"Mussolini era um paradigma para Hitler e Salazar"

O historiador Fernando Rosas vai lançar na próxima semana a investigação Salazar e os Fascismos, na qual enquadra ideologicamente o anterior regime em definitivo. Há surpresas...

Foram o Estado Novo e o seu ideólogo e governante, Salazar, fascistas? É a pergunta a que o historiador Fernando Rosas responde em 305 páginas de uma investigação intitulada Salazar e os Fascismos. Uma classificação ideológica tão apoiada como repudiada pelos portugueses, mesmo que estejam passados 45 anos sobre o fim do salazarismo; que só recentemente começa a ser tema académico não proibido em face da atenção das novas gerações que entram nas universidades. Alertados também pelo ressurgimento de autoritarismos - potencialmente fascistas - que suscitam interesse pelo regime que se impôs em grande parte da nossa história no século XX.

Os leitores podem confiar num historiador bloquista a investigar Salazar e o fascismo?
O historiador não é bloquista e o bloquista não é historiador. Enquanto historiador não faço política, e já o sou há muitos anos. Enquanto cidadão que intervém na política, o meu pensamento pode projetar-se no objeto, mas isso acontece com qualquer historiador. Georges Duby dizia que não há história objetiva e que paire imune acima das paixões. Cada um incorpora as conceções na sociedade em que vive e projeta-as.

Este livro já vem tarde ou era preciso esperar algum tempo sobre o fim do anterior regime?
O fim do anterior regime já leva quase meio século e não há um distanciómetro no fazer história. Com 20 anos pode-se? Com 40 anos pode-se? O historiador está em condições de se debruçar quando o ciclo histórico se esgotou. Quando a Guerra Civil de Espanha acabou, fechou-se um ciclo, e tudo o que se escreva não terá influência sobre o destino do acontecimento. O mesmo se passa com o Estado Novo e Salazar.

O Estado Novo não é ainda muito polémico?
Há e haverá sempre visões diferentes. Sobre o marquês de Pombal continuam a existir as mais diversas opiniões, situação natural mesmo na historiografia académica, pois existem pontos de vista interpretativos da realidade que diferem perante os mesmos factos, seja qual for o rigor histórico. O que não se deve fazer é um uso político da história, e no salazarismo isso existe muito. Porque há uma tradição oposicionista e outra vinda do anterior regime. Uma das razões por que o livro demorou tempo a fazer é a de continuar a existir um debate muito politizado sobre esse passado. O que não é mau, significa que a cidadania se interessa e está atenta. O contrário é que seria mau.

Acusa o debate académico de ser deserto.
Sobre a natureza do regime, o debate é muito pouco e pobre em Portugal. Hoje, está a mudar porque há uma massificação de historiadores que entram neste terreno, o que é bom, pois permite mais debate.

Um dos exemplos que dá é o da polémica quase estéril entre Rui Ramos e Manuel Loff...
Porque o Loff não teve resposta de Ramos, que se sentiu pessoalmente ofendido com as observações críticas que lhe eram feitas. Por isso, rasgou as vestes e retirou-se do debate dizendo que era um ataque pessoal.

Dá uma cadeira sobre os fascismos na Europa. Os alunos não olham para a palavra fascismo como se fosse um disco voador?
É uma cadeira optativa e só a frequenta quem se interessa, o que seleciona à partida os alunos em função do interesse. Tenho tido estudantes para quem o fascismo é um fenómeno de que ouviram falar, mas atualmente não é apenas algo que aconteceu entre as duas guerras mundiais porque o relacionam com Trump, Bolsonaro, a extrema-direita na Europa e o perigo de o fascismo renascer ou não na política atual. O que faz uma ponte entre realidades anteriores e os populismos de extrema-direita em curso.

Vamos à pergunta sacramental: Salazar e o Estado Novo eram fascistas?
Defendo a posição de que o Estado Novo foi a modalidade portuguesa do fascismo. O que quer dizer? É importantes perceber que o fascismo não cai do céu aos trambolhões nem é uma moda política, antes fruto da primeira crise histórica do sistema liberal e uma resposta da sociedade da época. Tal como o comunismo o foi; são as duas novidades do pós-Grande Guerra. O fascismo é um fenómeno complexo porque, enquanto regime, o que a história mostra é que não há nenhum regime tipo fascista que tenha sido alcançado apenas pelos movimentos fascistas plebeus. Nenhum conquistou o poder: os Camisas Negras de Mussolini, os Castanhas de Hitler, os falangistas de Espanha, os Camisas Azuis do Rolão Preto em Portugal.

Como é o processo então?
Foi sempre fruto da união dos movimentos fascistas plebeus com uma parte das direitas que se fascistizaram para conquistar um novo tipo de ditadura e de regime. O equilíbrio dessas duas partes origina vários tipos de regime: com grande predomínio do partido fascista plebeu no caso da Alemanha Nazi, situações em que há um equilíbrio entre o Estado tradicional e o partido fascista, como em Itália, e casos em que o predomínio é do fascismo conservador na situação portuguesa. É uma direita atraída pelo fascismo que integra o movimento fascista plebeu português, em que Salazar opera uma cisão, elimina o nacional-sindicalismo e integra o grosso destes elementos naqueles setores do Estado mais fascistizados.

Voltemos à pergunta: Salazar era fascista?
Salazar é o exemplo típico de um homem da direita conservadora que se aproxima das ideias fascistas pela necessidade de implantar em Portugal uma ditadura de novo tipo, que acabe com a liberdade sindical, com os partidos políticos, o parlamentarismo. Salazar faz sempre parte de uma corrente antiliberal, antidemocrática e antissocialista, que se aliam ao fascismo plebeu para impor um regime novo. Salazar foi variando: homem da direita antiliberal, próximo do integralismo e da direita católica, que no contexto do período entre as duas guerras mundiais se fascistiza. Ou seja, aproxima-se e alia-se a movimentos fascistas para introduzir essa ditadura de um novo tipo no país. A seguir à II Guerra, a situação muda e é discutível que se possa chamar ao Estado Novo um regime de tipo fascista. É preferível chamar-se um fascismo espectral. Um regime que foi fascista mas que no contexto da II Guerra Mundial torna-se autoritário e é obrigado a permitir que a oposição concorra às eleições de quatro em quatro anos, apesar de existir repressão política, proibição de partidos e da liberdade de expressão. Mas até ao fim da guerra é um regime de tipo fascista indiscutivelmente, ainda que hegemonizado por um fascismo conservador que o distingue de formas mais radicais e plebeias de fascismo como havia em Itália e sobretudo na Alemanha.

Dizer que o Estado Novo foi fascista é uma simplificação?
Para a opinião pública democrática portuguesa, o regime foi sempre classificado como uma ditadura fascista, para o historiador o processo tem várias fases: uma dura até ao fim da guerra, a que se sucede um regime autoritário que vai apodrecendo com o tempo. A habilidade que Salazar tem é a de saber durar, adaptar-se ao fim da guerra e beneficiar-se da Guerra Fria para, em nome de ser um regime anticomunista, se manter como ditadura autoritária, com partido único, censura prévia, perseguição de opiniões contrárias. O problema do regime do Estado Novo é que, ao contrário de Espanha, a elite política não consegue fazer uma transição.

Quais são as principais diferenças ibéricas?
Aqui ao lado existe uma classe média mais forte e desenvolvida, com um capitalismo a partir dos anos 1950 mais pujante e que constituiu uma classe média e uma base social capazes para um processo de transição - além de que Espanha não tinha a Guerra Colonial. O marcelismo tenta ser um processo de transição para outra coisa, mas não percebe que a Guerra Colonial se instalou da seguinte maneira: ou o regime encontrava uma solução política para a guerra ou esta acabava com o regime. Isto ou não foi entendido por Marcelo Caetano ou, tendo sido, não quis ou não pôde encontrar uma solução política, e a Guerra Colonial acabou com o regime. Em Portugal, a incapacidade histórica da transição foi perdida em vários momentos: o do fim da II Guerra Mundial, o das eleições de Humberto Delgado em 1958, a oportunidade do golpe de Botelho Moniz em 1961. A elite política portuguesa perdeu todas as oportunidades históricas para a mudança a partir de dentro e, ao não arriscar uma solução política para o conflito colonial, cai por rotura revolucionária. E pela mais improvável das alianças, a do protesto interno, pelo cansaço social e político contra a guerra, com os que a faziam no terreno.

Numa das fotos de propaganda, Salazar está sentado à secretária com a foto de Mussolini ao lado. Salazar inspirava-se no italiano?
Claramente. Aliás, Mussolini inspirou muitos ditadores do período entre as guerras mundiais, não só Salazar. Estamos a falar da segunda metade dos anos 1920 - Mussolini toma o poder em 1922 -, e como é uma ditadura fascista muito precoce, terá uma influência enorme enquanto exemplo para as direitas europeias. Mussolini é o paradigma para o próprio Hitler, que só vai para o poder em 1933, porque tinha rebentado com o movimento operário organizado, inaugurara a resposta à crise económica através de uma ativa intervenção do Estado na economia, preservara o mercado e dirimira conflitos. Também implodira com o empecilho parlamentar e dos partidos. Mussolini era um paradigma para Hitler e para Salazar. Hitler tinha uma enorme admiração por Mussolini, considerava-o o seu mestre, tanto que tenta copiar a marcha sobre Roma. Em Portugal, Mussolini e o fascismo italiano são uma espécie de paradigma a partir do qual se adapta o regime, mesmo que com outras características porque é um fascismo conservador. O estatuto do trabalho, a conceção da legislação corporativa, o regime constitucional em certos aspetos, têm como inspiração em grande parte o fascismo italiano.

Salazar conhecia bem a sua ideologia?
Sim, nomeadamente nas entrevistas com António Ferro cita Mussolini várias vezes e dá a ideia de que conhece os discursos e a obra do italiano. E sabe-se que os intelectuais do fascismo italiano autores da legislação corporativa são homens que estão em estreita ligação com os corporativistas portugueses, com os Marcelos Caetanos e os Mários Figueiredos que produzem o pensamento corporativo.

E o pensamento de Hitler inspira Salazar?
Não, o nazismo tem uma componente pagã que assusta o salazarismo. Mas, até ao início da II Guerra Mundial, e mesmo enquanto a Alemanha está a vencer, até 1942, existe muita proximidade do Estado Novo ao regime nacional-socialista. As juventudes visitam-se, Salazar tem um grande respeito pelo papel internacional da Alemanha nazi e considera-a o fronteiro europeu contra a ameaça eslava do comunismo, e demorou muito tempo a aceitar o embargo do volfrâmio para a Alemanha. Salazar é um homem que admite viver e adaptar-se ao que parece ser a ordem nova que se impõe na Europa. São regimes fascistas de características diferentes, mas não deixam de pertencer à multiplicidade dos regimes fascistas.

E a relação com Franco?
O salazarismo resolve apoiar Franco na Guerra Civil porque considera uma luta de civilização - a cristã contra a barbárie -, mas Salazar tem consciência, até porque está muito bem informado, de que está a atuar sobre o fio da navalha. Afinal, os que está a apoiar são aqueles que estão a fazer propaganda pela anexação de Portugal por Espanha e a negociá-la com a Alemanha.

Salazar e os Fascismos

Fernando Rosas

Tinta da China Edições, 305 páginas

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É procurador no Tribunal de Cascais há 25 anos. Escolheu sempre a área de família e menores. Hoje ainda se choca com o facto de ser uma das áreas da sociedade em que não se investe muito, quer em meios quer em estratégia. Por isso, defende que ainda há situações em que o Estado deveria intervir, outras que deveriam mudar. Tudo pelo superior interesse da criança.