"Seria fatal ver a Europa como uma espécie de Alemanha em ponto grande"

Detlef Gütler, investigador alemão no Instituto Gottlieb-Duttweiler, na Suíça, fala da situação da União Europeia e da Alemanha um ano depois das eleições que deram um quarto mandato a Angela Merkel, ainda que na liderança de uma frágil Grande Coligação CDU/CSU-SPD.

Investigador em futurologia e jornalista na área da economia, Detlef Gütler vai estar em Lisboa, no dia 26, para participar numa conferência sobre a Europa no Goethe-Institut.

O tema do debate, que se insere no ciclo Quo Vadis Europa?, é "A Atualidade de Karl Marx na Era Digital". Além de Gütler, participam o historiador e comentador político português José Pacheco Pereira e o sociólogo e escritor alemão Mathias Greffrath.

Qual a relevância do intérprete da primeira revolução industrial hoje, 150 anos depois, na que é considerada a quarta revolução industrial? Conseguirão as obras da época explicar o capitalismo digital atual? Um capitalismo em que as tecnologias digitais transformam profundamente o trabalho e a produção, e em que as "cinco grandes" empresas de Silicon Valley dominam cada vez mais o mercado global? Como é que esta grande concentração de capital financeiro afeta duas sociedades e economias tão diferentes como Portugal e a Alemanha? E quais as consequências para o futuro da Europa? Estas são algumas das perguntas a que tentarão responder os três oradores.

Em entrevista antecipada ao DN, por e-mail, Detlef Gütler considera que o maior desafio para a UE é, atualmente, Vladimir Putin. Considera que não haverá uma solução de bastidores para o brexit. E afirma que o ministro do Interior, líder da CSU e parceiro de coligação de Angela Merkel, Horst Seehofer, está numa espécie de "missão kamikaze" à qual é muito difícil de reconhecer qualquer tipo de lógica.

Vem a Lisboa participar numa conferência sobre a Europa. Qual é, do seu ponto de vista, o maior desafio da UE?
Numa palavra apenas: [Vladimir] Putin. A Rússia ameaça a integridade territorial, a força económica, o tecido social e o sistema político da União Europeia. Uma Europa unida e forte deverá ser capaz de fazer face a este desafio. Mas ainda não chegámos lá.

Em 2011, publicou o livro Sorry, I'm German! [Desculpem, Sou Alemão!], no qual diz: "A Alemanha traçou um caminho que penso que vai levar a uma Europa baseada no modelo alemão, mas é muito mais provável que cause a destruição da União Europeia." Acha, por isso, que a supremacia alemã é uma coisa má?
A Alemanha é o país da UE com mais população e com a economia mais forte. Então, sem dúvida, a Alemanha deveria e irá desempenhar um papel importante na política da UE. Mas seria fatal ver a Europa como uma espécie de Alemanha em ponto grande. Há diferentes culturas políticas e económicas na Europa e esta diversidade não pode ser vista como um defeito mas como uma característica da UE. O "euro" não é um sinónimo de "marco alemão", é sim uma moeda completamente diferente, a Europa não pode ser entendida como 27 alemanhas que apenas diferem no tamanho. Durante a crise da dívida, que começou em 2009, os países do norte da Europa forçaram o sul a agir mais como eles. É justo. Mas é apenas metade da solução. Ainda precisamos de alguém que obrigue o norte a agir um pouco mais como os países do sul - menos parcimonioso e mais impulsivo.

As políticas de Angela Merkel em relação aos refugiados e migrantes foi um erro? Ou, por outro lado, se tivermos em conta a demografia da Alemanha, essas políticas poderão acabar por revelar-se uma boa ideia?
O raciocínio a longo prazo de Merkel para uma política de porta aberta desde setembro de 2015 é bom e válido. Uma Europa forte precisa de boas relações baseadas em confiança mútua com os seus vizinhos do Médio Oriente e de África. A próxima geração de líderes nesses países sentiu e viu que a Europa se importa com o que está a acontecer à sua volta. Bem, nem sempre da forma mais perfeita, mas melhor do que qualquer outro [bloco] no mundo. Contudo, Merkel cometeu dois erros crassos: em setembro de 2015 não comunicou ou cooperou com os outros líderes europeus - o que fez foi, sobretudo, tomar uma decisão alemã e depois não conseguiu torná-la uma decisão europeia. Meses depois de setembro de 2015, não conseguiu produzir o sentimento de responsabilidade partilhada na Alemanha. Ela disse várias vezes "Wir schaffen das" [Vamos conseguir fazer isto], mas nunca construiu nenhum tipo de visão partilhada para enfrentar este desafio.

Passou um ano desde as eleições na Alemanha. Merkel venceu, mas foi obrigada a formar uma nova Grande Coligação CDU/CSU-SPD. A AfD foi o terceiro partido mais votado e entrou no Bundestag. Quão real e perigosa é a ascensão da extrema-direita na Alemanha?
É real, sim. E é mais uma prova da desintegração das sociedades ocidentais. Pessoas que, fisicamente, são vizinhos, parecem viver em mundos completamente diferentes. Isso pode ser visto entre os brexiteers e os remainers no Reino Unido, entre os fãs e os inimigos de Donald Trump nos EUA e entre eleitores de partidos populistas por toda a Europa. Não vejo a AfD como um perigo específico para a democracia na Alemanha - mas vejo a ascensão da extrema-direita como um perigo para democracia na Europa.

A Alemanha abriu uma investigação à fuga de informação que levou à publicação do mandado de captura contra um suspeito iraquiano de esfaqueamento, a qual desencadeou, por sua vez, protestos anti-imigração em Chemnitz. Isso significa que há apoiantes de extrema-direita entre as forças policiais alemãs?
Neste caso, o responsável pela fuga de informação é um guarda prisional, não um polícia. Mas, de facto, muitos membros das forças militares e policiais são simpatizantes da AfD. Isso não é invulgar: partidos à direita tendem a favorecer as políticas de lei e ordem e isso é mais apelativo para os agentes das forças de segurança do que as políticas socialistas e liberais. No entanto, não acho que a ação da polícia alemã esteja especialmente enviesada - pelo menos por agora.

Horst Seehofer, o líder da CSU, está pressionado por uma eventual subida da AfD na Baviera nas eleições de 14 de outubro. Ameaçou por exemplo demitir-se por causa das políticas de migração. Acha que ele tem realmente o poder de enfraquecer o governo de Merkel?
A política de montanha-russa de Seehofer tem, de facto, enfraquecido o governo de Merkel e o seu próprio partido: a CSU. Está no horizonte uma derrota nas eleições de outubro. Um partido que pertence ao governo, mas age como se fosse parte da oposição, obviamente que não atrai eleitores - antes os retrai. Ainda luto por compreender alguma lógica por trás desta missão kamikaze.

Olhando para o que se passa nos países europeus, como Hungria, Itália, Áustria ou Polónia, por exemplo, qual lhe parece que vai ser a percentagem de eurodeputados populistas e de extrema-direita no próximo Parlamento Europeu que sair das eleições de maio de 2019?
É muito cedo para prever. Se grupos de extrema-direita, como a Liga Norte em Itália, o FPÖ na Áustria e a AfD na Alemanha, conseguirem ser desmascarados como a V Coluna da Rússia, como grupos que minam a Europa a partir de dentro, podem mesmo cair no esquecimento.

No dia 29 ficarão a faltar seis meses para o brexit. Irá mesmo acontecer? O que acha?
Se todos continuarem a comportar-se como antes, o brexit é inevitável. Será prejudicial para a UE, mas muito mais para o Reino Unido. O voto pelo brexit pode ter sido uma decisão estúpida, mas há várias decisões estúpidas e a verdade é que a vida continua. Então, assim seja. Acho que não haverá uma solução de bastidores para manter o Reino Unido na UE - a única hipótese é uma solução às claras. Se, por exemplo, acontecesse algo grande, grave e alarmante o suficiente de forma a provar que a Europa está melhor unida, então a UE e o Reino Unido poderiam reunir-se por causa desse desafio ou inimigo comum. E o brexit desapareceria simplesmente.

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