Manel Cruz: "Sempre tive um medo imenso do palco"

Manel Cruz apresenta-se em concerto com Vida Nova, o primeiro álbum em que o antigo vocalista dos Ornatos Violeta assume o verdadeiro nome sem se esconder atrás de conceitos ou de alter egos.

Ornatos Violeta, Pluto, Supernada, Foge Foge Bandido ou Estação de Serviço foram alguns dos nomes atrás dos quais, acompanhado ou a solo, Manel Cruz sempre se escondeu. Até que finalmente no ano passado resolveu assumir um trabalho em nome próprio, Vida Nova, cujo título diz tudo sobre esta nova fase da carreira de um dos mais aclamados escritores de canções da música portuguesa. Lançado em abril do ano passado, foi considerado um dos melhores álbuns de 2019 e será brevemente reeditado, uma vez que a primeira edição esgotou em poucos meses. Pelo meio, porém, houve o regresso dos Ornatos Violeta, que percorrem alguns dos maiores festivais nacionais com o espetáculo comemorativo dos 20 anos do álbum O Monstro precisa de Amigos.

Passada a festa, é agora tempo de "regressar à vida normal", como Manel Cruz assume nesta entrevista ao DN, dias antes de regressar novamente aos palcos com um espetáculo em nome próprio - embora não a solo, uma vez que virá acompanhado dos músicos António Serginho (percussão, piano, xilofone), Eduardo Silva (baixo, voz) e Nico Tricot (piano). O ponto de partida será outra vez Vida Nova, que será tocado de "uma forma mais livre e orgânica", mas também haverá tempo e espaço para ir lá atrás, aos tempos de Foge Foge Bandido ou Estação de Serviço. E até para apresentar alguns inéditos, que poderão nunca mais existir para lá destes espetáculos, porque afinal o palco também tem de ser assumido pelos artistas como "um lugar de experiência".

Fazendo uma espécie de trocadilho com o título do seu disco a solo, Vida Nova, pode dizer-se que estes concertos representam o regresso à vida normal, depois do grandioso regresso dos Ornatos Violeta, no ano passado?
Sim, sem dúvida, a uma vida o mais normal possível. Até mesmo para mim, enquanto artista, é uma fase diferente, porque vou estar em palco acompanhado por uma banda composta por pessoas com quem também já toco há bastante tempo. Ou seja, não vou estar sozinho em palco, como já fiz noutras ocasiões.

E qual é a diferença destes concertos para os do ano passado, quando pela primeira vez apresentou Vida Nova ao vivo?
Esse espetáculo estava mais formatado com o Vida Nova, muito dependente de algumas sonoridades pré-gravadas no computador, exatamente para não nos afastarmos assim tanto do disco em palco, que prendíamos interpretar o mais fielmente possível. Agora voltamos a ter o Vida Nova como ponto de partida mas com total liberdade para o desconstruirmos e para nos desprendermos dele. Por isso vamos também pegar em grande parte do meu repertório a solo, desde o tempo do Foge Foge Bandido, coisas antigas que nem sempre toco ao vivo, dando-lhes novos arranjos. No fundo, queremos tornar o espetáculo mais físico e mais orgânico.

Tornando assim a experiência também diferente para o público, é isso?
Acima de tudo, é uma grande diferença para nós enquanto músicos, para o público sinceramente não sei. Mas é um espetáculo totalmente diferente do anterior, mais livre, se calhar é mais por aí...

Tinha necessidade de voltar a sentir essa liberdade, depois de um ano tão intenso, tanto em nome próprio como com os Ornatos Violeta?
Essas coisas são um pouco cíclicas. Por vezes queremos ter tudo muito impecável em palco, a soar de forma muito limpa e arrumada. E, quando finalmente se consegue isso, passado algum tempo já só apetece voltar outra vez àquela estática mais simples, da guitarra, do baixo e da bateria, de forma a voltar a descobrir algo novo na essência.

E nestes espetáculos vai também haver espaço e tempo para a novidade?
Sim, vamos apresentar alguns temas novos, também eles ainda à experiência, para tentarmos perceber se resultam. No fundo é isso, queremos assumir o palco também como um lugar de experiência, porque o público também gosta de sentir isso, que está a viver um momento único.

Mas por vezes isso pode ser arriscado para quem está em palco, ou não?
Sim, mas esse momento especial também ser criado através do desconforto do artista e, com o tempo, eu aprendi a lidar muito bem com esse fator, até porque a adrenalina também é uma parte importante do espetáculo...

E estar acompanhado de uma banda, de certa forma, também o defende desse desconforto, certo?
Acima de tudo, com a banda tenho um outro de tipo de diversão em palco, como quando somos crianças e vamos para o parque brincar com os amigos. Quando estou a solo sinto uma maior comunhão com o público, é uma experiência quase sociológica.

Em que sentido?
No sentido em que sempre tive um medo imenso do palco, de me expor assim aos outros, mas que entretanto perdi. E agora gosto de explorar isso, de deixar de lado esse medo do ridículo que sempre me afligiu.

Concertos de Manel Cruz
Teatro Tivoli, Lisboa. 29 de fevereiro, sábado, 21:30. Bilhetes: 13 a 25 euros
Teatro Sá da Bandeira, Porto. 2 de abril, quinta-feira, 21:30. Bilhetes: 12,5 a 20 euros

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