"Ensino técnico não é segunda via. É essencial à reconversão profissional"

Professor defende a avaliação "de instituições, profissionais e alunos" e critica "transferência de tarefas burocrático-administrativas" para escolas e municípios sem efetiva partilha de poder para decidir. Repensar a educação é prioritário: "A última vez que o fizemos de forma estrutural foi há 40 anos", vinca o vereador da Educação.

Professor, pedagogo e vereador da Educação em Oeiras, Pedro Patacho apresentou na última semana o livro Pensar a Educação: Escola, Justiça Social e Participação, contando com a presença de três antigos ministros da pasta, os socialistas Marçal Grilo (que apresentou o livro) e Maria de Lurdes Rodrigues e o social-democrata Nuno Crato. No livro faz um diagnóstico da educação em Portugal e traça caminhos para melhorar e atualizar uma área essencial ao desenvolvimento do país e à justiça social.

Conseguiu juntar na apresentação do seu livro alguns dos mais considerados nomes da educação e de áreas políticas bem diversas. Porque acha que a sua visão alcançou essa unanimidade?
É verdade, mas não serão exatamente as propostas específicas que avanço neste livro que alcançam unanimidade. O que penso reunir consenso são duas ideias centrais. A primeira é que a educação escolar é um bem público, um projeto político através do qual procuramos construir um modelo de sociedade e de pessoa educada, e, portanto, um projeto coletivo em que todos temos o dever de participar e para o qual é necessário construir compromissos. A segunda é que nesta nova economia complexa e assente nas tecnologias de informação e comunicação uma educação escolar de qualidade para todos é hoje mais importante do que nunca. Trinta anos depois da reforma educativa que dominou o final dos anos 80 do século passado, devemos interrogar-nos seriamente sobre a educação escolar de que precisamos para garantir o desenvolvimento que queremos. E isto atendendo à enorme diversidade social e cultural que hoje está dentro das escolas, através dos alunos, não podendo o país permitir que nenhuma criança e nenhum jovem fique para trás, especialmente os mais desprotegidos.

A educação que temos tido nas últimas décadas é uma das razões para a fraca participação cívica e política das novas gerações?
Não é possível estabelecer essa correlação direta. Mas é evidente que se a educação escolar for predominantemente transmissiva, sem oportunidades reais de participação deliberativa acerca do próprio quotidiano escolar e sem uma exigência concreta de intervenção autónoma, quer no contexto escolar quer na comunidade envolvente, os jovens tendem a concentrar-se nos seus interesses e objetivos individuais, o que os afasta de preocupações com o bem comum, com a intervenção cívica e a participação deliberativa assente em compromissos. Eu falo com muitos jovens e tenho-me apercebido de que eles não estão tão desatentos ou alheados da política como frequentemente se diz. Do que não gostam é da paisagem política partidária que os cerca e não encontram, para além disso, oportunidades concretas para ser politicamente ativos.

De que forma é que isso impacta na capacidade de desenvolvimento e progressão social?
Não creio que possa haver desenvolvimento e progresso social que sirvam a democracia se não forem assentes nos valores da justiça social, ou seja, no reconhecimento cultural de toda a diversidade e na distribuição de recursos a todos os que precisam, por forma que ninguém fique excluído do direito à participação plena em todas as dimensões da vida em sociedade. Precisamos de prestar muita atenção às ferramentas intelectuais, aos valores e atitudes com que estamos a equipar os nossos alunos, se é que queremos preservar a democracia, combater a exclusão e reforçar a solidariedade e a justiça social.

Faz sentido ter medidas como os livros gratuitos para todos ou era preferível focar a resposta social naqueles que têm menos meios?
Desaparecida a rua, enfraquecidos os laços de vizinhança e com uma regulação cada vez maior das vidas das crianças e jovens, a escola é o último grande espaço público de encontro da diversidade social e cultural, onde todos, mais ou menos frágeis economicamente, se juntam para aprender a trabalhar juntos, a respeitar-se, a serem solidários, a partilhar projetos, visões e ambições. Este é o grande projeto político da escola pública. Pensando desta forma, este grande projeto de educação pública da cidadania democrática deve ser gratuito e proporcionar aos alunos e às famílias todos os meios, recursos e condições adequados e necessários ao desenvolvimento deste projeto.

Vimos nesta pandemia as falhas ao nível de equipamento e acesso a computadores. Devia haver investimento a esse nível e uma maior integração de programas educativos com os suportes virtuais, sites, etc.?
Já devia ter havido há muito tempo, há pelo menos 20 anos. Na viragem do século já era bastante evidente a forma como as tecnologias de informação e comunicação estavam a transformar as relações de produção e o mundo do trabalho, as relações de poder nas estruturas sociais e entre os Estados, bem como as relações de experiência das pessoas, inclusivamente com a informação e o conhecimento. Não é possível hoje manter contextos educativos sem mediação tecnológica. A tecnologia está cá e veio para ficar. Mas também não é a solução. Uma escola com problemas sérios de funcionamento e professores com práticas inadequadas não muda porque despejam equipamentos tecnológicos e recursos digitais na escola. Como qualquer recurso, é preciso saber por que razão está lá, para fazer o quê, com quem e porquê.

A verdadeira descentralização da educação ajudaria, faria sentido?
Faz todo o sentido. Mas não esta, como está a ser feita. Coloca bem a questão quando usa o termo "verdadeira", porque aquilo que está a ser feito em Portugal é a transferência para as escolas e para os municípios de uma série de tarefas burocrático-administrativas que obviamente são um estorvo para a administração central, mas sem uma efetiva partilha de poder para decidir localmente sobre vários assuntos relevantes para a organização do quotidiano escolar. Descentralizar implica duas coisas: poder para decidir e recursos. Estou absolutamente convencido de que o caminho para acelerar a metamorfose da experiência escolar é o aprofundamento da autonomia das escolas. Mas, sendo um caminho liderado pelas escolas e pelos professores, é necessário que o reforço da autonomia seja acompanhado de grandes mudanças na formação inicial e contínua de professores. O país tem de ter uma estratégia de longo prazo para a formação e valorização profissional dos professores.

Tem havido nos anos mais recentes uma tentativa de reescrever programas no sentido de encaixar uma visão politicamente correta dos acontecimentos - nomeadamente com os Descobrimentos. Isto faz sentido?
É um absurdo. A História é o que é, assente em fontes rigorosamente analisadas. É uma idiotice domesticar análises e visões para se encaixarem no politicamente correto. O que me parece essencial, isso sim, é adotar a perspetiva teórica e prática da justiça curricular, segundo a qual os alunos têm o direito a ter acesso a diferentes representações e perspetivas dos mesmos acontecimentos para formarem um juízo criticamente fundamentado. Esta perspetiva educativa de análise comparada das visões do colonizador e do colonizado, por exemplo, sempre assente nas fontes, naturalmente, parece-me muito mais interessante e coerente com os valores democráticos.

A educação hoje não é muito diferente da de há 40 anos... É preciso uma grande reforma?
Uma ótima questão. Acerta no ponto. A última vez que pensámos a educação em Portugal de forma estrutural foi, como disse no início, no final da década de 80 do século passado. Nessa altura, tínhamos dois canais de televisão, não havia telemóveis nem internet, a vida das pessoas era completamente diferente, as escolas ainda eram um centro de acesso ao saber importante nas comunidades, mesmo nas urbanas, nada estava facilmente acessível, vivia-se a outro ritmo. Nos últimos 30 anos mudámos. O país mudou. E ainda bem! Estamos melhor, muito melhor. Está na hora de voltarmos a pensar a educação escolar de forma estrutural, para enfrentarmos com confiança, segurança e estabilidade os desafios de hoje.

Hoje os miúdos conseguem ir buscar qualquer informação com grande facilidade, graças à internet. Mas isso também traz problemas se não houver enquadramento capaz de os ajudar a entender o que estão a ler. Há erros e mentiras tão acessíveis quanto a informação real. Como é que se pode aproveitar as vantagens correndo o menor risco possível?
Claro que há riscos, daí a importância da mediação tecnológica e da literacia digital. O problema é quando deixamos estas questões completamente fora da escola - ao critério das famílias, com competências muitos desiguais, como sabemos - e ao critério dos alunos. Aí, sim, corremos o risco de perder completamente o controlo dos acontecimentos. A única maneira de resolver esse problema é aceitar naturalmente a internet e as tecnologias de informação e comunicação como recursos imprescindíveis e trabalhar com elas tal e qual como trabalhamos com livros, materiais manipuláveis e outros. Só assim podemos educar para a utilização responsável.

A avaliação é um fator-chave? É fundamental avaliar quer alunos quer professores?
A educação escolar é um bem público. Consequentemente, autoridades políticas e escolares estão obrigadas a prestar contas sobre o trabalho que realizam e os respetivos resultados. E os profissionais, todos, devem ter a oportunidade de ver o meu mérito reconhecido. Portanto a avaliação é essencial: das instituições, dos profissionais e dos alunos.

Fazia sentido reinvestir nos cursos técnicos - não apenas no básico e secundário, mas até para
formação ao longo da vida?

Creio ser necessária uma valorização do ensino profissional com equivalência ao 12.º ano. É um ensino importantíssimo e de grande qualidade. Além disso, tem um potencial enorme de ligação da educação escolar ao território, às empresas, à economia real. Não é uma segunda via para alunos que têm dificuldades no ensino regular. Além disso, com a transformação acelerada dos contextos de trabalho, é já hoje evidente que uma grande quantidade de trabalhadores se tornará obsoleta e dispensável a não ser que consigamos operar com sucesso a sua reconversão profissional, adequada às necessidades da nova economia. E isso só é possível fazer com a formação técnica e profissional ao longo da vida.

joana.petiz@dn.pt

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