Jeff Berlin: "Lucia Berlin estava à frente do seu tempo"

Jeff Berlin foi o responsável editorial pela recuperação da obra quase esquecida da contista Lucia Berlin. Em entrevista ao DN, o filho da escritora revela o processo de edição que trouxe a autora de volta e confessa quão difícil é agora editar para ele.

Anoitecer no Paraíso (ed. Alfaguara), coletânea de contos inéditos de Lucia Berlin, acaba de chegar às livrarias portuguesas. Jeff Berlin, um dos quatro filhos da escritora redescoberta em 2015 com a reedição do aclamado Manual para Mulheres de Limpeza (publicado em Portugal no ano seguinte), recorda ao DN ter descoberto que a mãe escrevia "histórias" quando tinha cerca de 6 anos. Em adolescente tornou-se a primeira pessoa a ler os seus trabalhos e, mais tarde, o editor da sua obra quase esquecida.

O Manual para Mulheres de Limpeza condicionou toda a sua escolha de novos contos para Anoitecer no Paraíso?

Não, na medida em que não usámos nenhuma daquelas histórias.

Ainda há textos para um novo livro ou as publicações terminaram?

Já só restam cerca de dez contos, por isso provavelmente não haverá outra coletânea, mas estamos a pensar divulgá-los como parte de uma série de romances gráficos. Há também duas ou três possíveis coletâneas de cartas diferentes que estão a ser consideradas/trabalhadas.

Considera que tanto Manual para Mulheres de Limpeza como Anoitecer no Paraíso foram uma reedição ou são mais uma primeira edição?

Não, não são reedições. Todas as suas histórias tinham sido previamente divulgadas como parte de coletâneas publicadas pela Black Sparrow (Godine), mas os livros da FSG são coletâneas diferentes desses contos.

Muito do interesse na reedição na obra de Lucia Berlin deve-se a uma ideia: "A melhor escritora de quem nunca ouviu falar." Concorda?

Não penso que seja essa a razão que leva os editores a decidir republicar a obra dela. É talvez uma coisa que eles podem usar como estratégia de marketing, mas penso que estão a editá-la devido à qualidade da escrita.

Porque não foi Lucia Berlin mais "famosa" no seu próprio tempo?

Penso que os seus temas estavam à frente do seu tempo. Os editores não queriam publicar conteúdos difíceis escritos por mulheres e sobre mulheres.

O facto de ser uma mulher a escrever principalmente sobre mulheres foi uma razão para não ser considerada na sua época uma escritora fundamental?

Sim, totalmente.

Os seus contos têm muito de autobiográfico. Essa realidade agrada-lhe ou incomoda-o quando os lê para preparar as edições?

Quando ela estava a escrever aquelas histórias e a publicá-las pela primeira vez, nós podemos ter ficado incomodados, mas agora já estamos habituados a isso. Sempre reconhecemos que ela é uma grande escritora.

Sentiu dificuldades no trabalho de edição quando os textos se misturavam com as suas memórias?

Não.

O que foi mais difícil no trabalho de edição destes "novos" livros?

Na verdade, nada.

Soube que a minha mãe escrevia "histórias" quando tinha cerca de seis anos e, mais tarde, quando era adolescente era frequentemente a primeira pessoa a ler o seu trabalho.

Este intenso trabalho de edição alterou aquilo que pensava dos textos da sua mãe?

Agora valorizo mais o papel que o "editor" desempenha em coletâneas de contos como estas.

Em criança ou adolescente tinha noção desse trabalho literário?

Soube que a minha mãe escrevia "histórias" quando tinha cerca de 6 anos e, mais tarde, quando adolescente, era frequentemente a primeira pessoa a ler o seu trabalho.

Acha que muito do prazer que os leitores têm sentido nesta redescoberta se deve ao facto de imaginarem o que é autobiográfico nestes contos?

Talvez, o facto de eles serem essencialmente verdadeiros é muito poderoso.

O facto de muitos dos textos estarem localizados em países e cidades "exóticas" como México e Chile torna-os diferentes da narrativa atual?

Penso que todas as suas localizações eram "exóticas" para a maioria das pessoas.

Se tivesse de definir um sentimento constante nos contos qual seria? Tristeza?

Pessoalmente não encontro nenhum sentimento constante, mas a haver decididamente não é a tristeza.

Uma escritora que aos 24 anos publica um conto na revista The Noble Savage, de Saul Bellow, não deveria ter tido outro sucesso?

Se está a sugerir que ela deveria ter tido mais sucesso a partir daí, então talvez esteja a sobrestimar o poder de The Noble Savage. Tenho a certeza de que eles publicaram muitos mais escritores que não ficaram famosos de um dia para o outro. Terei de analisar a revista e ver quem é que lá estava mais.

Concorda com as constantes comparações a Raymond Carver, por exemplo, mesmo que Berlin tenha dito "Eu escrevia como ele antes de alguma vez o ter lido"?

As comparações com Carver (e outros escritores) devem-se principalmente a críticos preguiçosos que imitam críticas antigas e material publicitário. A semelhança com Carver está no realismo e nos temas, mas eles são muito diferentes no estilo e no tom. A escrita de Carver não é muito engraçada ou empática, por exemplo, enquanto a de Lucia é, penso eu.

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