Sánchez sobe nas sondagens. Mas haverá um "cozinhar" de números?

Líder socialista nomeou um ex-dirigente do seu partido para a presidência do Centro de Investigações Sociológicas quando chegou ao poder e, desde então, sondagens põem o PSOE a subir, devido a uma alteração na forma como se olham para os números. PP fala em "puro lixo".

Menos de um mês depois de chegar ao poder em Espanha, Pedro Sánchez nomeou um novo presidente para o Centro de Investigações Sociológicas (CIS), um organismo público responsável pela realização de sondagens e pesquisas de opinião. O escolhido foi José Félix Tezanos, um membro do comité executivo socialista (entretanto já abandonou este cargo).

As críticas foram imediatas e só aumentaram com a saída das primeiras sondagens sobre intenções de voto, onde uma mudança nos cálculos - o centro diz que foram para deixar de "cozinhar" os números - levou a uma subida exponencial do PSOE face aos restantes partidos. Quatro meses depois, as críticas continuam, à saída de cada nova sondagem - que de trimestral passou também a ser mensal.

"O do CIS e de Tezanos é puro lixo demoscópico mais próprio de um país bananeiro do que de uma democracia ocidental. É parte da fábrica de fakes do governo que custa mais de 3,5 milhões de euros. O governo trapaça e mentiroso. Se fosse verdade, ZPedro teria convocado eleições já", escreveu no Twitter o porta-voz adjunto do grupo parlamentar do Partido Popular (PP), Rafael Hernando. "ZPedro" é a fórmula que usa para designar Sánchez desde julho e das concessões que considera que o primeiro-ministro fez aos independentistas catalães, comparando-as com as feitas durante os governos de José Luis Zapatero.

PSOE líder, Ciudadanos em segundo

Se as eleições fossem agora, de acordo com a última sondagem do CIS, o PSOE teria 31,6% das intenções de voto (mais 1,1 pontos percentuais do que no mês anterior), o Ciudadanos seria segundo com 21% (mais 1,4 pontos), o PP seria o terceiro e o único dos principais partidos a cair, com 18,2% (menos 2,6 pontos). O Unidos Podemos, junto com os seus outros aliados regionais, teria 17,3% (mais 1,2 pontos).

"A mudança consistiu em passar a reportar, como estimativa de intenção de voto, apenas a percentagem daqueles que dizem tencionar votar nalgum partido e, para os que não respondam a essa pergunta, presumir que votarão de acordo com a sua identificação/simpatia partidária", explicou ao DN Pedro Magalhães, investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

A sondagem foi feita no início de outubro, com entrevista a 2973 pessoas maiores de 18 anos. A margem de erro é de 1,8 pontos. Tendo em conta apenas os votos diretos, 21,7% dos inquiridos disseram que votariam no PSOE, 15,3% no Ciudadanos, 12,6% no PP e 12,1% no Unidos Podemos.

"Anteriormente, para além dos resultados ditos 'brutos', o CIS divulgava uma estimativa que tomava em conta vários outros elementos, incluindo a avaliação dos líderes e o partido que tinha votado em eleições anteriores, entre outros", acrescentou o especialista português em sondagens. "O impacto foi que a nova estimativa, em comparação com as anteriores mas também com as divulgadas pelos centros de sondagens, favorece bastante a posição do PSOE", indicou.

Em comparação, a sondagem Metroscopia de outubro para o grupo Henneo, divulgada no dia 22, coloca Sánchez com 25,2% das intenções de voto (menos 2,5 pontos percentuais que em setembro), com o PP em segundo, com 22,6% (menos duas décimas que no mês anterior). O Ciudadanos é terceiro, com 19,2% (menos 1,6 pontos) e o Unidos Podemos tem 17,7% (o único que sobe, com mais 2,6 pontos do que em setembro).

Polémica com o CIS

Desde a chegada de Sánchez ao governo e consequente nomeação de José Félix Tezanos que o instituto tem estado debaixo de fogo. De tal forma que o CIS respondeu em setembro às acusações, justificando-se.

"Com esta projeção evita-se isso a que se chama 'cozinhar' e que nem sempre se explica nem é entendido por aqueles que seguem a informação do CIS. Neste caso, o CIS recolhe o que opina e diz diretamente a população que participa na sondagem, sem nenhuma distorção nem reelaboração não explicada", indicou o centro num comunicado após as primeiras polémicas sobre o tema.

"A expressão 'cozinha' não tem necessariamente um sentido pejorativo", contou Pedro Magalhães. "Todos os dados que chegam são 'brutos' e há um conjunto de opções que se podem tomar para os tentar aproximar aos que seriam os resultados de uma eleição, se ela se realizasse nesse dia", explicou o investigador.

"Mostrar os dados em bruto, não 'cozinhar', é uma opção perfeitamente legítima. Mas 'cozinhar', é outra, desde que haja completa transparência, o que também não era exatamente o caso na anterior prática do CIS", refere o especialista em sondagens.

"E nenhuma opção é 'neutra': se eu optar simplesmente por tratar os indecisos como se não votassem, isso é uma escolha, uma pressuposição, é em si mesmo uma espécie de 'cozinha', mesmo que por omissão", explica. "O que o CIS faz agora é dizer que 'não cozinha' mas depois utiliza a simpatia pelos partidos para redistribuir indecisos, ou seja, afinal 'cozinha' um bocadinho. As coisas não estão claras", admite Pedro Magalhães.

"Não posso fazer um juízo de intenções aos responsáveis pelo CIS. Mas evidentemente que a mudança na direção, a mudança na metodologia e a mudança nos resultados coincidem, e isso gera desconfiança, mesmo que não justificada", conclui.

Segundo o El País, se o CIS tivesse usado a nova fórmula antes das eleições de 2018, os resultados seriam "surpreendentes e muito pouco acertados". Teriam previsto que o Unidos Podemos ganhava com 28% (quando obteve 21% e foi terceiro) e o PP ficava com 26% (quando na realidade foi o mais votado, com 33%). A soma de PSOE e Podemos seria de 52%, quando na realidade foi de 44%.

"Matar o mensageiro"

Tezanos já respondeu às novas críticas após a saída da sondagem de outubro: os partidos que não têm um bom resultado estão a "matar o mensageiro" em vez de tentar melhorar. "É normal matar o mensageiro, acontece muitas vezes quando alguém fica mal numa sondagem, em vez de reconhecer os erros ou melhorar", disse o presidente do CIS à RNE.

"Se dizem que a sondagem está mal feita, não se preocupem, vão conseguir mais votos do que acham", ironizou Tezanos sobre toda a controvérsia, alegando que a queda do PP está relacionada com a preocupação dos cidadãos com o ambiente de "crispação política", com os inquiridos a apontarem o dedo a Pablo Casado, assim como com a corrupção.

Na sondagem, quando questionados sobre que partido parece estar a contribuir para haver mais crispação em Espanha, 27,3% dos inquiridos responderam o PP (27,8% disseram os partidos independentistas e 21,6% indicaram que todos). E em relação a que líder é responsável por uma maior crispação política, 17,5% disseram Pablo Casado. E na questão sobre que partido é o mais afetado pela corrupção, 84,4% disseram PP.

"O que publicamos é exatamente o que dizem os cidadãos", acrescentou na entrevista à RNE, lembrando que se publicam os dados "puros" e que cada partido pode fazer as suas projeções. Tezano indicou ainda que há países, como por exemplo a Alemanha, em que é proibido "cozinhar" nas sondagens.

Regresso do tripartido?

Com os números desta sondagem, fala-se em Espanha de um eventual regresso do tripartido que governou a Catalunha entre 2003 e 2010, não só como resposta para a situação política nessa região mas também para garantir a continuação de um governo de esquerda em Madrid depois das próximas eleições.

Assim, a ideia seria Sánchez governar na Moncloa em aliança com o Unidos Podemos (já chegaram a acordo para aprovar o orçamento para 2019, apesar de precisarem de mais apoios) e a Esquerda Republicana da Catalunha (ERC). Isto após uma renúncia destes a uma declaração unilateral de independência e afastando este tema da agenda, marcando uma rutura decisiva com os outros independentistas. A ERC, na projeção do CIS, tem 4,3% dos votos - o que, tudo somado, garantiria uma maioria de 53,2%.

Por seu lado, neste cenário, a ERC governaria na Catalunha com o apoio dos socialistas catalães e das alianças do Podemos local (atualmente, a soma de todos não permite uma maioria). Entre 2003 e 2010, nos mandatos dos socialistas Pasqual Maragall e José Montilla, o governo catalão foi um tripartido com a ERC e dois partidos atualmente dentro do En Comú Podem, a marca do Podemos na Catalunha (Iniciativa per Catalunya Verts e a Esquerda Unida Alternativa).

Uma aliança com a ERC (que já indicou que sem maioria social não se pode continuar pela via unilateral) ajudaria a reforçar a divisão entre os independentistas catalães, que se tem vindo a aprofundar nos últimos meses e culminou na perda da maioria independentista no Parlamento catalão - face à decisão do Junts per Catalunya, do ex-presidente da Generalitat, Carles Puigdemont, de não nomear substitutos para os seus deputados detidos ou autoexilados. A ERC, cujo líder Oriol Junqueras está detido, resolveu nomear substitutos, para assim não perder esses votos.

Em relação a temas independentistas, Sánchez tem tido uma posição mais conciliadora do que a expressa anteriormente pelo governo do PP e de Mariano Rajoy, abrindo a porta ao diálogo e chegando a propor um referendo sobre autogoverno (não a independência).

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