Imunidade de grupo. Modelo sueco posto em causa

Lares de idosos e bairros de imigrantes são especialmente atingidos. Há mais de 2 mil mortos e especialistas estão contra a política do governo.

A Suécia declarou o novo coronavírus como um "perigo para a sociedade" no dia 1 de fevereiro, mas as medidas tomadas são das mais relaxadas, com uma forte aposta na responsabilidade individual e na imunidade de grupo. Mas perante o crescimento do número de infetados e de mortes (duplicou em nove dias, tendo ultrapassado a barreira dos 2 mil) há quem ponha em causa a estratégia sueca.

As únicas restrições impostas pelo país escandinavo, com mais de 10 milhões de habitantes, são o encerramento de escolas secundárias e universidades, a proibição de reuniões de mais de 50 pessoas e de visitas a lares de idosos. E foram tomadas no final de março.

Em contraste com os países vizinhos que adotaram restrições, a Suécia continuou a socializar e a economia, no geral, continuou de portas abertas. O governo não impôs um confinamento à sua população, antes apelou às pessoas para que agissem de forma responsável e aplicassem o distanciamento social.

Os suecos têm tradicionalmente elevados índices de confiança nas instituições bem como uma cultura arreigada de individualismo e de confiança na autodisciplina, pelo que as indicações foram bem recebidas.

Esta política deve-se à Agência de Saúde Pública e a Anders Tegnell, o epidemiologista chefe da agência que antes da pandemia era desconhecido do cidadão comum. E agora é visto ora como um herói ora como um irresponsável, dependendo dos grupos criados nas redes sociais de apoio ou de contestação.

Esta abordagem tem suscitado críticas. Bo Lundback, professor de epidemiologia na Universidade de Gotemburgo, fez parte de um grupo de 22 investigadores que publicou uma carta aberta ao governo, instando-o a reconsiderar a sua abordagem. À AFP afirmou que o país está "mal ou mesmo nada preparado".

Para Hans Bergstrom, antigo diretor executivo do diário Dagens Nyheter, o governo limitou-se a seguir a tradição da independência dos institutos públicos, confiando no epidemiologista chefe da Agência de Saúde Pública. "Tegnell abordou a crise com o seu próprio conjunto de convicções fortes sobre o vírus, acreditando que este não se propagaria a partir da China e, mais tarde, que seria suficiente para rastrear casos individuais vindos do estrangeiro", escreveu para o Project Syndicate.

Explica que no fim de fevereiro, quando milhares de suecos regressavam dos Alpes italianos, estes foram aconselhados a regressar ao trabalho e à escola, caso não estivessem visivelmente doentes, mesmo que os membros da família estivessem infetados.

"Tegnell argumentou que não havia sinais de transmissão comunitária na Suécia e, por conseguinte, não havia necessidade de medidas de mitigação mais gerais. Apesar da experiência da Itália, as estâncias de esqui suecas permaneceram abertas", continuou o atual professor de Ciência Política na Universidade de Gotemburgo.

Imunidade de grupo

"Nas entrelinhas, Tegnell indicou que a fuga às políticas draconianas para impedir a propagação do vírus permitiria à Suécia alcançar gradualmente a imunidade de grupo. Esta estratégia, sublinhou, seria mais sustentável para a sociedade", conclui Bergstrom.

O epidemiologista sueco Johan Giesecke foi mais explícito quanto ao modelo a seguir. Em entrevista ao site UnHerd destacou que o importante da "estratégia é proteger os velhos e os frágeis", mas ao mesmo tempo que classificou o vírus como um "tsunami", não se mostrou preocupado com a sua gravidade, estimando que metade da população da Suécia pode já ter tido covid-19.

Giesecke, conselheiro do diretor da Organização Mundial de Saúde, é da opinião que a maioria das mortes causadas pelo vírus ocorre entre aqueles que estão mais próximos da morte, pelo que, na realidade, "tira meses das suas vidas". O epidemiologista prevê que a taxa de mortalidade acabe por se aproximar da de "uma época grave de gripe", cerca de 0,1%.

Neste momento, porém, os dados mostram uma realidade diferente. Em comparação com os países vizinhos, a mortalidade é superior. Na quinta-feira a Suécia atingiu 2 021 mortos, Dinamarca conta 394 mortos, a Noruega 191 e a Finlândia 172, sendo que todos estes países têm populações na casa dos cinco milhões de habitantes, cerca de metade da Suécia.

Giesecke disse que a imunidade de grupo, que se alcança quando 60 a 70% da população teve o vírus e desenvolveu anticorpos, não era um objetivo da política, mas uma consequência.

À norte-americana CNBC, Anders Tegnell disse que a imunidade de grupo vai ser uma realidade. "Em grande parte da Suécia, nos arredores de Estocolmo, atingimos o planalto (em novos casos) e já estamos a ver o efeito da imunidade de grupo e dentro de algumas semanas veremos ainda mais os efeitos disso."

Lares são foco de infeção

Uma preocupação especial tem sido as políticas destinadas a proteger os mais vulneráveis. O governo recomendou que as pessoas com mais de 70 anos evitem o contacto com outras pessoas e que a restante população se abstenha de visitar os mais velhos.

No início de abril, as autoridades afirmaram que cerca de 40% das mortes na região de Estocolmo, o epicentro da epidemia no país, podem ser atribuídas a lares de idosos. Agora, Tegnell afirma que 50% do total de óbitos dão-se em lares.

A proibição das visitas aos mais velhos não terá sido acompanhado de medidas de proteção. Ao The Observer, Magnus Bondesson, que tem a mãe num lar de Upsala, disse que durante a chamada de vídeo que efetuou não viu os funcionários com material de proteção. "Quando voltei a ligar alguns dias depois, interroguei a pessoa que estava a auxiliar, a quem perguntei porque não usavam máscaras, e ele disse que estavam apenas a seguir as orientações."

Perante o aumento de óbitos em lares de idosos, o primeiro-ministro Stefan Löfven reconheceu a "situação grave" e deu instruções para a melhoria das condições de proteção e para que se efetuassem inspeções.

Segundo o último relatório do Global Age Watch, datado de 2015 e com 96 países envolvidos, a Suécia é o terceiro melhor país do mundo na qualidade de vida para os idosos. Mas este surto nos lares de idosos é um duro golpe.

"Têm de admitir que é um enorme fracasso, uma vez que sempre afirmaram que o seu principal objectivo é proteger os idosos", considerou Lena Einhorn à edição dominical do Guardian. "Mas o que é realmente estranho é que eles ainda não reconhecem a via provável. Dizem que é muito lamentável, que estão a investigar e que é uma questão de formação do pessoal, mas não vão reconhecer que a propagação pré-sintomática ou assintomática é um factor", concluiu.

"As autoridades suecas só gradualmente tomaram consciência da possibilidade de transmissão assintomática e de que os indivíduos infetados são mais contagiosos antes de começarem a apresentar sintomas", aponta Hans Bergstrom. O ex-diretor do Dagens Nyheter diz que esse é um dos três erros da abordagem sueca, sendo os outros o facto de haver em qualquer sociedade pessoas que não cumprem as indicações das autoridades e não ter sido tomado em conta a atual composição da sociedade.

Imigrantes são outro grupo de risco

Bergstrom recorda que neste momento 25% dos suecos são de origem não sueca, percentagem que é superior em Estocolmo. "Os imigrantes da Somália, Iraque, Síria e Afeganistão estão altamente representados entre as mortes causadas pelo covid-19. Isto tem sido atribuído, em parte, à falta de informação nas línguas dos imigrantes. Mas um factor mais importante parece ser a densidade das habitações nalguns subúrbios de imigrantes, reforçada pela maior proximidade física entre gerações", nota.

Ahmed Abdirahman, assessor da Câmara de Comércio de Estocolmo para as políticas de integraçãa, acrescenta outra explicação: a qualidade dos empregos dos imigrantes são um fator de risco, diz ao The Local.

"Estamos a falar sobretudo de condutores de autocarro e de táxi, de pessoas que trabalham nos cuidados a idosos, em restaurantes, enfermeiros e outro pessoal hospitalar. O que estes empregos têm em comum é o facto de exigirem que os trabalhadores estejam em proximidade de outras pessoas", comenta.

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