À beira da extinção? Ainda não. Mas os coalas enfrentam ameaças

Os violentos incêndios das últimas semanas na Austrália puseram o mundo a falar dos coalas e das ameaças ao futuro da icónica espécie.

No meio do inferno do fogo, uma mulher corre para um coala à mercê das chamas, embrulha-o na sua própria camisa e corre, levando a delicada carga nos braços. Depois, já a salvo das árvores em labaredas e do chão que arde, Toni Doherty, assim se chama a australiana, tenta o melhor que pode: dar água a beber ao animal, que está em visível sofrimento, em gritos lastimosos, e refrescar-lhe o corpo queimado. No seu dramatismo, símbolo perfeito dos devastadores incêndios que têm assolado enormes regiões da Austrália nas últimas semanas, o vídeo correu mundo. Talvez mais do que quaisquer outras imagens, informações, dados ou declarações, foram aqueles 53 segundos dramáticos que comoveram o mundo e puseram toda a gente a falar da tragédia dos fogos - e dos coalas.

Lewis, assim chamaram ao animal, acabou por não se salvar, de tão queimado que estava, mas o seu fim triste foi como que um toque a rebate, a lembrar os riscos que pendem sobre as populações da espécie, que há já três gerações está em declínio, e ameaçada em várias frentes.

No rescaldo dos incêndios que destruíram mais de um milhão de hectares de floresta, matos e terrenos avulsos, levando consigo também mais de 600 habitações e fazendo seis vítimas mortais na região da Nova Gales do Sul, a Australian Koala Foundation lançou o alerta: as chamas teriam matado mais de mil coalas, devastado a maior parte (cerca de 80%) do seu habitat, e a espécie estaria em extinção funcional. Aquela, porém, não era uma tese nova.

A organização já tinha lançado a mesma ideia em maio deste ano, para exigir ao governo australiano medidas de proteção para os coalas, mas à boleia da emoção provocada pela destruição dos fogos, acabou por correr mundo. As reações de cientistas e especialistas em conservação, contestando aquelas declarações, não tardaram.

Símbolo nacional da Austrália, a espécie enfrenta ameaças, sim - e graves -, mas não está em extinção, garantem os biólogos. Nem mesmo depois dos recentes incêndios que, apesar de brutais em plena primavera, também não devastaram 80% do seu habitat, bem longe disso. Nestes fogos ardeu mais de um milhão de hectares de floresta, mas os coalas distribuem-se por uma vasta zona que abrange mais de cem milhões de hectares.

Perda de habitat, fogos e uma bactéria

Pequeno, lento, com uma alimentação exclusa de folhas de eucalipto, este animal que lembra um urso de peluche e só existe na Austrália tem estatuto de "espécie ameaçada", segundo os critérios da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês), a organização internacional que define, regula e atribui o estatuto de conservação às espécies.

Nas últimas décadas, tal como acontece com muitos outros seres vivos, e praticamente pelos mesmos motivos, os coalas sofreram um declínio acentuado, e as causas disso, como para a generalidade dos outros animais e plantas, são bem conhecidas: perda de habitat devido ao abate de florestas e aos incêndios, alterações climáticas, ataques de cães e atropelamentos nas estradas, e as doenças. Neste caso, uma patologia específica, chamada clamídia, causada por uma bactéria de transmissão sexual nos coalas, que causa cegueira, infertilidade e leva os animais à morte precoce.

É o conjunto de todos estes fatores que ameaça a espécie e, certamente, os incêndios não ajudam, mas os dados avançados pela Australian Koala Foundation, sobre a sua extinção funcional, não estão corretos, garantem os cientistas. Desde logo, o conceito de extinção funcional não é simples. Para a biologia, o que ele significa é que a população total de uma dada espécie chegou a um número de indivíduos tão diminuto - da ordem das poucas centenas ou mesmo das dezenas - que a diversidade genética já não garante a proliferação de crias saudáveis.

Não é este o caso dos coalas - pelo menos ainda, dizem os peritos. Um deles é Stuart Blanch, da WWF Australia, que garante, citado no diário britânico The Guardian, que "ainda existem vastas áreas com extensas populações de coalas [na Austrália]", que são "a esperança" para o futuro. Chris Johnson, professor e investigador na área da conservação da natureza da Universidade da Tasmânia, tem idêntica opinião e acredita que os coalas não estão próximos de se extinguir.

"Eles vão continuar em declínio por uma série de motivos relacionados entre si, mas não estamos num ponto em que um só acontecimento [como os incêndios] possa levá-los à extinção", afirmou à National Geographic.

Não está tudo bem, claro. Longe disso. As estimativas do número de coalas apontam para que existam entre algumas dezenas de milhares e mais de uma centena de milhares nas florestas australianas, mas há pouco mais de século eles eram aos milhões. O declínio é real, e os fogos florestais, que nos secos verões australianos se tornam muitas vezes incontroláveis, não ajudam nada.

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