Leia aqui A Vida Mentirosa dos Adultos, o novo livro de Elena Ferrante

O DN revela hoje os dois primeiros capítulos do novo romance de Elena Ferrante, A Vida Mentirosa dos Adultos, que retrata a vida de Giovanna entre os 12 e os 16 anos. Passa-se em Nápoles como a tetralogia A Amiga Genial, nos anos 1990.

O DN revela hoje os dois primeiros capítulos do novo romance de Elena Ferrante, A Vida Mentirosa dos Adultos, que chega às livrarias na próxima terça-feira, no mesmo dia em que é lançado um pouco por todo o mundo. Para os milhões de leitores da tetralogia A Amiga Genial, também publicada pela editora Relógio D'Água, este é um regresso a uma narrativa que ao longo de 304 páginas mantém o registo tão frenético como mágico dos anteriores romances que deram à autora - até ao momento ainda desconhecida - um sucesso literário raro. O cenário napolitano mantém-se, afinal é uma geografia social própria para os acontecimentos que vão mudar radicalmente a vida de Giovanna, uma menina de 12 anos que ouve do seu pai uma comparação com a irmã deste - o de ser feia - e transforma o amor pelos seus pais numa revolta que irá alterar a sua e a vida de quem está à volta. Diferente do que se leu antes, pois a família de Giovanna não pertence às classes pobres de Nápoles mas às mais altas, e Ferrante desvenda um outro mundo bastante real que se situa no princípio dos anos de 1990. Apesar de referências fundamentais estarem presentes, decididamente, este novo livro não é mais do mesmo...'

Pré-publicação

A Vida Mentirosa dos Adultos

1

Dois anos antes de sair de casa, o meu pai disse à minha mãe que eu era muito feia. A frase foi pronunciada em voz baixa, no apartamento que os meus pais, logo depois de casar, tinham comprado no Rione Alto, no cimo de San Giacomo dei Capri. Tudo - os espaços de Nápoles, a luz azul de um Fevereiro gélido, aquelas palavras - ficou parado. Eu, pelo contrário, fugi de lá e ainda continuo a fugir, dentro destas linhas que querem dar-me uma história mas que, na verdade, nada são, nada de meu, nada que tenha de facto começado ou que tenha sido de facto levado a bom termo: apenas um emaranhado que ninguém, nem mesmo quem escreve este texto, sabe se contém o fio certo de uma narrativa ou se é apenas uma dor confusa, sem redenção.

2

Amei muito o meu pai, era um homem sempre gentil. Tinha maneiras finas, perfeitamente coerentes com um corpo de tal modo delgado que os fatos pareciam ser de um tamanho acima, o que aos meus olhos lhe dava um ar de inimitável elegância. O rosto era de feições delicadas e nada - os olhos profundos com longas pestanas, o nariz de uma engenharia impecável, os lábios cheios - estragava essa harmonia. Dirigia-se a mim sempre com um ar alegre, fosse qual fosse a sua disposição ou a minha, e não se fechava no escritório - estava sempre a estudar - sem me arrancar ao menos um sorriso. Alegravam-no sobretudo os meus cabelos, mas é-me difícil dizer, agora, quando começou a elogiá-los, talvez a partir dos meus dois ou três anos. Do que não há dúvida é que, durante a minha infância, tínhamos conversas deste género:

"Que lindos cabelos, que beleza, que brilho, ofereces-mos?"
"Não, são meus."
"Sê um pouco generosa."
"Se quiseres, posso emprestar-tos."
"Está bem, depois nunca mais tos devolvo."
"Já tens os teus."
"Os que tenho, tirei-tos."
"Não é verdade, estás a mentir."
"Então verifica: eram muito bonitos e roubei-tos."

Eu verificava, mas a brincar, sabia que ele nunca mos roubaria. E ria-me, ria-me imenso, divertia-me mais com ele do que com a minha mãe. Queria sempre qualquer coisa minha, uma orelha, o nariz, o queixo, dizia que eram tão perfeitos que não podia viver sem eles. Eu adorava aquele modo de dizer, provava-me constantemente que eu era imprescindível para ele.

Naturalmente, o meu pai não era assim com toda a gente. Por vezes, quando alguma coisa lhe interessava muito, tinha tendência para se alongar de modo agitado em discursos subtis e emoções descontroladas. Outras vezes, pelo contrário, abreviava, recorria a frases curtas, de precisão extrema, tão densas que ninguém ripostava. Eram dois pais muito diferentes daquele que eu amava, e começara a aperceber-me da sua existência por volta dos sete ou oito anos, quando o ouvia discutir com amigos e conhecidos que de vez em quando vinham a nossa casa para reuniões muito exaltadas, acerca de problemas de que eu não percebia nada. Geralmente estava com a minha mãe na cozinha, e fazia pouco caso do modo como discutiam, a poucos metros de distância. Mas às vezes, como a minha mãe tinha que fazer e também se fechava na sua sala, ficava sozinha no corredor a brincar ou a ler, sobretudo a ler, diria, porque o meu pai lia imenso, a minha mãe também, e eu gostava de ser como eles. Não fazia caso das discussões, só interrompia a brincadeira ou a leitura quando de repente se fazia silêncio e se elevavam aqueles tons de voz estranhos do meu pai. A partir desse momento prevalecia a sua vontade, e eu esperava que a reunião terminasse para perceber se ele voltara a ser o pai habitual, o de modos gentis e afetuosos.

Na noite em que disse aquela frase, acabara de saber que eu não ia bem na escola. Era novidade. Desde a primeira classe sempre fora boa aluna, só nos últimos dois meses começara a correr mal. Mas para os meus pais era muito importante o meu bom aproveitamento escolar, e a minha mãe, sobretudo, ficara alarmada com as primeiras más notas.

"O que se passa?"
"Não sei."
"Tens de estudar."
"Eu estudo."
"E então?"
"De algumas coisas recordo-me de outras não."
"Estuda até te recordares de tudo."

Estudava até não poder mais, mas os resultados continuavam a ser dececionantes. Naquela tarde, em especial, a minha mãe fora falar com os professores e voltara muito aborrecida. Não me repreendera, os meus pais nunca me repreendiam. Limitara-se a dizer: a mais descontente é a professora de matemática, mas disse que, se quiseres, consegues. Depois fora para a cozinha tratar do jantar e entretanto o meu pai chegara. Do meu quarto ouvi apenas que ela lhe estava a resumir as queixas dos professores, e percebi que, para me justificar, trazia à baila as alterações do início da adolescência. Mas ele interrompeu-a e, num daqueles tons que nunca usava comigo - e até numa cedência ao dialeto, totalmente proibido em nossa casa -, deixou que lhe saísse da boca aquilo que certamente não queria que saísse:

"A adolescência não tem nada a ver:
está a ficar com a cara de Vittoria."

Se soubesse que eu podia estar a ouvi-lo, tenho a certeza de que nunca teria falado daquele modo, tão distante da nossa habitual frivolidade brincalhona. Pensavam ambos que a porta do meu quarto estava fechada, eu fechava-a sempre, e não se deram conta de que um deles a deixara aberta. Foi assim que aos doze anos fiquei a saber pela voz do meu pai, sufocada pelo esforço de a manter baixa, que estava a ficar como a sua irmã, uma mulher na qual se associavam na perfeição - ouvia-o dizer desde que me lembrava - a fealdade e a malvadez.

Aqui poder-se-ia alegar: talvez estejas a exagerar, o teu pai não disse à letra: Giovanna é feia. É verdade, não estava na natureza dele dizer coisas tão brutais. Mas eu atravessava um período de grande fragilidade. Havia quase um ano que era menstruada, os seios eram demasiado visíveis e envergonhava-me deles, tinha medo de cheirar mal, lavava-me constantemente, ia dormir sem vontade de nada e acordava sem vontade de nada. O meu único conforto, nesse tempo, a minha única certeza, era que ele adorava absolutamente tudo em mim. Por isso, no momento em que me comparou à tia Vittoria, foi pior do que se tivesse dito: Giovanna dantes era bonita, agora tornou-se feia. Em minha casa o nome Vittoria soava como o de um ser monstruoso, que suja e infecta tudo aquilo em que toca. A respeito dela pouco ou nada sabia, vira-a pouquíssimas vezes, mas - e a questão é essa - dessas ocasiões recordava apenas a repugnância e o medo. Não a repugnância e o medo que ela, em carne e osso, pudesse ter-me suscitado, não tinha qualquer lembrança disso. O que me assustava era a repugnância e o medo que os meus pais sentiam por ela. O meu pai sempre falara da irmã de maneira pouco clara, como se ela praticasse ritos vergonhosos que a manchavam, manchando também quem se desse com ela. A minha mãe, por sua vez, nunca falava nela e, aliás, quando intervinha nos desabafos do marido, a tendência era para o fazer calar, como se receasse que ela, onde estivesse, conseguisse ouvi-lo e de repente corresse por San Giacomo dei Capri acima em grandes passadas, embora fosse uma rua comprida e íngreme, e arrastasse atrás de si, de propósito, todas as doenças dos hospitais que tínhamos perto, voasse até nossa casa, no sexto andar, partisse a mobília, lançando dos olhos negros relâmpagos ébrios, e a esbofeteasse se ela simplesmente tentasse protestar.

Sim, intuía que por trás daquela tensão devia haver uma história de desconsiderações, feitas e recebidas, mas nesse tempo sabia pouco de questões familiares e, sobretudo, não considerava aquela tia terrível uma pessoa de família. Era um espantalho, era uma fuinha escanzelada e endemoninhada, era uma figura desgrenhada emboscada à esquina das casas quando a noite cai. Seria possível, pois, que assim, sem qualquer preâmbulo, tivesse de descobrir que estava a ficar igual a ela? Eu? Eu que até àquele momento me achara bonita e julgava que o seria para sempre? Eu que, graças à sua contínua aprovação, pensava que tinha uns cabelos esplendorosos, eu que queria ser muito amada, como ele me amava, como me tinha habituado a julgar-me amada, eu que já sofria porque sentia os meus dois progenitores, de repente, descontentes comigo, e esse descontentamento me agitava, toldando todas as coisas?

Esperei pelas palavras da minha mãe, mas a sua reação não me confortou. Apesar de odiar todos os parentes do marido e apesar de detestar a cunhada, como se detesta um lagarto que nos trepa pela perna nua, não reagiu gritando-lhe: estás doido, entre a minha filha e a tua irmã não existe nada em comum. Limitou-se apenas a um débil e brevíssimo: o que estás a dizer, não é verdade. E eu, ali no meu quarto, fui a correr fechar a porta para não ouvir mais nada. Depois chorei em silêncio e só parei quando o meu pai voltou a anunciar - desta vez com a voz boa - que o jantar estava pronto.

Juntei-me a eles na cozinha com os olhos secos, tive de suportar, com o olhar fixo no prato, uma série de conselhos úteis para melhorar o meu aproveitamento escolar. Depois fui de novo fingir que estudava, enquanto eles se instalavam em frente do televisor. Sentia uma mágoa que não queria cessar, nem sequer atenuar-se. Porque é que o meu pai pronunciara aquela frase, porque é que a minha mãe não o contradissera com força? Fora um descontentamento deles devido às más notas, ou um alarme que nada tinha a ver com a escola, que durava sabe-se lá desde quando? E ele, sobretudo ele, pronunciara aquelas palavras terríveis por um desprazer momentâneo que eu lhe dera ou, com o seu olhar agudo, de pessoa que sabe e que vê tudo, reconhecera havia já muito tempo os sinais de uma minha podridão futura, de um mal que ia avançando e que o desconsolava, e contra o qual ele próprio não sabia como comportar-se?

Passei a noite em desespero. De manhã convenci-me de que, se queria salvar-me, tinha de ir ver qual era realmente o aspeto de Tia Vittoria.

A Vida Mentirosa dos Adultos

Elena Ferrante

Editora Relógio D'Água

Sai terça-feira

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