Duas tragédias da informação

No dia 8 de janeiro de 1815, as tropas britânicas que investiam contra Nova Orleães sofreram a sua mais pesada derrota nessa segunda guerra entre os EUA e a sua antiga potência imperial. Um conflito que os historiadores norte-americanos designam como a "Guerra de 1812". Embora seja sempre discutível, filosoficamente, falar na utilidade das guerras, a verdade é que nessa batalha os milhares de vidas perdidas ou mutiladas foram-no em vão. No dia 24 de dezembro de 1814, na cidade de Gante, a delegação de diplomatas enviada por Washington à Europa, em que pontificava o futuro presidente John Quincy Adams (1767-1848), conseguira chegar a um tratado de paz com os seus homólogos britânicos. Na altura, a informação viajava à velocidade do cavalo e do veleiro. A notícia de que a guerra havia terminado só chegou depois do fútil sacrifício no Louisiana.

Este episódio sangrento de Nova Orleães, que poderia ser acompanhado por milhares de outros na história humana até à invenção do telégrafo, ilustra bem a primeira modalidade da difícil relação da condição humana com a informação: a tragédia causada pela escassez ou a ausência de informação. Acredito que, em grande parte, o entusiasmo das Luzes setecentistas e as expectativas milenaristas que ela alimentava sobre os resultados da futura expansão universal do "esclarecimento" se ficam a dever à errada noção de que todas as desgraças que ocorriam na vida humana se deviam à falta de informação. A grande caixa-de-ressonância simbólica, que designamos como literatura, não cessa de nos dar exemplos abonatórios desta tese. Não foi criando um vazio informativo que Sófocles conduziu Édipo a matar seu pai e a casar-se com Jocasta, sua mãe? Teriam alguma vez Carlos da Maia e Maria Eduarda iniciado a sua relação amorosa, na obra maior de Eça de Queiroz, sem o manto de ocultação sobre a sua origem comum?

Hoje, na época do acesso à informação em tempo real, e sobretudo neste tempo em que se produzem em cada ano mais unidades de informação do que as produzidas em milénios no passado, somos obrigados a reconhecer que entrámos numa segunda modalidade: a da paralisia trágica por saturação de informação. O que nos poderia levar hoje a uma ação redentora - que estaria nos antípodas da ação trágica por falta de informação - seria a capacidade de processarmos, desbravando nos imensos e labirínticos caudais de informação bruta, as sementes laboriosas do conhecimento. O que implicaria exercer um juízo crítico, seletivo, capaz de estabelecer hierarquias e fundamentar escolhas. Só esse juízo disciplinado e exigente seria capaz de nos levar a algum lado no mundo real. Na verdade, no imenso frenesim digital das nossas vidas, a esfera da ação transformadora, que implica sempre modos de agir coletivo, arrisca afundar-se nos pântanos da entropia informativa. Hoje, Édipo não teria saído de casa. Teria navegado na sua rede social. Hoje as tragédias não residem tanto nos atos que cometemos, mas naqueles que consentimos por omissão.

Professor universitário

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