Novo capítulo na guerra da Síria tem tudo para agravar o desastre

Com um milhão de novos refugiados à porta, a Turquia abre as fronteiras da Europa aos migrantes. Na província controlada pelos opositores de Assad aumenta o risco de o conflito descarrilar.

"A Rússia e a Turquia confirmaram a sua determinação em combater o terrorismo na Síria sob todas as formas", afirmou Vladimir Putin. "Vamos prevenir uma tragédia humana que poderia acontecer em resultado da ação militar", disse por sua vez Recep Tayyip Erdogan no final de uma reunião entre os presidentes russo e turco em Sochi, na residência de verão do chefe de Estado russo. Os líderes concordaram em criar um zona desmilitarizada na província de Idlib, controlada pelos jihadistas e apoiada pelo governo turco. Um momento de diálogo e de esperança entre dois atores principais, ainda que a atuar na sombra, da guerra na Síria, mas que aconteceu em setembro de 2018.

Muito mudou desde então, em especial quando em meados de dezembro o exército sírio, com o apoio russo, iniciou a operação militar "Alvorada em Idlib 2".

Nos últimos dias a situação agudizou-se, com o número de refugiados a subir em flecha e o avanço das forças de Damasco, com o apoio aéreo russo e terrestre iraniano. Com a consequente perda de postos de observação em território sírio e o avanço de mais deslocados para o seu país, Erdogan aumentou a parada, ao fazer um ultimato ao regime de Bashar al-Assad: exigiu que as forças do governo sírio se retirassem das áreas que haviam sido designadas como parte de uma zona de diminuição da escalada até ao final de fevereiro. Caso contrário, ameaçou com uma expressiva resposta militar para recuperar os postos de observação.

O quadro já era grave e mais ficou. No que respeita aos refugiados, os números podem chegar aos dois milhões, a somar aos 3,7 milhões que a Turquia já acolhia. Segundo os dados mais recentes das Nações Unidas, há neste momento pelo menos 948 mil novos refugiados desde dezembro, "muitos dos quais forçados a deslocar-se já várias vezes em procura de refúgio", como lembram os Médicos sem Fronteiras, que na sexta-feira pediram às autoridades turcas para facilitarem a passagem dos profissionais da organização para o noroeste da Síria.

Na quinta-feira Erdogan comentou que "os desenvolvimentos em Idlib são agora favoráveis à Turquia", referindo-se ao facto de as forças da oposição ao regime, atualmente sob a bandeira do grupo extremista Tahrir al-Sham, terem recuperado a cidade de Saraqeb. Horas depois, um ataque aéreo atinge uma caravana de reabastecimento. Mata 33 soldados turcos e fere outros 32 - num mês, a Turquia perde 53 militares em território sírio numa guerra não declarada. Em resposta, ataques de drones e de artilharia causaram a morte a 16 soldados sírios.

Com a tensão a atingir máximos, a Turquia anunciou através de um funcionário governamental não identificado a abertura das fronteiras aos migrantes e refugiados. "Vamos deixar de conter quem quiser chegar à Europa", afirmou. A Turquia, que no passado já ameaçara fazê-lo, assinou em 2016 um acordo com Bruxelas para controlar o fluxo migratório. Em troca recebeu três mil milhões de euros da UE e deverá receber mais quatro mil milhões até ao final do ano.

Por outro lado, Ancara pediu à comunidade internacional a criação de uma zona de exclusão aérea com o objetivo de impedir os bombardeamentos da aviação russa e síria. "Milhões de civis são bombardeados há meses. Infraestruturas, como escolas e hospitais, estão na mira do regime de forma sistemática", declarou o diretor de comunicação da presidência turca, Fahretiin Altun.

Noutra frente diplomática, a Turquia invocou o artigo 4.º do Tratado do Atlântico Norte, que prevê a realização de consultas quando um aliado tem motivos para crer que a sua integridade territorial, independência política ou segurança estão ameaçadas. Após a reunião, os membros da NATO expressaram "total solidariedade" com a Turquia e exortaram o regime sírio e a Rússia a pararem os "ataques indiscriminados" em Idlib.

O Departamento de Estado norte-americano disse estar muito preocupado com o ataque reportado aos soldados turcos em Idlib e que apoia a Turquia, aliada da NATO. "Nós continuamos a pedir o fim imediato desta desprezível ofensiva do regime de Assad, da Rússia e das forças apoiadas pelo Irão", disse um representante do Departamento de Estado. Mas como escreveu o correspondente do The Times no Médio Oriente, Erdogan não receberá mais do que palavras de simpatia "depois de anos a alienar de forma agressiva os aliados históricos".

Guterres recusa viagem "contraproducente"

Em Nova Iorque, o Conselho de Segurança da ONU reuniu-se na sexta-feira à noite de emergência, a pedido de sete Estados. Antes, numa iniciativa da Alemanha, nove dos 15 Estados membros do Conselho de Segurança pediram ao secretário-geral da ONU, António Guterres, para que este se deslocasse a Idlib. O objetivo seria o de pressionar as partes envolvidas para o fim das hostilidades e obter garantias no acesso da ajuda humanitária. No entanto, o dirigente português, que expressara "grande preocupação" com a escalada militar no noroeste da Síria, recusou tal proposta, tendo argumentado que uma visita poderia ser "contraproducente" em especial no que respeita às relações com Moscovo, informou a AFP. Horas depois, Guterres anunciou a preparação de uma missão humanitária a Idlib.

O Kremlin, por sua vez, informou que se prepara uma reunião entre Vladimir Putin e Tayyip Erdogan na capital russa na próxima semana. Segundo o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, as datas prováveis para o encontro são quinta ou sexta-feira. Antes, o presidente russo, durante a reunião do Conselho de Segurança da Rússia, convocado para discutir a Síria, disse que as tropas turcas não devem estar posicionadas fora dos seus postos de observação em Idlib, informou o Kremlin.

Já o Ministério da Defesa da Rússia comunicou que as tropas turcas atingidas pelos bombardeamentos não deveriam ter estado naquela área síria e que Ancara não tinha informado Moscovo com antecedência sobre a sua localização. O Ministério disse, no entanto, que os aviões de caça russos não tinham realizado ataques na área onde se encontravam as tropas turcas.

No mesmo dia em que o Kremlin anuncia uma reunião entre os líderes russo e turco, a Rússia aumentou a sua capacidade naval na região. As fragatas Almirante Makarov e Almirante Grigorovich da frota russa do mar Negro passaram o Bósforo a caminho do Mediterrâneo. Uma terceira fragata, Almirante Essen, está no Mediterrâneo desde dezembro de 2019.

Um acordo morto à nascença

É caso para perguntar o que correu mal desde o acordo de setembro de 2018. A província de Idlib, com três milhões de habitantes, é a última que Bashar al-Assad quer recuperar das mãos dos opositores do regime. O referido acordo cancelou os planos de invasão da província, mas em troca ambas as partes tinham de retirar artilharia pesada, reabrir ao trânsito as vias rápidas M4 e M5, e a Turquia, que entrou no conflito em 2016, comprometeu-se a extirpar os grupos islamistas da região.

Como previsto, o exército turco instalou 12 postos de observação ao longo das linhas de demarcação. Mas nada mais do acordado passou da teoria. O grupo extremista Tahrir al-Sham aproveitou o período de trégua (ou quase) para se fortalecer em homens oriundos do chamado Exército Livre da Síria e em armas e equipamento. Além destes combatentes, Idlib foi o refúgio de foragidos do Estado Islâmico oriundos do leste do país, bem como de grupos com ligações à Al-Qaeda. "Neste momento, Idlib é essencialmente a maior coleção do mundo de parceiros da Al-Qaeda", disse em setembro o norte-americano Michael Mulroy, vice-secretário adjunto da Defesa para o Médio Oriente. Dias antes, os EUA lançaram um ataque aéreo a instalações da Al-Qaeda em Idlib.

Para o analista político turco Kerim Has, o acordo Rússia-Turquia "nasceu absolutamente morto, já que as condições nele existentes são irrealizáveis", disse à Voice of America. "A Turquia assumiu uma responsabilidade que não podia ser alcançada, e o tempo acabou de prová-lo", acrescentou. Já o analista Galip Dalay diz no Middle East Eye que a Turquia quer ter um papel no futuro da Síria e minimizar os possíveis ganhos políticos dos curdos, mas "não tem quaisquer boas opções em Idlib".

Moscovo e Ancara têm interesses comuns e as relações tinham melhorado nos últimos anos. O governo turco comprou o sistema de defesa antimíssil S-400 russo, tendo com isso comprado igualmente um conflito com Washington. No que respeita à energia, os russos da Rosatom estão a construir a primeira central de energia nuclear na Turquia e já têm autorização para avançar com a segunda. E em janeiro foi inaugurado o gasoduto Turkstream, que abastece a Turquia e a Europa Central, proveniente da Rússia.

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