Game over? Ou terá Super Mario mais uma vida para gastar no Génova

Mario Balotelli vai tentar relançar a carreira no Génova (Itália) aos 30 anos. Será que ainda vai a tempo? Carreira construída fora de campo tem atrapalhado o desempenho desportivo do internacional italiano de origens ganesas.

Há três dias que Mario Balotelli está "prestes" a chegar a acordo com o Génova. A demora será culpa da (má) fama do internacional italiano, que há anos permite que as excentricidades fora de campo atrapalhem o talento desportivo. Ele é a personificação da bipolaridade ao serviço do futebol. Ele é aquele que complica, mas que também resolve. Podia ser uma questão de personalidade, mas a forma de estar no futebol tornou-o problemático. Um risco para quem o contrata.

Imprevisível dentro e fora dos relvados, pôs a carreira em risco, por uma e outra vez. Antes de o Génova aparecer interessado, o jogador chegou a negociar com o Calcio Como, um clube da Série C do Calcio (terceira divisão). Ninguém parecia acreditar que fosse para a terceira divisão, mas com tanta porta fechada as hipóteses eram cada vez menos. O avançado terá ainda recusado o Flamengo de Jorge Jesus em junho, mas a verdade é que a época já começou e ele continua sem clube. Agora, aos 30 anos, o talento italiano que um dia venceu uma Liga dos Campeões com José Mourinho no Inter quer tentar relançar a carreira no Génova.

Abandonado pelos pais à nascença, num hospital de Palermo (Sicília), Mario tinha problemas de saúde sérios e só saiu de lá quando foi adotado pela família Balotelli. Uma família de acolhimento que se tornou a sua para a vida toda. Apesar da difícil infância, os pais deixaram-no jogar futebol. Começou no AC Lumezzane com 11 anos e aos 15 já jogava pelos seniores na terceira divisão do campeonato italiano, despertando o interesse do Inter de Milão, onde chegou com 16 anos. Foi nos nerazzurri que o avançado brilhou pela primeira vez, e com José Mourinho, no Inter de Milhão, venceu a Liga dos Campeões em 2009-10. Já lá vão dez anos. E isso diz muito do desperdício de talento daquele que um dia foi considerado o melhor jovem jogador do mundo.

O técnico português habituou-se a dar uma no cravo e outra na ferradura quando era questionado sobre o jovem então sub-21 italiano. "Não é um jogador de confiança. Fez um grandíssimo jogo e depois fez uma semana de trabalho péssima. Tem de se trabalhar mais quando se treina com homens como Figo ", disse Mourinho, após um jogo do Inter com o Génova - clube que agora pode representar. Balotelli respondeu-lhe no jogo a seguir, com mais um golo e um triunfo, mas logo depois disse simpatizar como arquirrival AC Milan, depois de ir a um programa de televisão com uma camisola do AC Milan. Atitude que lhe valeu mais uns quantos inimigos (e amigos também, depende do ponto de vista).

Nessa altura tinha desculpa. Tinha apenas 19 anos e muitos acreditavam que se tratava de um caso de ingenuidade pura, mas o tempo veio revelar uma personalidade controversa incapaz de se aliar ao talento. A verdade é que andava sempre às turras com Mourinho, e não tardou a falar-se de uma saída do Inter para o Arsenal, mas o presidente do Inter, Massimo Moratti, fechou a porta aos ingleses, e pediu ao avançado para se adaptar à equipa e ao treinador. E ele lá foi crescendo pela mão de José Mourinho... até sair para o Manchester City.

Vestiu-se de Pai Natal e andou pelas ruas a distribuir dinheiro

Em Inglaterra, as histórias mirabolantes à volta da vida fora dos relvados foram sempre mais relevantes para os tabloides ingleses do que as suas atuações nos jogos. Certo dia, o internacional italiano foi entrevistado por Noel Gallagher, compositor e fundador do grupo Oasis e adepto fanático do Manchester City, e confirmou muitas das histórias que eram publicadas na imprensa, entre elas a da estação de serviço, onde chegou para meter gasolina e disse a todos as pessoas presentes que abastecessem-se à custa dele. Ou aquela vez em que ganhou 25 mil libras (27,3 mil euros) num casino e à saída ofereceu mil euros a um sem-abrigo. Ou quando se vestiu de Pai Natal e andou pelas ruas de Manchester a distribuir dinheiro.

O coração bondoso não era o único a tomar conta do corpo de Balotelli. Também havia um diabinho que o chamava para o lado negro da força e o levou a lançar dardos aos miúdos das escolinhas do Manchester City ou a atirar tomates contra um treinador. Ou pegar fogo à própria casa ao lançar fogo-de-artifício no jardim... e quando lá tentou voltar com uns amigos para ir buscar umas coisas foi confundido com um ladrão, levando os vizinhos a chamar a polícia. No dia a seguir ao incêndio entrou em campo e marcou um golo no dérbi de Manchester, com o United, e levantou a camisola com a seguinte mensagem: "Why always me? (Porquê sempre a mim?)"

Ele sentia-se um incompreendido. "Se compro um Fiat Uno, leio que um tipo como eu deveria comprar um Ferrari. Se compro o Ferrari, leio que devia ser mais terra à terra e que devia ter comprado o Fiat. Se me rio, não sou sério; se não me rio, sou um tipo rico que não gosta de fazer o melhor trabalho do mundo", desabafou, admitindo a paixão pelos automóveis - quanto mais excêntrico e tunning melhor - e a necessidade de amadurecer. "Não gosto quando falam sobre a minha vida ou sobre o que faço. Sou muito reservado. Alguns pensam que sou arrogante, mas não, sou mesmo assim. Mas não me importo: podem dizer o que acharem. Vou continuar a ser uma pessoa normal, a andar pela cidade e a frequentar bares, mas não para beber", garantiu.

Pelo meio venceu o Golden Boy (2010). Depois de agradecer a distinção, disse que só havia um jogador melhor do que ele: Lionel Messi. Ibrahimovic, Cristiano Ronaldo e todos os demais eram inferiores a ele...

A alcunha de Super-Mario e o racismo

À medida que crescia como jogador - foi campeão inglês e italiano - foi ganhando a alcunha de Super-Mario... mas até nisso houve polémica. O avançado publicou uma imagem da personagem de videojogos Super-Mario nas redes sociais com uma legenda que muitos consideraram conter estereótipos de cariz racista e antissemita. "Não seja racista. Seja como o Mario. Ele é um canalizador italiano, criado por japoneses, que fala inglês, parece um mexicano, salta como um negro e agarra em moedas como um judeu", escreveu, na altura, o internacional italiano, depois acusado de "conduta racista" pela Federação Inglesa. Balotelli pediu desculpa pelo comentário, garantindo que que se tratava de "uma mensagem de humor sobre o racismo", mas não se livrou de um jogo de suspensão e uma multa de 31 mil euros.

Sensível à questão do racismo - em 2012 foi capa da revista Times e revelou admiração pelo presidente dos Estados Unidos da América, Barack Obama -, ameaçou abandonar o relvado por causa de insultos vindos das bancadas por mais de uma vez. Em 2014, ao serviço do AC Milan, num jogo com o Nápoles, foi substituído e não conteve as lágrimas no banco de suplentes. Em Itália, as polémicas sempre tiveram menos repercussão do que em Inglaterra, tirando aquela vez que disparou um tiro de pistola, "como brincadeira", em plena Piazza della Republica, em Milão.

Depois de um primeiro renascimento no AC Milan, andou de clube em clube a tentar relançar a carreira. Jogou ainda no Liverpool, no Nice e no Marselha. A última aventura como profissional foi no Brescia, clube em declínio e de onde foi despedido por se recusar a treinar sem dar explicações. Os jornais italianos escreveram que o jogador faltou ao treino devido ao medo de covid-19, numa altura em que a região da Lombardia era a mais fustigada da Europa e estava de quarentena.

Em campo, o desempenho foi suficiente menos. Em 19 partidas marcou apenas cinco golos e viu a equipa descer de divisão. "Perdi muito com a aposta do Balotelli. Mario vive de acordo com as suas próprias regras. Você fala uma coisa, e ele faz outra ", disse o presidente do clube, Massimo Cellino, antes de rescindir o contrato.

Em Itália diz-se que só o facto de ser representado por Mino Raiola ainda lhe abre algumas portas. Seja como for, os amantes do futebol ainda hoje se perguntam por onde anda aquele jogador italiano que no Euro 2012 destruiu a poderosa Alemanha, quase sozinho, com dois golos em vinte minutos.

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