No final do verão passado era bem de manhã na Califórnia, em San Francisco, quando por obra e graça do Zoom, o DN recebe via aberta para participar na conferência de imprensa do grande acontecimento do ano da Disney, Soul - Uma Aventura com Alma, a história de um músico de jazz negro que, enquanto está numa cama de hospital entre a vida e a morte, a sua alma está a tentar voltar do lado do além. Um exclusivo que em si mostra os sinais dos tempos: Pete Docter e Kemp Powers estão separados e não vêm os jornalistas de todo o mundo. Mais, em vez do dedo no ar, as perguntas são colocadas num "chat" e o moderador vai escolhendo uma a uma. Antes, um processo de segurança impressionante para as imagens que nos chegaram em primeira mão não fossem pirateadas: códigos e mais códigos e o nome deste jornalista em marca de água no topo do ecrã (Soul Tendinha, neste caso... ) Depois, o marketing da Pixar mostra-nos algumas imagens do processo de feitura do filme e um pequeno documentário onde os cineastas explicam a dificuldade em criar uma história passada nas burocracias do céu e em que as personagens principais não têm corpo, por muito que lenda refira que uma alma pesa 21 gramas..Num ano onde Onward - Bora Lá, a outra delícia da Pixar já tinha sido um dos êxitos globais mais salientes (estreou um pouco antes do pesadelo covid-19...), chega então agora na Disney + um filme pensado para o grande ecrã. Na altura, Pete Docter contava-nos que era importante que esta fábula estreasse nos cinemas, que era um filme bom para motivar quem estivesse a sofrer com esta pandemia. Não imaginava que fosse o segundo grande blockbuster a ir para o streaming logo após Mulan. E Soul pedia mesmo cinema. É um filme cujo imaginário do espaço do além (ou da morte...) tem um tratamento artesanal, paredes-meias com um sopro de vanguardismo que dispensa lugares comuns e que acredita que o público, mesmo o infantil, alinha nas personagens dos controladores de almas e no carácter "simples" destes desenhos. Tal como Divertidamente, fica-se com uma sensação que na Pixar, nesta altura, começa a haver cada vez mais espaço para um carácter exploratório, tanto na maneira de conceber a direção artística como no espaço da arte de contar uma história. E fazem-no com risco, sim - pode não ser fácil dizer a uma família para ir ver um filme que tem personagens a dizer que o jazz deveria chamar-se "música negra improvisada" ou que o protagonista está prestes a ficar uma alma perdida no grande buraco negro da morte - mas também com o habitual sentido de diversão: Soul tem os momentos de humor mais inspirados que vimos este ano num filme americano.."Estamos sempre a tentar viver o mundo atual e este filme é uma prova disso. Se o filme tem um protagonista negro, o primeiro das nossas animações? Ora, estamos a representar uma parte da população americana que não tem tido muita exposição no mundo da Pixar e isso deixa-nos felizes", começou por referir o realizador ao responder a uma pergunta de um jornalista americano e prosseguiu: "era importante também que esta história não seguisse as regras de um musical, por muito que incorpore música. Queríamos muito que o filme tivesse uma pegada realista, mesmo sendo realmente uma animação. Tudo é uma invenção, mas queríamos que o mundo real fosse mesmo diferente do mundo etéreo"..Segundo os magos da Pixar, Soul - Uma Aventura com Alma teve ao longo dos anos variadíssimas encarnações: desde passar-se inteiramente no mundo das almas e o complô ser um golpe até ao facto do herói não ser um músico mas sim um ator. O que nunca mudou foi a questão desta história lidar com a alma de cada um como entidade independente..YouTubeyoutube2hhpQOcdvi8.Uma das coqueluches do filme é a sua partitura composta por Trent Reznor, dos Nine Inch Nails, e Aticus Ross, dupla que tem feito furor nas obras de David Fincher. Quem pensava que tal não poderia acontecer numa animação, desengane-se. Os dois músicos criaram um som altamente sofisticado e com cambiantes dramáticas que tornam tudo mais complexo. Naquelas cenas em que o mundo está a a ficar comovido, parte da culpa é também destes dois e é Pete Docter quem concorda mais: "quando o nosso realizador nos propôs o Trent e o Aticus achei que era uma ideia demasiado louca, como é que poderia resultar!? O tempo passou e continuámos intrigados com essa ideia, estávamos sempre a pensar nessa maluqueira até que decidimos ir ter com eles e percebemos que ambos tiveram uma ligação forte com o projeto. Trouxeram algo pesado para o filme, pesado e cool. Depois, fomos obrigados a trabalhar de forma diferente. Com os outros compositores, acabamos a montagem do filme e eles compõem por cima, desta vez não: eles começaram a desenvolver temas enquanto imaginávamos sequências. Das toneladas de músicas que nos enviaram, acabámos por escolher coisas que eram perfeitas para aquilo que queríamos. Foi realmente sensacional!"..Se um dos momentos mais fascinantes desta história é a "zona", altura onde as pessoas (ou aquilo que resta delas depois de abandonarem o mundo dos vivos) estão num estado de criação que as distancia das realidades terrestres, o realizador e argumentista Kemp Powers explica qual é a sua "zona": "sou sobretudo um escritor e durante o processo vou contra muitas barreiras. Só quando começo a ganhar embalagem é que me consegui imaginar na minha "zona". Ao escrever sinto que estou a tocar um instrumento e aí deixo de ser eu. Nada me faz distrair...".Ao despedir-se, antes de desligarem o botão do Zoom, Pete Docter avisa: "este filme poderia ser mais simples, mas nós quisemos colocar o nosso carimbo, o nosso visual". E fizeram-no bem, a Pixar tem de novo uma animação que poderá fazer sensação nos Óscares: ser nomeado para melhor filme e melhor animação.