Primeiro suspeito com coronavírus em Portugal está em isolamento no Curry Cabral

O doente, que viajou da China, esteve em Wuhan, o epicentro da nova pneumonia, onde existe o maior número de casos. Resultado das análises laboratoriais deverão ser conhecidas na manhã de domingo. Número de vítimas na China sobre para 54.

A DGS informa que paciente se encontra em observação, em situação de isolamento, no Hospital Curry Cabral, que é o hospital de referência em Lisboa para as situações que envolvam adultos - no caso de crianças irão para o Hospital D. Estefânia.

A informação do primeiro caso suspeito de coronavírus (2019-nCoV) em Portugal foi avançada neste sábado em comunicado pela Direção-Geral da Saúde, divulgado na sua página oficial na internet.

Trata-se de um doente regressado hoje da China, que esteve nos últimos dias na cidade de Wuhan, na província de Hubei, a mais afetada daquele país, e onde há nesta altura o maior número de casos confirmados da nova pneumonia.

De acordo com a DGS, a sua situação clínica é estável, aguardando-se os resultados das análises laboratoriais em curso. Este tipo de análises demora algumas horas, pelo que os resultados só serão, provavelmente, conhecidos amanhã (domingo) de manhã. No entanto, ao início da noite a DGS publicou na sua página uma orientação para os profissionais de saúde quanto a procedimentos a ter em casos suspeitos.

No documento, a Direção-Geral da Saúde sublinha que "todos os serviços de saúde devem reativar os respetivos planos de contingência para infeções emergentes. O plano deve identificar, inequivocamente, áreas de isolamento disponíveis em cada estabelecimento (centros de saúde, clínicas e hospitais públicos, privados e do setor social)".

Nesta sexta-feira (ontem), a diretora-geral de saúde, Graça Freitas, confirmou que três casos suspeitos de viajantes procedentes da China não tinham sido validados.

"Tivemos três casos possíveis, um deles nesta noite e os outros ontem, de pessoas que tinham a preocupação, perante sintomas, e vindas da China. Esses casos não foram validados, não passaram pelo crivo médico e seguiram a sua vida normal", afirmou a responsável.

Graça Freitas sublinhou na altura que que os serviços de saúde "estão organizados para poder dar resposta à solicitação da Organização Mundial da Saúde, que é conter um possível caso que entre em Portugal, evitando a propagação para outros países"

A responsável sublinhou ainda que a capacidade das autoridades de saúde portuguesas para tratar casos "é boa, das melhores do mundo" e que é preciso "aguardar com tranquilidade a evolução do surto".

"Se o risco escalar teremos de escalar as medidas, mas isso é noutra etapa e nessa altura falaremos", acrescentou.

Portugal ativou na última quarta-feira os protocolos estabelecidos para este tipo de situações, reforçando no Serviço Nacional de Saúde a linha Saúde 24, através do número 800242424, e a linha de apoio médico, para triagem, a fim de evitar que em caso de eventual contágio as pessoas não encham os centros de saúde e as urgências, estando em alerta o Hospital de São João, no Porto, o Curry Cabral e o D. Estefânia, em Lisboa.

A Direção-Geral da Saúde recomenda ainda às pessoas que viajem para as regiões afetadas da China para que "evitem contactos próximos com pessoas que sofram de infeções respiratórias agudas", que "lavem as mãos com frequência" e que, no caso de apresentarem sintomas de infeção respiratória, procurem atendimento clínico e reportem ao médico a viagem realizada.

Progressão da doença acelerou na China

Numa corrida contra o tempo para tentar travar o rápido avanço da doença no país - o presidente Xi Jinping admitiu neste sábado que a sua propagação acelerou e que a situação "é grave" - a China isolou até agora 17 cidades, todas na província de Hubei, colocando de quarentena mais de 50 milhões de pessoas.

A par disso, estão a ser construídos a ritmo acelerado dois novos hospitais junto à cidade de Wuhan, onde tudo começou há cerca de um mês, que serão destinados exclusivamente ao tratamento dos doentes com a nova pneumonia.

O primeiro dos dois novos hospitais estará operacional a 3 de fevereiro, enquanto o segundo deverá abrir portas dentro de duas semanas, segundo as autoridades de saúde chinesas.

Ao início da noite de sábado, as autoridades chinesas fizeram novo balanço revelando mais 323 novos casos confirmados, 54 vítimas e 1610 casos no total. Uma das vítimas é um médico de 62 anos que cuidou de pacientes infetados com o novo coronavírus e que faleceu neste sábado.

A presença de cidadãos portugueses retidos em Wuhan está, entretanto, a ser acompanhada pelas autoridades portuguesas que admitem a possibilidade de os retirar da cidade.

"Estamos em contacto com os cidadãos e a cooperar com outros países europeus para procurar reforçar o apoio aos compatriotas portugueses retidos" em Wuhan, disse neste sábado à Lusa fonte do gabinete da secretária de Estado das Comunidades Portuguesas, Berta Nunes. Um dos cenários, adiantou a mesma fonte, é o de retirar os portugueses daquela cidade, "se isso for viável à luz das regras de saúde pública".

Fora da China, 14 países registaram já casos da nova pneumonia. A maioria na Ásia, entre os quais Vietname, Tailândia, Malásia, Taiwan ou Nepal, mas também na Austrália, Estados Unidos e França.

A confirmação dos primeiros dois casos em França, nesta sexta-feira, ocorreu apenas dois dias depois de o Centro Europeu de Controlo de Doenças ter considerado "moderada" a probabilidade de o novo vírus chegar à Europa.

Animais selvagens serão reservatório do vírus

A pneumonia viral é provocada por um novo coronavírus, anteriormente desconhecido da ciência, que os cientistas batizaram como 2019-nCoV.

A sua origem é ainda desconhecida. Sabe-se que o surto emergiu a partir de um mercado de venda de peixe fresco e marisco e outros animais vivos, incluindo espécies selvagens, como morcegos e cobras, e são estes sobretudo que estão na mira dos investigadores. O mais provável é que a fonte original do agente patogénico seja uma das espécies selvagens, mas ainda não se sabe ao certo qual.

Passando a infetar os seres humanos, o vírus tem potencial para sofrer novas mutações, tornando-se potencialmente mais virulento e perigoso. É possível que seja isso que está a acontecer. O longo período de incubação desta pneumonia, que parece ser de pelo menos 14 dias, também terá contribuído para que muitos casos tivessem passado despercebidos durante demasiado tempo, o que poderá ter favorecido o contágio silencioso.

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