A decência em tempos de vírus: o outro

Há imigrantes com pedidos pendentes para terem autorização de residência em Portugal. Já nós, mesmo os com dez gerações de portugueses às costas, mesmo os ricos, quanto mais os pobres, vivemos num país hoje mais difícil. Um Portugal que encolheu. O que era um país de lés a lés, para os portuenses não vai além da Circunvalação e para os lisboetas para ainda antes da Ponte 25 de Abril. O que era a cidade confina-se à nossa casa. E lá dentro, na nossa casa, temos medo. Uma tosse é um pavor. Isso, repito, nós, com o direito ao país bebendo em séculos.

Lembram-me, agora, que há imigrantes com pedidos pendentes para terem autorização de residência em Portugal. Dei-me então conta de haver gente ainda com menos sorte do que a que temos hoje. Sei que o tamanho do medo da tosse andará ela por ela, nos cidadãos antigos e nos imigrantes novos. Mas nestes tempos difíceis, além da tosse e de toda a angústia que ela nos causa a todos, os ainda sem autorização de residência têm um pequeno medo suplementar. Pequeno, o tanas, em tempos de pandemia toda a desvantagem atrapalha.

Então, Portugal (uso esta palavra porque é mais apropriada do que Conselho de Ministros) decretou que, por causa do covid-19, os imigrantes com pedidos de autorização de residência pendentes (e os requerentes de asilo também) passam a estar em situação regular. E a ter acesso aos mesmos direitos, incluindo apoios sociais. Não, não abro a porta e vou por aí distribuir abraços, mas sinto-me um bocadinho mais salvo quando a pandemia não nos devorou a decência.

Um homem que me iluminou a vida, somos ambos filhos de uma tragédia anunciada e de um resgate por fazer, Albert Camus, ele pied-noir argelino, eu branco angolano, escreveu A Peste. Ele, que morreu há já 60 anos e escreveu o romance no ano em que nasceu o velho que já sou, ia na página 75 quando descreveu a cidade da peste (Orão, na Argélia), assim: "A peste estava postando sentinelas nas portas e afastando os navios com destino a Orão." Isso quanto ao estado de confinamento. E escreveu também: "O que nós aprendemos em tempo de peste é que há mais coisas a admirar nos homens do que a desprezar." Isso quanto ao estado de gratidão que hoje sentimos por tantos homens e mulheres.

Por estes dias, o romance A Peste é naturalmente muito citado. A edição que tenho quase chega às 300 páginas e quase tudo lá escrito anda à volta daquela palavra: decência. Decência contra pestilência. Esta decisão de Portugal sobre os "imigrantes com pedidos pendentes...", essa decência, se não cura, redime-nos. Lavemos as mãos, organizemos, procuremos a vacina. E, pelo que vejo, não descuidamos a decência. Sinto um aperto na garganta, mas não me preocupo, é bom.

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