Nova Iorque tem 25 mil casos e arrisca tornar-se o epicentro da pandemia

Governador Andrew Cuomo, em contraste com o presidente Donald Trump, tem recebido elogios pelo trabalho que tem feito. Com quase dez vezes mais casos do que os outros estados mais atingidos, avisa que Nova Iorque é como "um canário na mina de carvão" e que a epidemia vai chegar a todos.

Os EUA tem o potencial para se tornar o novo epicentro da pandemia do coronavírus, alertou a Organização Mundial da Saúde, com o estado de Nova Iorque a ter mais de 25 mil casos e a cidade a ser o ground zero com quase 15 mil casos. O número de novos infetados está a triplicar a cada três dias. Mas o presidente norte-americano, Donald Trump, ele próprio um nova-iorquino, continua a defender que o país não pode continuar parado por causa do covid-19.

Segundo o balanço desta terça-feira do governador de Nova Iorque, Andrew Cuomo, há mais de 25 mil casos no estado de Nova Iorque, dos quais quase 15 mil são só na cidade. Em todo o país, o balanço na véspera apontava para 46 mil casos, com mais de uma centena de mortos em 24 horas, num total de 530. Destes, 157 eram no estado de Nova Iorque (152 na cidade). Nesta terça-feira, o balanço de mortes era já de 210 em todo o estado, indicou Cuomo.

No domingo, três semanas depois do primeiro caso ter sido detetado na região, esta representava já 5% dos casos a nível mundial, segundo as contas do The New York Times. E, de acordo com o governador, o número de novos infetados está a triplicar no estado a cada três dias.

Um porta-voz da Organização Mundial da Saúde disse nesta terça-feira que "estamos a ver uma grande aceleração" de casos de coronavírus nos EUA e alertou para o facto de o país ter o potencial de se tornar o novo epicentro da crise global. E neste cenário Nova Iorque poderá ser o ground zero (na terminologia nuclear, o ponto mais próximo da detonação).

A coordenadora da resposta ao coronavírus da Casa Branca, Deborah L. Birx, disse na segunda-feira que o "nível de ataque", isto é, a percentagem da população com o vírus, é de quase um por cada mil habitantes em Nova Iorque, cinco vezes superior ao que acontece noutras partes do país.

E este "nível de ataque" é já semelhante ao de Itália, o país mais afetado. No estado de Nova Iorque havia na segunda-feira cerca de 20 mil casos, ou 107 por cada cem mil habitantes. Em Itália, esse valor é de 106 por cada cem mil habitantes, numa altura em que os valores parecem já começar a diminuir. Na cidade de Nova Iorque, onde vivem 8,6 milhões de pessoas, o nível é de 605 por cem mil habitantes.

Segundo o The New York Times, a densidade populacional ajuda a explicar o porquê de o nível de contágio ser tão elevado. Vivem em Nova Iorque 28 mil pessoas por cada milha quadrada (pouco mais de 2,5 quilómetros quadrados), enquanto em São Francisco, a segunda cidade mais densa dos EUA, vivem 17 mil.

Cuomo vs. Trump

O governador democrata, Andrew Cuomo - que teme que cerca de 80% dos mais de 19,4 milhões de habitantes do estado apanhem o coronavírus - e o presidente da câmara, o também democrata Bill de Blasio, estão na linha da frente no combate à pandemia, mas o primeiro tem-se destacado, havendo nas redes sociais quem defenda que deveria ser o presidente dos EUA.

Nas conferências de imprensa diárias sobre o coronavírus, Cuomo tem anunciado medida atrás de medida para tentar travar a pandemia que está a atingir valores alarmantes, especialmente na cidade de Nova Iorque. Na sexta-feira deu ordens para todos os moradores ficarem em casa. No sábado disse que o estado ia enviar um milhão de máscaras N95 (de proteção acrescida) para a cidade. No domingo deu luz verde para a construção de quatro hospitais temporários por parte do exército. Na segunda-feira deu ordem para os hospitais aumentarem a sua capacidade em pelo menos 50%.

Segundo a rádio pública NPR, quem segue a política de Nova Iorque diz que a reputação de Cuomo de controlar tudo e ser até um pouco bruto foi sempre vista como negativa no passado. Mas num momento de crise tem ouvido elogios até de alguns críticos pelas suas ações ousadas.

"Dou por mim a ver os seus briefings diários porque me traz calma", segundo um comentário nas redes sociais de Cuomo. "Não vivo em Nova Iorque, mas os meus filhos vivem, por isso estou a fingir que você é o meu governador", escreveu outro, de acordo com um levantamento feito pelo Politico.

Ao contrário de Cuomo, o presidente da câmara da cidade de Nova Iorque, o também democrata Bill de Blasio, tem sido acusado de criar mais histeria - ao mesmo tempo que deixava muito a desejar em termos dos seus gestos. Na segunda-feira da semana passada, por exemplo, resolveu ir ao ginásio uma última vez quando as escolas já tinham fechado e os restaurantes se preparavam para o fazer. Blasio tem apontado também o dedo ao governo federal, defendendo a necessidade de um bloqueio a nível nacional - como já existe em Nova Iorque, na Califórnia ou no Illinois.

A resposta de Cuomo tem recebido elogios até da oposição, especialmente porque do outro lado está o presidente Trump. Nas suas conferências de imprensa desde a Casa Branca tem passado informação muitas vezes contrária ao que os médicos dizem e já chegou a proferir falsas informações.

Na segunda-feira, numa altura em que os números da pandemia não param de subir nos EUA, a mensagem de Trump foi para a necessidade de reabrir a América aos negócios, alegando que em breve será possível levantar algumas restrições, defendendo que a situação vai voltar ao normal mais cedo do que os três ou quatro meses de que se fala. As presidenciais norte-americanas, nas quais Trump procura a reeleição, estão marcadas para novembro.

E ainda nesta terça-feira escreveu no Twitter: "As nossas pessoas querem voltar ao trabalho. Elas vão praticar a distância social e tudo o resto, e os mais velhos vão ser vigiados de forma protetora e amorosa. Podemos fazer as duas coisas juntas. A curta não pode ser pior (de longe) do que o problema. O Congresso deve agir agora. Vamos voltar mais fortes!"

Na segunda-feira, e pelo segundo dia consecutivo, o Congresso chumbou um pacote de resgate económico de quase dois biliões de dólares, com os democratas a considerar insuficiente a proposta dos republicanos para proteger os trabalhadores.

"O canário na mina de carvão"

Foi no estado de Washington (não na capital, Washington DC) que o primeiro caso de coronavírus foi detetado nos EUA a 21 de janeiro, num homem que tinha regressado da China, mas Nova Iorque tem neste momento dez vezes mais casos do que Washington ou a Califórnia (nenhum deles chegava aos 2500 casos na segunda-feira). Em Nova Jérsia, vizinho de Nova Iorque, há cerca de 2800 casos.

Cuomo defendeu ontem que os 20 mil ventiladores que estão de reserva a nível federal devem ser entregues a Nova Iorque, que precisa deles urgentemente, e não ser distribuídos por todos. Lembrando que os diferentes estados vão ter diferentes picos de epidemia, diz que Nova Iorque - cujo nível atual de infeção é "o maior e o mais rápido" - precisa deles já.

O governador defendeu ainda que o que acontece agora em Nova Iorque vai acontecer depois nos outros estados, dizendo que Nova Iorque é "o equivalente ao canário na mina de carvão". Uma imagem para dizer que é o primeiro a sentir os efeitos desta epidemia. Cuomo disponibilizou-se para pessoalmente entregar depois os ventiladores ao próximo estado a ser afetado, quando Nova Iorque já tiver ultrapassado o pico (que prevê ainda demore duas a três semanas).

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