"É possível fazer teatro": Festival de Almada passou a prova com distinção

Diretor do festival que termina este domingo chama no entanto a atenção dos responsáveis da cultura para necessidade de "redimensionar" os apoios neste momento de crise.

"Correu muito bem. Agora já sabemos que é possível fazer teatro e é possível fazer um festival de teatro nesta nova situação." Há três semanas, quando arrancou mais uma edição do Festival de Teatro de Almada, o seu diretor, Rodrigo Francisco, não tinha dúvidas sobre isto mas sabia que tinha ainda de dar provas de que era possível: "Muitos festivais de verão foram cancelados por essa Europa fora, só na Península Ibérica se mantiveram e, por motivos de calendário, calhou-nos a nós sermos os primeiros. Foi um teste ao teatro", conta.

Com o festival a chegar ao fim este domingo (26 de julho) é possível dizer que o teste foi passado com distinção. "Quer do ponto de vista do comportamento do público, quer do ponto de vista dos artistas, tudo correu dentro das normas de saúde pública definidas", garante ao DN. Além disso, "a afluência do público foi elevada, esgotámos as assinaturas que colocámos à venda e também vendemos grande parte dos bilhetes que estavam disponíveis", diz este responsável. O festival terá tido cerca de 10 mil espectadores - muito longe dos 20 mil que costuma ter - o que corresponde à lotação possível das salas tendo em conta a necessidade de manter o distanciamento.

"O público de teatro deu uma lição de civismo", afirma Rodrigo Francisco.

O mesmo concluiu Javier Vallejo, crítico de teatro do jornal espanhol El País, que esteve em Almada no primeiro fim de semana do Festival e voltou a casa "muito esperançado". Participando numa mesa-redonda em Almagra, Espanha, Vallejo admitiu que ficou contente com a experiência em Almada: "É também para isto que serve o teatro, para que não nos esqueçamos que a normalidade normal é esta, e o interessante é voltar à normalidade normal e não a uma nova normalidade". "Eu saí dali a dizer é possível, vamos voltar à normalidade, ao mundo que conhecemos, com uma experiência, e uma dor, mas vamos voltar, porque aqui há um modelo e pode-se!".

Este ano, ao contrário do que é habitual, o festival contou com uma maioria de espetáculos nacionais e com a presença, na noite de abertura, do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e do primeiro-ministro, António Costa, em duas salas distintas - um reconhecimento também da importância da realização do festival num momento tão complicado como este que vivemos.

Apesar de tudo, Rodrigo Francisco faz questão de sublinhar que este festival só aconteceu porque foi organizado por uma companhia e contou com a participação de várias companhias independentes. "São artistas que organizam um festival para estar com outros artistas e com o seu público", diz. Não são gestores culturais nem programadores. "Isso é que fez toda a diferença." Para estes artistas o teatro é uma necessidade e n​​​​​ão pode parar.

O diretor do festival e da Companhia de Teatro de Almada deixa ainda um aviso ao Ministério da Cultura no momento em que se prepara o regulamento para os apoios a atribuir em 2021: "Com as lotações reduzidas a metade, as receitas de bilheteira também descem para metade. No nosso caso, que contamos muito com as receitas de bilheteira, o impacto dessa redução é muito grande", explica, sublinhando ainda o aumento das despesas com as novas regras de saúde.

"Isto preocupa-nos porque o apoio terá de ser redimensionado", sobretudo nesta próxima temporada onde todos vão tentar manter as programações que já estavam definidas e, ao mesmo tempo, encaixar os espetáculos que foram cancelados durante o período de confinamento. "O ano não estica, não podemos prolongar assim tanto as carreiras", avisa.

Esta noite, após a apresentação de Turismo pelo coletivo A Turma, com texto e encenaç​​​​​ão de Tiago Correia, no Teatro Municipal Joaquim Benite, o festival encerra, como habitualmente, com "esse ato de democracia que é eleição pelo público do Espetáculo de Honra, que irá voltar no próximo ano".

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