Ana Catarina Mendes é eurodeputada e uma das figuras mais proeminentes do Partido Socialista. Esteve como secretária-geral adjunta de António Costa, foi ministra dos Assuntos Parlamentares, com a tutela da pasta das migrações, e dá a sua visão da política de imigração do governo do PS com críticas ferozes a Leitão Amaro, atual ministro da Presidência, e a um Governo que diz correr riscos de défice e que tem seguido as bandeiras do Chega. Vê José Luís Carneiro legitimado para eleições em 2029 e está disponível para ajudar o PS.Que balanço faz destes dois anos no Parlamento Europeu?É um desafio muito estimulante. Acho que este é um mandato que vai determinar o futuro do projeto da União Europeia (UE). Tem desafios como a sustentabilidade das nossas democracias devido à inteligência artificial, à propagação de desinformação e aos ataques às estruturas críticas - desde logo aos processos eleitorais, como tivemos por exemplo na Roménia. Temos as plataformas digitais norte-americanas que influenciam de sobremaneira eleições. Veja-se porque vai Elon Musk às eleições na Hungria antes de Orbán perder? Do outro lado, temos a China muito desenvolvida em termos tecnológicos com os TikToks que propagam este tipo de informação. Em Portugal, vejo sinais preocupantes, se olharmos para um estudo da Universidade da Beira Interior nas últimas Presidenciais relata-se o perigo de desinformação e 81% desta associada ao Chega. A guerra faz-se no plano digital. No SAFE, Portugal não pode estar tão silencioso. Portugal vai beneficiar de 5,8 mil milhões de euros deste programa. Já questionei o comissário, já questionei o Governo, não temos a noção exata onde é que vão ser gastos estes 5,8 mil milhões. É um momento importante para que este dinheiro possa ser absorvido pela nossa indústria. Por exemplo, a Alemanha está a fazer uma reconversão da indústria automóvel na Defesa. É importante que Portugal aposte na inovação e o fim da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) por parte deste Governo é um erro estratégico. Não temos uma visão que possa ser escrutinada pelo Parlamento e pelas instâncias europeias.Vê a Europa a recuperar o serviço militar obrigatório?Fui defensora e coautora do fim do serviço militar obrigatório em Portugal e continuo a achar que não é necessário. Mas não podemos ignorar que há hoje um conjunto de ameaças externas à UE que precisam de autonomia estratégica. O investimento na tecnologia cria emprego qualificado com melhores salários. Devemos caminhar para a maior integração política que signifique o federalismo.A Europa tem de condenar os Estados Unidos da América?Não estamos contra alguém, mas não podemos ser neutros. Gostaria que a Europa se afirmasse. Não sei se a eleição de Trump traz os Estados Unidos, circunstancialmente, até ao final do seu mandato, contra o mundo. Sei que Trump mudou completamente as relações políticas internacionais. Tem havido muita apatia da maioria dos países europeus. 68% da matéria da indústria da Defesa na Europa vem dos Estados Unidos, percebe-se o silêncio europeu. É preciso diplomacia, mas tem havido uma maior afirmação da Europa multilateral enquanto os Estados Unidos se tornam protecionistas. Luís Montenegro seguirá avisos de António José Seguro e ser mais vocal na política externa?Não me parece e acho que o esforço do Presidente da República é normal e institucional. Portugal, quando na presidência na UE, conseguiu fazer o Tratado de Lisboa, teve uma presença forte após a covid-19 e não havia um colega de outra bancada que não referisse a importância portuguesa. Talvez por isso António Costa seja o presidente do Conselho Europeu. António Costa tem sido a voz mais forte na defesa desse multilateralismo. Tem um trabalho muito difícil, mas é a pessoa certa para conseguir lidar com 27 estados-membros, na esmagadora maioria não da sua família política. Tem sido fulcral na defesa à Ucrânia. Foi capaz de criticar Israel em Gaza, coisa que Ursula Von der Leyen não conseguiu fazer. É capaz de gerar consensos e dar força à UE. Hoje, sinto que a nossa voz é mais diluída. Como é que Luís Montenegro falta ao Conselho Europeu de março deste ano sobre os apoios à Ucrânia? Faz-me muita impressão que Portugal não tenha condenado o ataque unilateral dos Estados Unidos ao Irão. E eu com isto não estou a defender o Irão. Há uma coordenação necessária entre NATO e UE, mas é importante a demarcação dos EUA. .Além da Defesa, integra a Comissão dos Direitos e Liberdades Cívicas. Está o Parlamento Europeu a seguir a agenda da extrema-direita na imigração?O recuo em matéria de imigração na Europa é uma coisa assustadora. Tal como em Portugal, o Partido Popular Europeu assume a agenda da extrema-direita e por isso uma política mais restritiva da União Europeia, menos humanista. O PPE está a assumir com a extrema-direita que os grandes inimigos das democracias são os imigrantes. E fico preocupada quando vemos em Portugal o Governo muito satisfeito porque está a construir contentores para os centros de instalação temporária e por reenviar pessoas para outros países. Esta lei de retorno envergonha os fundamentos da Europa.Era secretária-geral adjunta e ministra dos Assuntos Parlamentares. O PSD critica o perfil do imigrante em Portugal.Quando deixámos o governo, cerca de 34% da imigração era altamente qualificada. Em 2017 e 2019, facilitámos esse mecanismo porque já havia muita gente a trabalhar em Portugal e ao final de 12 meses de descontos podiam requerer o título de autorização de residência. Estava a ser criado mercado de trabalho. E se olharmos para os números da Segurança Social, percebe-se que a esmagadora maioria contribui decisivamente para o saldo.A extinção do Serviço Estrangeiros e Fronteiras [SEF] feriu eleitoralmente o PS?O PSD não hesitou em ir atrás da agenda mais perigosa do Chega e de perceções. Há uma pasta de transição que o ministro [da Presidência] Leitão Amaro tem, que diz tudo o que estava previsto fazer com a criação da AIMA. Foi horrível a morte do cidadão ucraniano nas instalações do SEF, na altura tive a oportunidade de criticar os meses que levaram à saída da diretora. Em 2019, colocámos no nosso programa eleitoral que era preciso distinguir as funções administrativas das funções policiais na política de imigração. A polícia fazia a segurança das fronteiras e a perceção de que a imigração estava descontrolada é falsa. E o atual ministro da Administração Interna [Luís Neves, antigo líderda PJ] está aí para o provar. Qual era a ideia da AIMA? Não se pode ter a matéria da segurança associada à imigração porque isso cria sobre o imigrante a ideia de que é um criminoso. Juntei tudo na AIMA, porque a integração é como se fosse uma escada. Havia fragilidades, havia menos gente do que era suposto. Herdei 370 funcionários. Estava previsto na pasta de transição ter mais 125. Perante o anúncio da reestruturação, porque a covid não permitiu, houve um arrastar de processos. Passaram a existir 350 mil pendências que deixámos na pasta de transição. A ideia de que as fronteiras não estavam seguras é falsa, porque as competências estavam separadas e as forças de segurança faziam a monitorização. Criámos a AIMA a 29 de outubro de 2023 e a 7 de novembro de 2023 o Governo caiu. Um responsável político não pode tomar decisões com o Governo em gestão. O PSD era humanista, um pouco mais restritivo, mas nunca teve este radicalismo. Tenho estado silenciada perante as inverdades que são ditas pelo ministro Leitão Amaro, porque gerou na sociedade portuguesa um medo sobre o outro e uma falsa perceção de que as fronteiras não estavam seguras nem havia políticas de acolhimento e de integração em Portugal. A política de imigração era partilhada por vários ministérios e faltou fiscalização das câmaras municipais às habitações e agilização dos consulados nos vistos.O Governo tem insistido no discurso da regulação da imigração. Faltam outras bandeiras?Acho que está vazio de propostas, tal como outros governos europeus. A narrativa da direita é a de que todos os problemas se devem à imigração. O Governo considerou parco o crescimento económico de 3,1% [do PS], mas agora festeja os 2%. O Governo tem escondido da Europa que a despesa líquida primária aumentou significativamente em Portugal. Está descontrolada e pode levar-nos a um procedimento de défice excessivo. Na Saúde, criámos a Direção Executiva para o SNS, porque tínhamos consciência de que não bastava pôr mais dinheiro. Dois anos depois o que tem o Governo para apresentar? Um aumento das listas de espera, uma diminuição significativa das cirurgias oncológicas, uma loucura nas administrações de hospitais. Por fim, a Educação. Há um desmantelamento que começou na FCT e não se vê rejuvenescimento nas escolas, nem se resolveu o problema da falta de professores em várias disciplinas. Junta-se a isto a fiabilidade da correção dos exames, que está comprometida.Dado o insucesso na reforma laboral, Maria do Rosário Palma Ramalho deveria ter saído?Não peço demissões, mas no meu caso acho que o teria feito. São onze meses de negociação, não consegue aprovar na Concertação Social, chumba-se no Parlamento e mesmo assim não se retiram consequências políticas. No mínimo, é estranho.O PS fez bem em viabilizar a Prestação Social Única?Acho mal que a escolha recaia sistematicamente pelo Chega, porque acho que é um partido antidemocrático e acho que as suas propostas são propostas penalizadoras para o cidadão. O ministro dos Assuntos Parlamentares tem de falar com todos os grupos. Viu-se que na PSU o PS foi determinante para que não fosse uma medida completamente contra quem está mais vulnerável.Luís Montenegro foi líder parlamentar quando Pedro Passos Coelho governava o país. Conhece-o bem. Acha que há uma sombra de Passos Coelho?Acho muito estranho este arrufo, mas Portugal não tem saudades de Passos Coelho.Luís Montenegro cumprirá a Legislatura até 2029?Está eleito. Em circunstâncias normais, sim.É eurodeputada. É conciliável exercer essa função e ser porta-voz como Sebastião Bugalho?Há quem consiga ser super-herói. Cada um deve avaliar a capacidade para desempenhar os cargos. A função de porta-voz de um grande partido requer tempo. Desejo boa sorte a Sebastião Bugalho, que é meu colega no Parlamento Europeu. É difícil conciliar, mas não é impossível..Direcionando a conversa para o PS, em 2024, nas listas às Europeias, foi Marta Temido como número 1 e a Ana Catarina Mendes como número 3. Ficou magoada? Tinha sido secretária-geral adjunta do PS.A decisão foi do Secretário-Geral do PS [Pedro Nuno Santos na altura]. Não há mágoas. Estou a fazer um trabalho desafiante, como vice-presidente do grupo político onde estou, dos Socialistas e Democratas, e tenho uma palavra a dizer nos acordos políticos que fazemos no Parlamento Europeu. Marta Temido foi uma ótima cabeça de lista e o PS ganhou as Europeias.Já passou a altura de ser candidata a secretária-geral do PS?Nunca devemos fechar as portas, mas é preciso desempenharmos o cargo que for mais útil para o nosso partido, do Governo, ao Parlamento Europeu. Quando fui para a Juventude Socialista não fui com a intenção de algum dia ser ministra. Nunca me deixei abalar pelas minhas derrotas ou inebriar pelos cargos que tive. A minha angústia é ver ataques à democracia e ver um Governo que aceita violar a Constituição por negociações com o Chega. Os socialistas, mais do que combaterem para liderarem o PS, devem combater pela democracia. Avaliarei as condições dos cargos onde entendam que posso ser útil. Quero ajudar o PS a vencer eleições. Nesta fase, a questão de liderar o PS não se coloca.É ingrato ser secretário-geral do PS nesta fase?É sempre preferível ser secretário-geral quando se está no poder. Temos o secretário-geral eleito, as federações e as concelhias eleitas. Temos o partido organizado. É preciso preparar 2029, uma agenda propositiva, iniciativa na Educação, na Habitação. É preciso relembrar que o Governo de António Costa não saiu por causa das suas políticas. Saiu porque houve um golpe de Estado que nunca ninguém quis explorar.O próprio PS não o explora...Sim, que o PS não quis explorar também. Houve um parágrafo e dois anos depois não há pessoas que tenham sido ouvidas, não há arguidos e a Justiça prestou um mau serviço.José Luís Carneiro tem de falar do legado de António Costa?Acho que sim. Coloco isso nestas condições para reconquistar o país. Vai falando a espaços e está a construir o seu modo de fazer a política. Olhar para 2029 é ver as Autárquicas também. Em 2017 teve a maior vitória, em 2021 o PS volta a ganhar e em 2025, apesar de algumas perdas, continua a ter peso em todo o território.É cedo falar em coligações?A nossa democracia ganhou muito quando os partidos à esquerda do PS firmaram e cumpriram o acordo com o PS. Mas a geringonça, daquela forma, é irrepetível. Mais do que falar em coligações, o PS tem de estar organizado, ter propostas e procurar restabelecer a confiança.Carneiro tem legitimidade para ir a eleições?Ganhou o Congresso Nacional, é secretário-geral. Haverá um Congresso em 2028, mas diria que José Luís Carneiro está a preparar o trabalho para 2029. Tem estado disponível para ouvir as pessoas.Que imagem como ministro guarda de José Luís Carneiro?Fez um bom trabalho com as forças de segurança.Foi sua vontade sair do Secretariado Nacional?Foi uma decisão minha, não sei estar nas coisas a meio tempo. Estarei na Comissão Política. Vou dar a minha opinião, trarei a voz da Europa e relembrar a importância dos socialistas na construção do projeto europeu..Ana Catarina Mendes, Francisco Assis e Sérgio Sousa Pinto têm última reunião do Secretariado Nacional do PS.Liderança “sensata” de Carneiro permite trégua ao cargo de secretário-geral.José Luís Carneiro ao DN: ”Sinto o PS unido num caminho muito difícil”.José Luís Carneiro faz meio ano de liderança do PS e vê pacificação interna.Aprovação em Bruxelas do programa SAFE, para Portugal, com incertezas para as Indústrias de Defesa Nacional.SAFE. Portugal apresenta 15 projetos ao programa europeu de empréstimos para a defesa