Estrada Nacional 2. A viagem que nos mostra Portugal como ninguém

No ano em que faz 75 anos e em que muitos portugueses alteraram os seus planos de férias devido à pandemia de covid-19, a popularidade da mítica Estrada Nacional 2 disparou. Seguimos os seus 739 km, encantados com as delícias transmontanas, as praias beirãs, os oásis alentejanos e a histórias de quem vê na estrada uma oportunidade. No final ficou uma certeza: fazer esta viagem só uma vez é pouco.

A ideia andava há muito na cabeça, mas havia sempre uma desculpa para a não concretizar. Ou as crianças eram muito pequenas, ou o tempo era curto, ou a viagem em promoção era boa de mais para deixar escapar, foram à vontade meia dúzia de justificações que adiaram o plano. No entanto, a pandemia de covid-19 veio mudar tudo. Viajar para o estrangeiro estava fora de hipótese e, além disso, para nós fazia todo o sentido responder ao apelo de realizar férias em Portugal e contribuir, como podíamos, para a economia nacional que tantas dificuldades atravessa neste tempo de incerteza.

Agora era a sério: tinha chegado o momento de fazer a viagem de Chaves até Faro pela mítica Estrada Nacional 2 (EN2), a maior do país (739,26 km), que celebra neste ano o 75.º aniversário e rasga o interior de Portugal passando por 11 distritos, 35 concelhos, 13 rios, 11 serras e uma interminável lista de pequenas surpresas ao longo do caminho.

Sem itinerário traçado nem guia de viagem na mão, somente com algumas reservas de alojamento feitas já em cima da hora, seguimos os quatro (dois adultos e duas crianças, de 11 e 4 anos) num pequeno carro. Com poucas certezas, muito entusiasmo e uma única premissa: começar no Km 0 em Chaves e terminar a aventura em Faro seguindo sempre pela 2.

Partimos num domingo soalheiro, pela manhã, por autoestrada. Chegados a Chaves, uma rápida pesquisa no Google Maps conduziu-nos a uma pequena rotunda encostada ao jardim público da cidade. No centro dela está um marco de pedra em que se lê N2 Km 0, informação quase escondida no meio de dezenas de autocolantes principalmente de grupos motard. É ali, naquele preciso ponto, que nasce a mais famosa estrada de Portugal, um estatuto que foi sendo reforçado à medida que mais e mais pessoas, de diferentes nacionalidades, fazem a viagem e vão partilhando a experiência com amigos e através das redes sociais.

Por estes dias é também um dos lugares mais concorridos de Chaves. Não há propriamente filas, mas neste final de tarde alguns grupos de amigos e famílias esperam a sua vez para tirar uma fotografia junto ao marco.

Francisco Duque, 65 anos, é proprietário de uma pequena papelaria nas imediações. Considera positivo para Chaves ser o ponto de partida para a EN2, mas em relação ao marco do Km 0 diz que falta arrojo às autoridades da cidade. "Tem de vir para ali uma coisa mais bonita. O que ficava bem era um marco luminoso, ou que subisse e descesse, algo mais vistoso."

A Francisco não faltam ideias. Orgulha-se de ter sido o primeiro em Chaves a colocar à venda ímanes para as portas dos frigoríficos com a inscrição Km 0 da EN2. "Há uns anos, um vendedor meu amigo trouxe umas amostras e percebi logo o potencial que isto tinha. Já vendi milhares. Mas é preciso dizer que foram os estrangeiros os primeiros a dar visibilidade à estrada e só graças a eles é que os portugueses acordaram para este património. Em boa hora", salienta ao DN.

Aproxima-se a hora de jantar e pedimos o primeiro conselho que chega sem hesitação: um naco na pedra na Taska do Quim Barbeiro, em Vidago (Km 15 da EN2). A carne de vitela barrosã chega à mesa tal e qual se anuncia, tenra e saborosa, acompanhada por arroz de feijão e tinto da casa. Estando em Trás-os-Montes, há que experimentar também uma alheira local. A finalizar, um leite-creme divinal. A refeição excelente e em conta dá imediatamente a ideia para outro plano futuro com grande potencial: um roteiro gastronómico transmontano.

A poucos quilómetros de Vidago fica a Casa Grande do Seixo, construída no século XVIII, em granito amarelo, e classificada em termos históricos, arquitetónicos e culturais, tendo adega, capela, uma antiga escola e até um velho calabouço onde ficaram detidos soldados franceses durante a segunda invasão napoleónica. Manuel Nobre, 69 anos, e Nélia Canha, 54, são os proprietários. Produzem vinho, aguardente, licores e vários tipos de compotas que também vendem aos clientes da casa.

O espaço começou a ganhar nova vida em 2008, com a plantação das vinhas que hoje dão origem a um vinho da sub-região vitivinícola de Chaves, que já era famosa pela sua produção desde o tempo dos romanos. Confrontado com a impossibilidade de registar a marca Quinta Casa Grande do Seixo, Manuel Nobre teve a ideia de escrever o nome de família ao contrário. E assim nasceu o Erbon, vinho que acaba por ser um chamariz para viajantes também interessados em experiências de enoturismo nesta região. O estabelecimento esteve quatro meses fechado devido à pandemia. A reabertura trouxe novidades.

"Notámos, sem dúvida, uma alteração no perfil de clientes. Se antes da pandemia eram mais estrangeiros, sobretudo da Europa Central e ingleses, agora 90% são portugueses e o mês de agosto está praticamente todo cheio. Alguns estão a fazer a viagem pela EN2, o que se tornou mais fácil de perceber desde que foi inaugurada a rota e criado o passaporte que também pode ser carimbado aqui com o nosso selo da casa", conta Manuel Nobre ao DN.

40 a 50 mil na estrada só em agosto

O passaporte de que falava Manuel Nobre nasceu em 2018 por iniciativa da associação que junta os 35 municípios por onde passa a EN2. Pode ser adquirido online (custa um euro, mais portes de envio) ou então em câmaras municipais e postos de turismo ao longo da rota. No passaporte, cada concelho tem a sua própria página e o objetivo do viajante é recolher os carimbos que assinalam a passagem pela localidade. Existem muitos pontos para o fazer como postos de turismo, autarquias, unidades hoteleiras e de restauração, bombeiros voluntários, museus ou gasolineiras.

Um sinal da crescente popularidade da estrada chega através dos números deste documento. Desde a sua criação, foram impressos e distribuídos 50 mil passaportes, mas a elevada procura neste verão levou à rutura de stock em muitos pontos do país. "Foi feita uma remessa de mais 20 mil passaportes, que é entregue nesta semana. E posso dizer que, destes, cerca de oito mil já foram encomendados", revela Afonso Gonçalves, do secretariado da Associação de Municípios da Rota da EN2. A entidade foi fundada em 2016 e liderada desde a primeira hora pela Câmara de Santa Marta de Penaguião. Visa promover a estrada como destino turístico e, olhando para os números, tem vindo a dar frutos.

Consulte aqui o site desenvolvido para promover a rota da EN2

"As nossas estimativas apontam para que só em agosto 40 a 50 mil pessoas tenham escolhido fazer a EN2 nas férias, na sua esmagadora maioria portugueses. Os motociclos continuam a ser o meio de transporte mais utilizado, mas há também um forte crescimento do autocaravanismo", diz Afonso Gonçalves, reconhecendo que, com receio da pandemia, muitos portugueses preferiram ficar no país e, mesmo por cá, evitar destinos de férias com maior concentração de pessoas.

A EN2 consegue casar as duas opções e a sua crescente popularidade, também impulsionada este verão por programas de televisão e rádio nacionais (RTP e RFM dedicaram largas horas da suas emissões à estrada), tornou-a um plano de férias apetecível. "Por exemplo, na zona de Penacova, Góis, Vila Nova de Poiares, a taxa de ocupação hoteleira ronda os 95% este mês, o que supera os registos pré-covid, sendo que 50% dos clientes vem da nacional 2. É excelente e um sinal da mobilização em redor deste projeto", acrescenta Afonso Gonçalves, dando conta que, agora, o objetivo da associação é fazer com que a EN2 "não seja apenas uma moda, mas sim algo duradouro", estando, por exemplo, a ser ultimada uma "rede de agentes" ao longo da estrada (alojamentos turísticos, de restauração e outros serviços como, por exemplo, farmácia e oficinas, referenciados pelos municípios) para facilitar a vida de quem viaja.

O passaporte, pela adesão, é já uma âncora desta estratégia. Sempre que possível o ideal é visitar o posto de turismo, pois garantem não só o carimbo como também informações sobre a zona e pequenas dicas que só os locais conhecem. Foi o que aconteceu no Peso da Régua, onde nos indicaram os melhores sítios para comprar os famosos rebuçados da cidade, incluindo aqueles que são "feitos pela doceira que costuma ir à televisão".

Uma lição que aprendemos depressa: não dá para ir a tudo

A passagem pelo Peso da Régua fez já parte do itinerário para o nosso segundo dia na estrada. Partimos de Vidago (Km 15) com destino à albufeira da barragem da Aguieira (Km 227), parando algumas vezes ao longo do caminho. Não demorou muito até percebermos que teríamos de abdicar de muitas das visitas que desejávamos fazer - a alternativa era chegar de madrugada ao nosso destino. Por isso, sempre que os seus compromissos o obriguem a uma etapa tão longa com esta, o ideal será identificar de antecedência os três ou quatro sítios (não mais do que isso) a que quer mesmo dedicar algum tempo. Fica a recomendação.

Uma dessas paragens foi em Tondela, onde voltámos a dirigir-nos a um posto de turismo (nas mesmas instalações do Museu Terra de Besteiros) para tentar decifrar um mistério: afinal, onde para o marco que assinala o Km 200 da EN2? "Ninguém sabe. Ele desapareceu. Sabemos que o quilómetro 200 fica algures entre Tondela e Santa Comba Dão, mas o local exato não se encontra assinalado", diz ao DN uma das técnicas de turismo de Tondela, hábil em promover as atrações da vila.

A ausência do marco do Km 200 é, de resto, um sinal de alguma confusão relacionada com o trajeto exato da EN2. Logo à saída de Lamego faltam indicações mais precisas para encontrar o caminho correto e depois há partes da estrada que coincidem com o IP3 e outras que já nem sequer existem por terem ficado submersas (como acontece na Aguieira). Está neste momento em fase final de homologação, pela Infraestruturas de Portugal, ANSR e IMT, um conjunto de sinalética alusiva à rota da EN2 para ser colocado na estrada. Enquanto isso não acontece, não vale a pena desanimar. Nada disto retira encanto à viagem, que hoje nos conduziu até à Aguieira.

Em agosto de 2019, já em clima de pré-campanha eleitoral para as legislativas de outubro, António Costa fez o trajeto da EN2 e um dos pontos de paragem foi, precisamente, esta barragem, que funciona desde 1981 e é responsável pela produção de cerca de um quarto da energia elétrica que o país consome. A infraestrutura tem assim um papel estratégico para o desenvolvimento do interior de Portugal, não só pela energia que produz mas também pelo potencial turístico.

Desse ponto de vista, o projeto mais ambicioso no local é o Montebelo Aguieira Lake Resort & Spa que também teve de se adaptar à covid-19. O facto de se tratar de apartamentos facilita o distanciamento social, mas agora há, por exemplo, turnos para servir o pequeno-almoço (que também pode ser entregue em casa) e serviço de take-away. Quanto à albufeira, destaca-se a marina enquadrada por um cenário verdejante e o extenso espelho de água que permite a prática de todo o tipo de desportos náuticos.

No reino das praias fluviais

Voltamos à estrada com energia renovada. A primeira paragem é para contemplar a formação geológica da Livraria do Mondego (Km 236), que deve o nome ao rio que por ali passa e ao facto de as camadas de rocha se assemelharem à lombada de livros expostos numa estante. O Mondego é apenas um dos 13 rios que a EN2 cruza - Tâmega, Corgo, Douro, Varosa, Balsemão, Paiva, Vouga, Dão, Mondego, Alva, Ceira, Zêzere e, por fim, o Tejo -​​, o que faz que ao longo do percurso seja fácil encontrar indicações para praias fluviais. A zona do país em que nos encontramos, prestes a entrar na serra da Lousã, é excecionalmente rica nesse aspeto

Escolhemos a praia da Peneda (Km 272), em Góis, para um piquenique à sombra e um mergulho no Ceira e, no caminho, passamos pelo ponto mais ocidental da EN2, situado no Louredo (Km 242), concelho de Vila Nova de Poiares. Uma refeição ligeira, um mergulho demorado, um café e um gelado depois, ficámos prontos a atacar mais um ponto que queremos registar: o marco do Km 300.

Resistimos à tentação de visitar uma das quatro aldeias de xisto de Góis (Pena, Aigra, Aigra Nova e Comareira) e fazemo-nos à estrada, que nos exige agora alguma paciência e atenção redobrada devido às curvas e contracurvas. Feita a foto no marco, junto a Alvares (que teve foral atribuído por D. Manuel I em 1514), e ainda antes de entrarmos no concelho de Pedrógão Grande, cortamos à esquerda e deixamos a EN2 por 48 horas para uns dias junto ao Zêzere em casa de familiares próximos.

A placa mais fotografada?

Voltamos à 2 no exato ponto onde a tínhamos deixado e seguimos em direção a Mora, o destino final deste dia. Bastam uns poucos quilómetros para nos depararmos com aquela que é, muito provavelmente, a placa mais famosa (e partilhada nas redes sociais) da EN2: a que anuncia a chegada à aldeia da Picha (Km 310). E, logo a seguir, nova pérola - Venda da Gaita (Km 311).

Observar a toponímia ao longo da EN2 é, só por si, uma experiência à parte Samandã, Cabanões, Alegria, Água de Todo o Ano, Vale de Narizes, Guedelhas e Coiro da Burra são apenas alguns dos exemplos mais curiosos.

Sem planos prévios, seguimos a rota e aproveitamos para ir provando algumas delícias regionais (um prazer que repetimos várias vezes), como os arménios da Sertã (pastéis de carne) ou as tigeladas do Sardoal. Entre estas duas localidades, fazemos a paragem mais demorada do dia para visitar, em Vila de Rei, o centro geodésico de Portugal (Km 364), onde desde 1802 se encontra um marco de 1.ª ordem em forma piramidal (com cerca de nove metros) a partir do qual se assinalou o ponto central do território português, dando um importante contributo para os trabalhos de topografia e cartografia no país. Do seu miradouro, com uma panorâmica de 360 graus, é possível observar a serra da Lousã e, em dias de céu limpo, até a serra da Estrela (a cerca de 100 Km de distância).

Em Vila de Rei estamos não só no centro de Portugal, como também a meio da EN2 pois ao Km 369 ficamos exatamente à mesma distância de Chaves e de Faro.

Mais à frente, junto a Alferrarede, perdemos algum tempo à procura do marco do Km 400 até sermos informados que este está desaparecido e que um outro (comemorativo dos 75 anos da EN2) foi colocado no local onde, supostamente, deveria estar o original.

Em Abrantes, cruzamos o Tejo e deixamos para trás o último dos grandes rios da EN2. Ao Km 430 entramos no concelho de Ponte de Sor e, assim, no Alentejo. Durante vários quilómetros a EN2 segue paralela à albufeira da barragem de Montargil, onde centenas de pessoas aproveitam para se refrescar neste quente dia de agosto.

Também para nós está a chegar a hora de parar o carro. E conhecer um inesperado oásis alentejano.

O sossego na Seda também pode ser radical

No concelho de Mora, próximo de Pavia, ficam as Azenhas da Seda, um espaço de aquaturismo e glamping (uma versão de campismo mais cuidada, em que as tendas são dotadas de equipamentos como camas e outro mobiliário que permite uma estada mais confortável), que alia desporto de aventura - alimentado pelas águas bravas de uma ribeira - e a tranquilidade do Alentejo.

"A ribeira da Seda tem um enquadramento aquático completamente inusitado para o Alentejo, com rápidos e cascatas durante todo o ano", diz o proprietário Luís Lucas, 57 anos, ligado há muito ao desporto de aventura em Portugal.

Mas como descobriu este lugar? "Essa é uma história engraçada", garante-nos. Vamos a ela, então. Quando tinha apenas 17 anos, Luís meteu um desafio na cabeça: queria fazer um rio de canoa em modo de sobrevivência. Olhando o mapa, reparou no curso da ribeira de Seda a partir da barragem do Maranhão. Apoiado por um amigo, que lhe transportou a canoa até ao ponto de partida, Luís fez-se à ribeira munido de "um saco-cama, um tacho e um quilo de arroz, para a eventualidade de algo correr mal". Logo no segundo dia desta aventura, parou juntou às azenhas que hoje dão o nome ao empreendimento. Parou, porque viu imensos lagostins por ali, os quais, num desafio de sobrevivência, significavam uma refeição. "Fiz uma fogueira e cozinhei os lagostins. Como não tinha sal ficaram uma porcaria. E no dia seguinte lá segui a minha aventura."

A experiência e a beleza do local, contudo, ficaram-lhe gravadas na memória. Quase 25 anos mais tarde, num jantar com Inês, com quem partilha a gestão do espaço, esta confessou-lhe o sonho antigo de um dia viver no Alentejo, em pleno contacto com a natureza. Luís lembrou-se das Azenhas e levou-a até lá. Passaram a noite num jipe, estacionado na pequena praia que hoje serve os clientes. Foi quanto bastou para decidirem procurar o dono daquele terreno, fazerem a compra, sair de Lisboa e iniciarem um novo projeto de vida.

O negócio é sazonal - do início de maio até final de outubro - porque no inverno há risco de cheias e as tendas têm de ser desmontadas. Além dos desportos aquáticos, existem atividades como um passeio guiado por um biólogo pela fauna e flora do local. Aprendemos, por exemplo, que peixes como os abletes, apesar de serem uma praga, são deliciosos fritos e com umas gotas de limão, enquanto vamos descobrindo ao longo do percurso (a pé e de canoa) ervas e plantas usadas para os mais variados fins, desde temperos a xaropes, infusões medicinais, venenos ou repelentes de insetos.

Tudo isto junto proporciona, de facto, uma experiência diferenciadora. Mas a proximidade da EN2 e a centralidade do concelho de Mora na estrada também lhe vale clientes, "pessoas que aproveitam para fazer aqui uma pausa mais demorada e desligarem verdadeiramente antes de voltar ao asfalto".

O combate à covid-19 implicou reduzir a lotação do espaço, que atualmente só recebe quatro grupos/famílias ao mesmo tempo, os quais têm acesso a zonas de piquenique, duches, casas de banho, equipamentos de cozinha e de praia que são exclusivos desses clientes. "Queremos que quem nos visita se sinta o mais seguro possível e evitar também que nos aconteça algo a nós. Não podemos arriscar fechar portas", explica Luís.

Quinhentos quilómetros depois, eis o Ciborro

Deixamos Mora em direção a Almodôvar, o nosso próximo destino. É um dos trechos mais longos da viagem (cerca de 185 km) e também aquele que melhor conhecemos. Aproveitamos, sobretudo, para ir recolhendo carimbos ao longo do caminho, que passa pelos concelhos de Coruche (um breve trecho de apenas três quilómetros), Montemor-o-Novo, Viana do Alentejo, Alcácer do Sal, Ferreira do Alentejo, Aljustrel e Castro Verde.

Há, no entanto, quase no início desta etapa, um ponto de paragem obrigatória para quem faz a rota. No Ciborro, pequena freguesia do concelho de Montemor-o-Novo (que nos últimos dias foi notícia devido a um surto de covid-19), está o marco dos 500 quilómetros da EN2, colocado em cima de um muro, para lhe dar mais visibilidade e condições de preservação.

A paragem é rápida, tal como todas as outras que fizemos neste dia. A planície dourada do Alentejo dá asas a outro prazer pessoal: o de conduzir. É tempo de aumentar o volume da música, usufruir da estrada e da sempre espetacular paisagem das searas alentejanas. A ideia é chegar depressa a Almodôvar para um dia de repouso, sem estrada, apenas a usufruir da tranquilidade do Baixo Alentejo. Foi precisamente isso que fizemos.

Três gemas no Caldeirão

A transição do Baixo Alentejo para o Algarve é fácil de notar para quem segue na EN2. Aos poucos as longas retas do Alentejo começam a dar lugar às inúmeras curvas que vão marcar a travessia da serra do Caldeirão.

Mais uma vez seguimos sem plano, à espera das surpresas que o caminho nos reserve. E foram três. A primeira, o fantástico espelho de água da Seiceira (Km 686). Em 2014, a população de Ameixial foi desafiada a escolher uma obra que queriam ver nascer na sua terra, naquela que foi a primeira edição do orçamento participativo naquela freguesia de Loulé.

Decidiram edificar ali, no coração da serra, um pequeno oásis: um refrescante espelho de água que servisse a população local e os visitantes. Devidamente assinalado na EN2, muitos viajantes fazem o desvio até lá. Com calor e em pleno agosto, não é de estranhar que esteja hoje bastante concorrido. Por isso, apesar da tentação, o mergulho ali tem de ser adiado. Guardamos somente o registo fotográfico, que mais parece um cartão-postal.

Mais à frente, na Cortelha (Km 705), encontramos a Casa dos Presuntos. As gémeas Sandra e Isabel (51 anos), com o irmão Nuno, tomam conta do negócio que já está na família há três gerações. Como o nome indica, nasceu como um lugar onde se fazia a cura de presuntos, mas hoje é restaurante, bar, mercearia de produtos regionais e, nas traseiras da casa, tem um alojamento local com dez quartos (O Cantinho da Serra). Entrámos com a ideia de beber apenas um café, mas saímos de lá com prendas para amigos e família - mel de rosmaninho, licor de medronho e figos bêbados.

A Nacional 2 passa mesmo à porta do estabelecimento, o que permite, mesmo em ano de covid-19, que o número de clientes tenha disparado. "Nos últimos anos, com uma maior divulgação da rota, começámos a notar esse aumento de procura, mas neste ano subiu muito mesmo. O mês de agosto então tem sido uma brutalidade", diz Sandra, antes de enumerar os pratos que dão fama à casa: "Javali no forno, borrego estufado, as migas alentejanas com porco preto e, claro, o nosso presunto." Enquanto nos despedimos, entra um cliente que pede uma sande de presunto e uma cerveja. Não posso deixar de pensar que era precisamente isso que eu devia ter feito. Fica para a próxima.

De volta à Estrada Nacional 2, bastam mais alguns quilómetros para que se justifique nova paragem, agora no Parque da Fonte Férrea (Km 718). Há um bar, um parque de merendas e até uma pista para desportos de todo-o-terreno nas imediações, mas são os vários trilhos pedestres que nos chamam a atenção e nos conduzem pela densa vegetação da serra. Escolhemos um e ao longo do caminho vamos encontrando dezenas de medronheiros, roseiras bravas e silvas de onde colhemos algumas amoras silvestres antes de voltar para trás.

Pelo Parque da Fonte Férrea passa também a ribeira do Alportel. Mas por esta altura do ano o leito está seco, o que retira alguma beleza ao local. Vendo bem, nos três sítios por onde passámos na serra do Caldeirão ficou sempre algo por fazer: um mergulho na Seiceira, uma sande de presunto na Cortelha e, aqui, ver correr a água da ribeira de Alportel. O que é bom, pois só reforça o desejo de regressar.

Um ponto final vistoso a fazer justiça à estrada

A tarde caminha para o fim e estamos prestes a concluir a nossa jornada pela EN2. Em abril deste ano, a Câmara de Faro inaugurou uma nova rotunda no cruzamento entre a Rua do Alportel e a Avenida Calouste Gulbenkian com dois objetivos: melhorar a circulação automóvel e assinalar o ponto final da EN2.

No centro da rotunda está uma estrutura semielevada, com cerca de dez metros de diâmetro, onde foi desenhado em calçada portuguesa o número 738 - oficialmente este não é, contudo, o ponto final da estrada que se prolonga por mais umas centenas de metros através da Rua do Alportel.

A rotunda do 738 é recente mas já muito procurada. Com tanta gente a fazer a EN2, bastaram cinco minutos para termos a companhia de mais dois viajantes que queriam registar a sua passagem pelo local.

José, 26 anos, e Daniela, 24, são namorados e vêm de Lamego e Aveiro, respetivamente. Estão há 10 dias na EN2 e fizeram todo o percurso entre Chaves e Faro. Perguntamos: porquê este ano? "Foi por causa da covid. Com tanta incerteza sobre as viagens para fora, optámos por fazer férias em casa e a nacional 2 pareceu uma boa opção. Fomos descendo a estrada devagarinho, acampando onde dava. Foi esse o nosso plano".

E ficou a sensação de terem feito a escolha certa? "Sim, foi muito especial. Ao contrário de outras férias, em que chegamos a um sítio e entramos naquela rotina de praia/casa/praia, esta viagem permite ir conhecendo diferentes pessoas e culturas ao longo do caminho. É isso que a torna mais bonita. E que nos inspira a fazer outras viagens do género no futuro", explicam.

Ainda na rotunda, festejamos em família o fim da viagem com um abraço, mas já com alguma nostalgia e muita vontade de fazer inversão de marcha e repetir tudo de novo. Porque, apesar de os dias terem sido sempre bem preenchidos, sentimos que ficou muito por ver, muito por fazer. É sobre isso que falamos quando regressamos ao carro. O que mais gostámos, o que tivemos pena de não conhecer melhor, o que voltaríamos a repetir numa próxima oportunidade. Fica logo ali estabelecido o compromisso de voltar a fazer a EN2.

É possível repetir esta experiência uma dezena de vezes e em todas elas sentir o prazer da descoberta. Procura uma viagem pelos sabores da gastronomia portuguesa que vá da vitela barrosã ao peixe fresco do Algarve? Um roteiro só por praias fluviais e barragens? Um percurso histórico por castelos e sítios arqueológicos? Seja qual for o plano, na EN2 terá uma resposta. As possibilidades são imensas e só dependem da imaginação e do gosto de cada um. Portugal é um país cheio de encantos. E tem a sorte de ter uma estrada que o mostra como ninguém.

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