"Doland" Trump no "incrível" país do rei das tarifas

Dezassete horas de viagem e 36 de estada para uma receção de marajá é o balanço a meio da visita de Donald Trump à Índia. Negociações na agenda do segundo dia.

A Índia e os Estados Unidos vão assinar nesta terça-feira negócios de defesa avaliados em três mil milhões de dólares (2,77 mil milhões de euros), anunciou ontem Donald Trump. O acordo inclui 24 helicópteros antissubmarinos da Marinha, e vai ser discutido um escudo de defesa antimíssil no valor de 1,9 mil milhões.

Em 2016, os EUA designaram a Índia como "parceiro principal de defesa", e no ano passado os dois países assinaram um acordo para facilitar a transferência de armamento avançado e a partilha de comunicações militares encriptadas.

Depois de um dia em que esteve em Ahmedabad (Gujarat) e no mausoléu Taj Mahal (Uttar Pradesh) e no qual não se cansou de reagir com "incrível" e "fantástico", o presidente dos EUA segue para Nova Deli para um dia de trabalho.

Trump, cuja empresa familiar tem vários projetos imobiliários na Índia, vai passar a terça-feira numa capital da Índia com muitos projetos de construção parados devido ao arrefecimento da economia. Resta saber se o presidente dos EUA terá oportunidade de ver com os seu olhos o estado da cidade. Na véspera, a organização fez de tudo para vender uma imagem irreal da Índia, desde um muro erguido para ocultar um bairro de lata em Ahmedabad à limpeza ocorrida no Taj Mahal, em Agra, que incluiu o depósito de 17 milhões de litros de água no malcheiroso rio vizinho, o Yamuna.

Viagem mutuamente benéfica

A viagem do presidente norte-americano acontece num momento importante para os dois líderes se reafirmarem a nível interno. Para o primeiro-ministro Narendra Modi, a contestada lei da cidadania - horas antes de o presidente dos EUA chegar a Nova Deli, um polícia foi morto em confrontos num protesto sobre a referida legislação -, a forte desaceleração económica e a promessa de campanha por cumprir sobre a criação de emprego.

Para Donald Trump, as deslocações ao estrangeiro podem oferecer imagens e declarações poderosas para a campanha de reeleição. Enquanto o chefe de Estado está a ser saudado por multidões, os candidatos às primárias do Partido Democrata estão em fogo cruzado entre eles. Um passeio no qual se afasta das querelas políticas e das controvérsias em torno da sua gestão, e onde é recebido com toda a pompa e circunstância, é um bónus para o qual vale a pena arriscar uma dieta sem carne - ou quase. Segundo a NDTV, o banquete oferecido pelo presidente Ram Nath Kovind a concluir a visita inclui perna de borrego.

Mas, antes do banquete, Trump e Modi vão ter negociações que se esperam prolongadas. No ano passado, os EUA revogaram o estatuto comercial privilegiado da Índia. Donald Trump chamou à Índia "rei das tarifas".

As tensões comerciais entre os dois países aumentaram quando a administração norte-americana impôs tarifas ao aço e ao alumínio da Índia. Trump queixa-se, como já o fez com a China, com a União Europeia, o Canadá e o México, das condições de comércio da Índia. "Atingiram muito, muito duramente [os EUA] por muitos, muitos anos", disse. A Índia respondeu com tarifas mais altas sobre produtos agrícolas, como as amêndoas, e restrições aos dispositivos médicos norte-americanos. Em retaliação, os EUA retiraram a Índia do já referido estatuto comercial preferencial.

O negociador duro e "Doland"

Na véspera, no estádio Motera, em Ahmedabad, perante cem mil pessoas, Trump expressou otimismo sobre a possibilidade de um acordo comercial, mas também comentou sobre Modi que é um negociador difícil: "Toda a gente o adora, mas digo-vos isto: ele é muito duro."

Além do tratamento de exceção que Trump recebeu e da troca de elogios pessoais e aos respetivos países, há por trás dois nacionalistas que não querem ceder. É esperado, se as negociações correrem pelo melhor, que assinem pequenos acordos abrangendo produtos como as motos Harley-Davidson e os laticínios norte-americanos.

Mas outras preocupações que envolvem as empresas norte-americanas relacionam-se com os planos de Nova Deli em obrigar as empresas estrangeiras a armazenar os dados pessoais dos consumidores indianos dentro do país.

"Estamos nos estágios iniciais das discussões para um acordo comercial incrível", disse Trump no discurso de 27 minutos, no qual foi anunciado por Modi como "Doland Trump". Em troca, Trump também não conseguiu dizer o nome da cidade em que estava, Ahmedabad (no estado natal de Modi, Gujarat), que passou a Ahbabard. No seu elogio à cultura local, Trump teve também dificuldades em dizer os nomes indianos. Só dois exemplos: o famoso jogador de críquete Sachin Tendulkar passou a ser Soo-chin Tendul-kerr; e, ao lembrar que Narendra Modi é filho de um vendedor de chá, chaiwala, disse "chiwala".

"A América ama a Índia. A América respeita a Índia e os Estados Unidos serão sempre amigos fiéis e leais ao povo indiano", disse Trump à multidão, que, em parte, não resistiu ao calor e foi saindo durante o discurso do presidente. Muitos fizeram fila desde as 04.00 da madrugada para entrar no evento Namaste Trump, a retribuição de Modi ao Howdy Modi, que juntou 50 mil pessoas em Houston no ano passado, e no qual Trump comparou Modi a Elvis Presley.

Trump prestou homenagem aos quatro milhões de indianos-americanos (parte deles generosos contribuintes da campanha do republicano) como "pessoas verdadeiramente especiais" e chamou a Modi "verdadeiro amigo". Em troca, Modi disse que a visita "abre um novo capítulo no relacionamento - um capítulo que documentará o progresso e a prosperidade do povo da América e da Índia", disse Modi.

Já sobre a segurança e defesa, EUA e Índia estão quase em sintonia ao partilharem o objetivo de contrabalançar a ascensão da China. Modi e Trump devem assinar uma série de acordos de defesa e discutir o fornecimento de seis reatores nucleares.

Há contudo uma pedra no sapato chamada Rússia. Moscovo continua a ser o maior fornecedor de armas da Índia, tendo a Índia concordado em comprar o sistema de defesa antimísseis S-400, no valor de 5,4 mil milhões de dólares, apesar da ameaça de sanções de Washington.

Outro desacordo geopolítico envolve o Irão, com os EUA a pressionarem a Índia a parar de comprar petróleo iraniano.

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