Premium Um sexo, dois sexos, todos os sexos

Como é que as convulsões contemporâneas da sexualidade se reflectem no mundo das imagens? A esse propósito, vale a pena descobrirmos o universo da cantora escocesa SOPHIE.

Fenómenos sociais e simbólicos como o movimento #MeToo, a par do julgamento, por crimes de natureza sexual, de personalidades como Harvey Weinsten, têm estado a alterar a paisagem social em que vemos, vivemos e pensamos a sexualidade. A ponto de ser claro que a defesa, intransigente e prioritária, da igualdade de géneros não esgota as questões que a conjuntura envolve.

Simplificando, lembremos apenas que, em certos domínios artísticos, encontramos exemplos de criatividade que nos recordam que as regras de equilíbrio entre "um" sexo e "outro" sexo, sendo necessárias, não serão suficientes para compreendermos tudo aquilo que, do plano social ao domínio fantasmático, está em jogo.

Afinal de contas, lembrando apenas o cinema, só mesmo por distracção ou indiferença poderemos supor que a pluralidade de "todos" os sexos é um assunto dos nossos dias. Para nos ficarmos apenas por dois exemplos emblemáticos, veja-se, com olhos de ver, filmes como Rebecca, de Alfred Hitchcock, ou O Criado, de Joseph Losey - o primeiro é de 1940, o segundo de 1963. Não se trata de criar um top de "temas" ou "personagens", mas sim de lembrar que, muitas vezes, o discurso artístico antecipa e supera a complexidade (sexual ou "apenas" afectiva) que, em determinado, surge reflectida no domínio legal ou legislativo.

Vale a pena, assim, ver e escutar as propostas da cantora escocesa Sophie Xeon, que usa o nome artístico SOPHIE (assim mesmo, escrito com maiúsculas). O seu álbum de estreia, Oil of Every Pearl's Un-Insides (ed. Future Classics), teve como primeira bandeira visual o teledisco de It's Okay to Cry.

Para além da integração de sinais de uma iconografia LGBT, creio que importa sublinhar a dimensão física da performance. Dito de outro modo: numa altura em que proliferam os corpos digitais, SOPHIE apresenta-se na simples verdade do corpo - verdade física, entenda-se. Não é um símbolo, não é uma bandeira, apenas um ser humano na sua irredutível singularidade.

Dir-se-ia que, com outro teledisco, Faceshopping, SOPHIE apostou em criar uma assumida contradição visual - agora, a manipulação digital é a regra de ouro.

Neste caso, a performance é vivida como uma sofisticada arte de manipulação das formas. Com uma componente que está longe de ser secundária: a intérprete surge tocada (apetece escrever: contaminada) pelas formas e objectos do próprio consumo. E não deixa de ser saborosamente irónico que isso aconteça num tempo social em que, apesar da mercantilização de quase tudo, assistimos ao desaparecimento da expressão "sociedade de consumo" (essencial nas convulsões políticas e filosóficas dos anos 60). Enfim, que tudo isto se diga por música, eis o facto que importa celebrar.

Escreve de acordo com a antiga ortografia

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