a esquerda, e Ventura pronto a capitalizar o argumento de ser o candidato que não é socialista. .Como foi o primeiro debate?.André Ventura e António José Seguro protagonizaram o primeiro dos 28 debates entre candidatos presidenciais realizados pelas televisões (sem André Pestana, Humberto Correia e Manuel João Vieira, também aceites pelo Tribunal Constitucional, e que foram a votos na primeira volta).Foi na noite de 17 de novembro, na TVI, moderado por José Alberto Carvalho, numa altura em que o antigo secretário-geral do PS não aparecia nas sondagens como favorito a passar à segunda volta. Frases de António José Seguro“Está na eleição errada. Ainda há seis meses andou a pedir aos portugueses para votarem em si, borrifou-se para esses votos, e candidata-se a Presidente da República. Não acha que isso fere o contrato de confiança que lhe deram quando votaram em si?”“O problema não está no sistema de Governo. Está na maneira como se governa, e como os partidos se envolvem.”“É necessário que os partidos tomem consciência de uma coisa muito simples: há problemas graves no país, que precisam de resolução.”“A primeira prioridade, no meu primeiro ano de mandato, vai ser que haja um pacto para a saúde, para promover o acesso dos portugueses à saúde.”“Não tem sentido o que o senhor faz, que é estigmatizar as minorias.”Frases de André Ventura“Vem dizer que temos de pensar nos salários e na produtividade, mas é o candidato do PS, que nos deixou o país no estado em que deixou.”“Sou o Presidente que quer dar um murro na mesa e impedir a conversa de chacha.” “Quero garantir que o Presidente da República possa ter um papel mais vigilante e atuante.”“Vejo que não tem solução nenhuma. Tem a mesma conversa que durante 50 anos tiveram sobre a saúde.”“Sabe uma forma de pôr a nossa saúde na ordem? É garantir que os nossos médicos, enfermeiros e auxiliares têm que lidar primeiro com os problemas que os portugueses têm na saúde. E não haver um bar aberto para o mundo inteiro vir cá tratar-se e curar-se à nossa custa.”.Presidenciais. Seguro quer menos megaprocessos judiciais e vai zelar pelo secretismo das investigações.Presidenciais: André Ventura teve menos votos do que em 2021 em quatro freguesias de Lisboa