Inês de Medeiros: "Se o PRR resultar, em dez anos acaba o drama da habitação em Almada"

Presidente da Câmara de Almada e recandidata pelo PS diz que a sua adversária da CDU tem feito uma campanha feia e de boatos. Garante que deu visão estratégica ao concelho e aposta em projetos estruturantes, como o Innovation District, com a Universidade Nova de Lisboa.

Há quatro anos ganhou inesperadamente a Câmara de Almada à CDU. Foi difícil a adaptação ao mandato?

Há quatro anos, quando foi altura das eleições, sabíamos que algo ia acontecer, sentimos durante a campanha que havia uma grande vontade de mudança e, portanto, não foi uma coisa totalmente inesperada. Não sabíamos era a dimensão, podia ser só a perda de maioria absoluta, mas sentíamos que íamos ficar muito próximos. Afinal, ficámos um bocadinho acima. É evidente que o início foi difícil, não houve passagem de poder e de pastas, houve uma atitude muito hostil desde o início e que se prolongou durante o mandato. Já tínhamos feito o diagnóstico, o nosso programa já tinha sido trabalhado há mais de um ano e tínhamos um conhecimento profundo das questões de Almada, mas depois era preciso fazer um diagnóstico interno e isso era uma caixinha de surpresas. Uma câmara que nunca tinha mudado de gestão cria naturalmente vícios, manias, algum esgotamento, perda de sentido de urgência, e era importante dar uma volta e reorganizar. Felizmente no segundo ano já foi possível lançar a grande maioria dos projetos e depois em 2020 tivemos o que todos sabemos. Mas estou muito feliz porque acabámos os quatro anos com muita obra feita e lançada.

Que projetos destacaria destes quatro anos de mandato?

Há alguns que são estruturantes, como o do Innovation District, que é provavelmente daqueles maiores projetos da Área Metropolitana de Lisboa e até a nível nacional, como diz o reitor e vice-reitor da Universidade Nova, é a nossa Silicon Valley. Isto é uma colaboração da câmara com a Universidade Nova e com promotores privados e a primeira novidade deste projeto é que não vão ser necessários 20 ou 30 anos para vermos a primeira obra. Há projetos que já estão a decorrer, a construção de 200 camas para residências de estudantes da UNL, também ao nível dos equipamentos desportivos naqueles terrenos, já estamos na fase final da aprovação para a reabilitação do antigo Asilo 28 de Maio Lazareto, vamos ter projetos de agricultura biológica e hotelaria, que também já estão em curso. Outro que também já está a avançar, e cujas obras municipais já estão no terreno, é a criação do Instituto de Arte e Tecnologia na Trafaria, também pela Universidade Nova, que traz para o município de Almada uma oferta educativa como há muito pouca em toda a Europa. Os concursos de arquitetura também já foram concluídos por parte da UNL e nós agora vamos lançar o nosso para reabilitação do edifício das antigas celas.

E ao nível da habitação, o que foi feito?

Almada não tinha praticamente serviço nenhum de habitação, isto era um caos, não tinha um regulamento de atribuição de fogos, o que é inconcebível. Ainda há pouco tempo detetámos que em 2 mil fogos havia 700 com o mesmo número de contribuinte, nem sequer sabíamos a quem estavam atribuídos. Fomos o primeiro município do país a acabar a nossa estratégia local de habitação, de tal maneira que agora, com o PRR, já aprovámos a segunda versão. Identificámos 25 operações para reabilitação e construção de fogos, assinámos com o IHRU um protocolo para construção de 3500 fogos no Monte da Caparica em renda acessível, muito para classe média e jovens, estudantes, mas também é fundamental ter uma parte de renda apoiada. E temos mais 25 operações previstas para serem transformadas em candidaturas PRR, sendo que neste momento já concluímos praticamente 30% das candidaturas.

"Já tive a garantia de António Costa da extensão do metro até à Costa de Caparica. Confesso que ainda não tive a da nova ponte [sobre o Tejo] ou túnel (...), mas acho que vai ser uma inevitabilidade."

Já apresentámos as primeiras, para a construção de uma centena de fogos, vamos lançar outra que são mais 150 fogos, tudo no âmbito do PRR, e estamos a pensar na construção de mais 1500 fogos. E com isso, e se o PRR funcionar, no prazo de dez anos acabamos com o drama da habitação em Almada. Entretanto, há a reabilitação dos edifícios municipais e da habitação municipal. Conseguimos ir fazendo a reabilitação urbana, as redes viárias, desde o Parque Atlântico na Costa de Caparica, que restava do projeto Polis e foi um falhanço, criámos um parque à frente das praias, e depois outros mais estruturantes como a reabilitação da 377 na Charneca, a criação de passeios na Sobreda. E está pronta para arrancar - e só não arrancou já porque é época balnear - a Estrada Florestal, de acesso às praias a partir da Costa de Caparica, além do eixo estratégico da Avenida do Mar. Depois há outras obrazinhas que eram fundamentais, por exemplo as obras no Paço do Concelho. Havia e há imenso trabalho para fazer, mas tentámos não nos concentrar apenas num ou dois mas ir equilibrando entre os grandes projetos e os mais pequenos. Estamos na Casa da Cerca, por exemplo, e os nossos equipamentos municipais estão uma vergonha, quase nenhum tinha as acessibilidades garantidas.

Funcionou bem a coligação com o PSD? Agora os vereadores do partido estão a reivindicar parte da obras de que falou...

Estamos em campanha eleitoral, cada um tenta puxar a brasa à sua sardinha. Eu acho que correu bem, não foi uma coligação de papel passado, mas houve um trabalho de colaboração. Houve um esforço grande apesar das diferenças, e há diferenças, porque havia urgência em Almada numa série de matérias e o presidente da câmara é um bocadinho como um maestro.

Está apelar à profissão do seu pai...

É isso, se me permitem, recorro ao que conheço. O importante é que a orquestra, mesmo de câmara, ande minimamente afinada e que o trabalho saia bem feito. Foi um trabalho conjunto.

Apesar desse rol de obras, as sondagens colocam-na muito próxima da sua adversária da CDU, Maria das Dores Meira. Os almadenses não estão a reconhecer o seu trabalho?

Não devemos estar aqui a comentar as sondagens - são o que são. Mas há dados nessa sondagem que são importantes, por exemplo o grau de satisfação das pessoas com a ação da câmara é que acho que é importante, com quase 64% de opinião positiva - é muito reconfortante. E depois numa área muito especial, de combate à covid, pensar que à nossa frente só está o Porto ao nível do reconhecimento do que foi feito é muito reconfortante. Daqui até à votação final, até 26 de setembro há muito caminho para fazer.

No anúncio da sua candidatura disse que este seria um combate entre quem age e quem apregoa. Quem apregoa é Maria das Dores Meira, que tem como montra o seu trabalho enquanto autarca de Setúbal?

A candidata da CDU tem optado por uma campanha que não me agrada, que é de ataque pessoal, de insulto, e não farei o mesmo. Já sabemos da obra em Setúbal e da vontade que ela tinha de lá ficar. É evidente que a CDU tem um grande passado em Almada e tem obra feita, agora numa altura particularmente difícil dos anos 1980 e 1990, com o fim da Lisnave e da indústria pesada - e honra seja feita à antiga presidente, Maria Emília Neto Sousa -, também é verdade que nos últimos 20 anos, e não apenas nos últimos quatro ou oito, houve perda de energia, de sentido de emergência, de fazer e de concretizar. O que acho importante é o projeto que se tem para Almada. O que tenho visto são anúncios de projetos ou que já estão a decorrer ou que já foram feitos. Confesso que esperava por parte de uma força política que deveria ter um conhecimento profundo mais credibilidade nas propostas.

O PDM recém-aprovado prevê a requalificação da frente marítima. Em que consistirá?

Também já está em curso. Em colaboração com a Faculdade de Ciências e Tecnologia e a Agência Portuguesa do Ambiente, já estão a ser feitas as bases ecológicas para um plano integrado de requalificação, que passará pelo Plano da Orla Costeira. Em relação aqui a Almada há muito disparate nesse plano, quem o fez não tinha conhecimento, olhou de mais para o Google Maps e de menos para a realidade do território. Logo no início do mandato alertámos para uma série de problemas e é reconfortante ter havido um anúncio por parte do ministro do Ambiente e a abertura por parte da Agência Portuguesa do Ambiente para voltarmos a olhar para esses instrumentos. E ficámos muito contentes com a criação de um plano integrado de requalificação. Vai ter de ter em conta as alterações climáticas e a subida do mar. Vamos ter de arranjar soluções no que respeita à população da Fonte da Telha, onde temos uma comunidade piscatória que tem direitos naquele espaço - e os planos que estavam feitos não tinham em conta essa realidade. Depois há toda a requalificação das nossas praias, que são de excelência e que devem ter em conta todo o nosso programa, que é atingir as metas da Agenda 2030 da ONU para território sustentável e resiliente. É um documento muito bem feito porque inclui não apenas medidas ambientais mas também ao nível do emprego, da habitação, da cultura, da economia, da mobilidade.

Já teve alguma garantia de António Costa de que será construída uma nova ponte sobre o Tejo?

Já tive a garantia de António Costa da extensão do metro até à Costa de Caparica. Confesso que ainda não tive a garantia da nova ponte ou túnel, isso aí os engenheiros que decidam. Nós já estivemos em conversações com a Câmara de Oeiras e até com a de Lisboa e acho que vai ser uma inevitabilidade. O desenvolvimento desta margem, de Almada em particular, vai exigir uma nova travessia. A nossa ponte sobre o Tejo está no seu limite, e a Vasco da Gama foi fundamental mas não é uma alternativa. O desenvolvimento de Almada vai exigir mais equipamentos de saúde, mais equipamentos de educação.

"A candidata da CDU tem optado por uma campanha que não me agrada, que é de ataque pessoal, de insulto, e não farei o mesmo."

Em que consiste o plano de reconfiguração da rede de transportes? A sua principal adversária diz que se apostou apenas num reforço em carreiras.

Almada foi dos poucos municípios que encomendaram um plano próprio a uma empresa com mérito mais do que reconhecido e fizemos uma proposta muito clara e muito ambiciosa, além daquilo que foi apresentado pela Área Metropolitana de Lisboa. A nova rede significa um reforço de 34 novas carreiras, 22 das quais para Almada, já que havia aqui um grande problema de mobilidade dentro do concelho, ou seja tínhamos freguesias como a Charneca e a Sobreda que não tinham oferta de transportes públicos e 12 ou 14 novas linhas intermunicipais. E depois há a questão essencial das frequências, porque havia carreiras uma de manhã e outra à noite, o que era uma resposta muito limitada. A ideia da rede de transportes foi criar circuitos centrais e depois pequenos circuitos dentro das localidades que possam criar interfaces e acompanhar no PDM a criação de duas novas centralidades: uma é a Charneca/Sobreda, que é a maior união de freguesias, e a outra a do Monte da Caparica, onde tudo se vai expandir.

A sua política cultural foi alvo de críticas, nomeadamente a Casa da Dança. Qual é a aposta para um próximo mandato?

Isso também tem tudo que ver com o combate político. Quando chegámos tínhamos um evento maior, que se mantém, e o apoio reforçado foi contratado por três anos - que é o Festival Internacional de Teatro. E depois tínhamos o Sol da Caparica, onde a câmara gastava quase 2 milhões de euros. Fomos muito claros, o Sol da Caparica deve ser produzido por um operador privado, que o faz muito bem, e a câmara dá um apoio de 75 mil euros, mais o apoio logístico. E vamos investir naquilo que foi o nosso compromisso, que é fazer de Almada um centro de artes performativas. Foi possível lançar o projeto da Casa da Dança, que também tem que ver com a reabilitação do Ginjal, com a construção de novos equipamentos. O Festival dos Capuchos renasceu ao fim de 20 anos e duplicámos na Casa da Cerca e em outros equipamentos culturais o número de exposições e de visitantes. Estamos a reabilitar o Parque Arqueológico do Almaraz, com projetos estruturantes - aquilo é uma preciosidade nacional, da maior riqueza de uma herança fenícia e que pode ser um ponto de atração turística. Fomos nós os primeiros a tornar públicos os critérios pelos quais os projetos eram avaliados.

A candidata da CDU acusou-a de não estar presente na autarquia quanto desejável, seja junto dos trabalhadores da câmara seja junto da população...

Os autarcas sem exceção, até depois destes dois anos que vivemos, estão todos de parabéns, trabalhámos loucamente. Isso é boato, é uma coisa tão feia que se tenta fazer passar que não merece resposta. A essa pergunta só quero agradecer a todos os trabalhadores da câmara, todos sem exceção, o imenso esforço desafiante destes dois últimos anos.

paulasa@dn.pt

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